19.10.08

Todo dia


Todo dia, o amor faz em mim tudo sempre igual. Me acorda e me move com ele, todo espanto e sono invencível. Me exaure e me alimenta, me despe e me respira, toma banho comigo, me desatina, me agita, me salva. De mim mesma me salva. Nada pontual.
Me escande em muitas sílabas, de fé e silêncio e desejo. Me lava os pés, os olhos, muda esfinge de água. Me enxuga e me veste. E finalmente me acorda: roupas velhas, alma nova.
Todo dia, o amor faz em mim tudo sempre igual. Me escolhe, me constrange, senta comigo, tomando café. Molha comigo as plantas, olhando pela varanda, paisagem de estanho e neblina. Às vezes muito azul, às vezes domingo. Às vezes feriado de sol.
Manda mensagens, o amor, pelas minhas mãos já antigas. Chora comigo, calado, esperando que alguém interrompa essa forma fútil e febril de fazer contato comigo mesma. Depois ri, desatinado e urgente. Bobo de esperança e carinho. Pleno de cuidados, ele me chama menina. Tola, melancólica, poeta. Larga pra lá e vai pela rua assoviando. Sobe no elevador do trabalho, já esquecido de tudo.
O amor. Todo dia. Almoça comigo e trabalha. Quer chamar atenção. Escreve mudas linhas oblíquas. Todas dizendo, encantadas: fica comigo, meu amor?
Todo dia, ele liga. Pra contar novidades, ele liga. Pra dizer do mundo. Do outro. Dos muitos modos de cantar e de morrer. Vê TV comigo, fica triste e desliga. O mundo ele desliga. E fica preferindo os livros.
Todo dia, ele inventa comigo uma forma nova de dizer seu nome. Um modo outro de pedir desculpas. Fica desencantado. Faz bico. Diz que não tem controle de si, me espanta. Escreve o nome dela em todas as paredes. Fica olhando depois, tonto de alegria bandida.
Todo dia, coitado, ele vai embora e volta. Desiste de tudo. Desamparo. A fome aperta, seis da tarde. Louco pra beijar, ele me espera.
Eu sento com ele no colo, digo que está tudo bem. Me resguardo. Deixo ele chorar baixinho. Deixo ele dormir. Quase menino e pavor.
Depois acorda, renovado. É a vez dele me ninar. E sorrir. Afaga meus cabelos, o amor, me põe deitadinha na cama. Faz de mim o que quer; diz que é assim mesmo. Hoje beija, amanhã não beija. Eu e Carlos, impacientes. O consolo da poesia vem dele mesmo, culto e suave. Eu escuto seu canto, vou dormindo aos poucos. Entre febril e iluminada. Entre triste e alegre.
O tempo anda, eles vêm vindo juntos. Amor e sono. Sono e amor. Eu sonho com ela. Tudo está certo. De repente certo.
Ela virá. Eu sei. Foi o amor que me disse.

3 comentários:

Projeto Eutanásia disse...

Ah, que delícia!

Drummond, uma hora dessas distribui sorrisos e olhares de satisfação.

Arrasou.

Beijos, alegrias e poesias,

Daniel Rubens Prado.

Anônimo disse...

Reb, gostaria há tempo de elogiar as gravuras com que você introduz seus textos. Para mim são sempre deslumbrantes. Pensei que deveria elogiar tb as gravuras porque elas, embora não sejam criações suas, são escolhidas por vc e esse movimento dá uma autoridade (de autoral)sua na exibição delas.

bjos,

Clau

Rebecca P. disse...

Dani, obrigada!
Seu elogio me deixa mais do que feliz! E espero que nosso Carlos tenha gostado também... rsrsrsrs!

E Clau, as gravuras eu nunca tinha muito tempo de procurar, mas depois que achei o site "we heart it", onde as pessoas postam só as fotos que acham mais lindas pela web, meus problemas acabaram... eu me cadastrei lá e vivo encontrando imagens belíssimas, de fotógrafos e artistas do mundo todo... é um deslumbre, vai lá!