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Mostrando postagens de Abril, 2007

Pão e Circo

"... Ele é o empregado discreto Ela engoma o seu colarinho Vão viver sob o mesmo teto Até explodir o ninho..." [O casamento dos pequenos burgueses - Chico Buarque - 1977/78] Todos os dias, às 10 e 45, de flanela em punho, ela coordenava os últimos retoques da empreitada matinal de todos os dias: a meticulosa e vasta arrumação da casa. Depois de limpos todos os quartos e arrumados todos os banheiros, depois de devidamente alimentadas de água e adubo todas as plantas, depois de afofados os travesseiros e guardados todos os objetos que haviam saído de seus lugares, depois de trocadas as toalhas e depois de eliminados os traços de lixo de todas as lixeiras, depois de capturadas as roupas já secas no varal (coisa que ela acabara de fazer), depois de tudo isso, então, às 11 e 55, com o cesto de roupas em uma das mãos, ela atravessava o quintal imenso.

Saía de trás dos lençóis coloridos estendidos no varal como de trás das cortinas de um grande teatro. Suspirava, com uma das mãos sobre o…

Dedicado amor

Há momentos em que todo falar é pouco.
E o silêncio, ficando imenso na boca,
Parece vibrar como um pássaro aceso.

Há momentos em que todo amor é pouco.
E a vontade de amar, ficando imensa no corpo,
Pesa suspensa, como uma lápide ausente.

Há momentos em que toda devoção é pouca.
Porque o ardor e a palavra, esses incógnitos,
Escandem, verso a verso, tua figura breve.

Mas é assim, devotada, amorosa e muda, que te amo.
Já que as palavras não fazem mais leve, nem mais puro,
O violento e delicado abismo
Que te entrego.

Os noivos

Os noivos são muito jovens, e tão transparentes! Querem um futuro longo e plácido, sem altos e baixos, sem discrepâncias. Por isso juram fidelidade. Um ao outro. Ambos ao mundo que aprenderam a reconhecer e a amar. Ambos ao Deus que compartilham, à igreja que os casará em brancos, à família que querem ver crescer e multiplicar.

Os noivos são docemente devotados. São sóbrios, limpos, promissores. Não vêem ainda o controle exigido pela sobriedade. O desperdício oculto na limpeza. A dívida atrás da promessa.

Não conhecem a morbidez, a violência ou o medo dos aflitos. Não se afligem, não temem, não se desesperam. São castos e delicados, quase de vidro. Sua esperança, afinada e desmedida, ainda não foi seduzida pelo cinismo vulgar dos amadurecidos. São jovens, são belos e se amam. E isso é tudo.

Os noivos andam de mãos dadas pela rua, tomam sorvete, escutam música, olham as vitrines, as árvores, o céu e os detalhes, nunca antes vistos por ninguém, em cada um daqueles prédios hoje arruinados…

História Possível

Era uma vez um pai que ficou tão nervoso com seu filho, tão magoado e ofendido que afiou uma faca de cozinha, muniu-se de álcool e ódio e armou tocaia no terreiro do casebre onde o filho agora morava, já que o pai o havia expulsado de casa.

Era uma vez um filho que teve tanto desprezo e raiva pelo pai que resolveu matá-lo. Para tanto, roubou de um amigo um 38, amoitou-se na varanda da casa do pai e esperou.

Era uma vez um pai e um filho que vararam juntos uma noite estrelada de inverno. Um esperando pelo outro. O outro esperando pelo um. A noite toda. Horas e horas a fio.

Quando a noite acabou, a raiva grande havia passado, mas não havia mais pai nem filho. Só um desarmado cansaço.

O filho tinha raiva do pai porque este não soube entendê-lo.

O pai tinha raiva do filho porque este não soube honrá-lo.

O filho era homossexual e havia sido surpreendido ao beijar o próprio irmão na boca, nos fundos do quintal.

O pai era sargento da polícia e havia surpreendido o próprio filho beijando o irmão na …

Babel Inexpugnável

No primeiro piso da torre, há apenas o verbo. A confusão do verbo.

Depois, vão se seguindo as balbúrdias, cada vez mais refinadas, cada vez mais firmes.

Há o piso da confusão das idéias, claro. O piso da confusão dos conceitos. O piso da confusão dos argumentos. O piso da confusão de princípios.

Há o piso da colisão de teoremas. Do embaralhamento das direções. Do teatro circular da dialética. E também, como não, os andares destinados aos erros de cálculo, aos mapas inúteis, às palavras soberbas, às listas de nomes da anatomofisiologia, ao sono ou ao idealismo fútil, enfim, à tudo aquilo que confunde e constrange, aos catalisadores da dispersão e da fuga. Os andares reservados para as provocações do álcool, dos alucinógenos e dos estimulantes em geral são inúmeros, sofisticados, intercalados por toda sorte de desordens menores e divertidas, salas abertas para o esquecimento e para a alucinação, câmaras delicadas para as viagens imaginárias, quartos propícios para a divagação e o estudo de …

A moça do caixa

Na fila do supermercado, automatizadas pela luz metálica, marcham lentamente algumas pessoas. Elas têm o olhar ausente de quem percorreu longos caminhos. Têm o olhar duro de quem encontrou muito, mas não o que procurava. Os braços e carrinhos estão cheios de coisas variadas. São caixas coloridas, simpáticas latas de alumínio e pacotes brilhantes de múltiplos tamanhos. Na esteira do caixa, logo mais à frente, essas singelas embalagens, ícones de sobrevivência e fastio, viajam plácidas pela borracha escura. A fila não anda, escoa. Viscosos e lentos os passos. A menina do caixa é novata e seus gestos rápidos, mas desastrados, mostram que ela se desespera facilmente. A fila cresce, suas mãos tremem. Mas ela não pode parar. As mercadorias são exibidas, uma a uma, ao espelho da máquina leitora, cuja habilidade em registrar o valor das coisas parece inquestionável. Na fila, atentas e alheias ao ritmo sincopado do desfile e à muda confusão da moça do caixa, as pessoas preocupam-se em exibir su…

Arquiteturas...

A casa da escrita é desenhada aos poucos. Em febre e vício. Em cada traço, segue-se o rastro de algo que se despossuiu, que foi se desmanchando de si, para atingir algo que não era ele mesmo, mas acabou sendo. Em cada linha, em cada ênfase, em cada perspectiva, dorme uma espera que não se conclui, que não pode acabar. A casa da escrita é a minha casa, feita de um quase papel, de uma quase miséria: a de não poder alcançar. A casa da escrita é feita de olhares alheios, de algumas derrotas, de doces traições. De íntimas alegrias se faz, de pequenas coisas, de brevíssimas notas.
Dizem que ela cresce e se movimenta no espaço, mas é no tempo do instante que ela fulgura sua pálida suavidade, sua impressionante estatura. Fugaz e tímida, ela nem sempre se mostra. Mas entre um susto e outro, ela acontece.

Um velho...

Às três da tarde, o velho decaído. O anjo. Cansado de bancos e contas, descansava no banco da praça. Andara à toa, por aí, perdido entre jovens de todas as cores, entre carros metálicos e azedos, entre nuvens ofuscadas de sol. Andara pálido, urgente, seguindo as filas reservadas para ele, mastigando com seu passo de manso as calçadas agudas, os múltiplos sinais de trânsito. Seus velhos rivais. Mas agora, com as pernas finalmente imóveis, pensava no banho fresco, na novelinha das oito, no sofá de pano cru, na insônia que viria logo, tão logo caísse a noite.
A rua rugia ao longe, o sol enfraquecia amolecido. O velho, delicado, encostou-se devagar no encosto do banco, fechou os olhos e suspirou de cansado prazer. Cumprira as tarefas todas, o filho ficaria feliz... trabalhava tanto, o pobre. Em breve levantaria dali, pegaria o ônibus, compraria um moreno pãozinho para o lanche, tomaria seu café em paz. Em breve tomaria coragem, era só um minutinho de nada.
Em breve, o velho ressonava alto, cu…

um começo... outros delírios...

Esse blog começa assim. Já começado. Ele já foi idéia e projeto e dúvida e silêncio. Ele já foi outras coisas, mas agora é blog. Ou seja lá que nome tenha. O nome não é importante. Ou é?

Isso que agora vem fica sendo algo público e tímido e delimitado, mas já foi outras coisas, já teve outros limites.

Não se pode exigir de algo que tenha um ponto de partida só. Há muitos pontos, muitas linhas que terminam aqui. Outras começam aqui. É isso mesmo.

Aliás, gosto da intervenção que Clarice Lispector fez nos textos sagrados... No começo não havia um verbo. Houve um sim.

Sim, houve um sim. O problema, se é que problema é, é que no íntimo desordenado do sim já se ouve um matreiro e teimoso não.

Então. Esse blog começa como tudo começa. Com um sim e com um não. O que, aliás, não pode nunca ser confundido com um talvez.