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Mostrando postagens de Janeiro, 2013

Uma vez...

Ilustração: Anna Cunha
Uma vez, sonhei: uma bicicleta feita de acasos, de terra, de pedaços de coisas, de sinopses.

O sonho era cheio de vertigens, de bicicletas, evidentemente, de modos de colher água da chuva, de fazer as pessoas voarem, de cobrir a terra de um modo abrupto, de coisas assim esquisitas e impronunciáveis.

Quando acordei, anotei tudo num papel. Depois o perdi.

Hoje achei o papel, e não entendi nada. Na lembrança, uma vaga ideia. Uma concreta palavra: bicicletas. Só lembro, de forma absurda e profunda, que havia bicicletas.

Aliás, sonho muito com elas. É a única coisa, afinal, que sei dirigir. Mas sonho com carros também. E não sei dirigir carros.

Essa coisa do interior e do exterior. Uma bagunça.

Alguns objetos podem ser sujeitos. Isso se sabe.

Objetujeitos. Algo assim.

Mas, no meio da ideia, algo surge, se fragmenta, se isola. Como numa experiência científica ou amorosa.

Como num convite pra tomar um chá, ou participar de uma festa. Algo se nutre e se consola do abism…