17.6.09

Ou então

Encontra-me, boa amiga, no final dos tempos.

Lá, onde eu possa agarrá-la em definitivo.

Onde tuas mãos, de novo, possam lavar as minhas.

Onde teu sopro encontre minha sombra.

No fim dos tempos

não haverá mais fuga.

Nem perspectivas.

E seremos finalmente duas.

Que se foram.

30.5.09

Da fabulosa altura assimétrica do oposto

Há coisas que a gente não nota porque
são muito pequenas para serem vistas.
Mas há outras que a gente não vê
porque são imensas.
Robert Pirsig
É disso que se trata. De grandezas. De grandes e pequenos. É disso que se trata. De intensidades. De potências. De fúrias e tempestades. De atos. E de potências atuantes. De autuações. De atuações.
É sempre disso que se trata. De ser maior ou menor. Ou de parecer ser. Ou de obrigar a ser.
E também de transgressões. Se trata de transgressões. Ao ser maior, sendo menor. Ao dever ser pequeno, sendo grande. Se trata também de enormidades. De pequeninescências. De transgredir pelo exagero. Ou pela circunstância.
De coisas que, de tão grandes, são silenciosas. E vice-versa. Sempre há vice-versas. Pra dizer de uma troca, de uma transgressão. Ou de mais do mesmo.
Pra mim, sempre foi esse o problema. O problema do pequeno. Do pequeno pedindo desculpas. Por ser pequeno. Ou tendo vergonha. Ou ficando em silêncio. O tamanho como marca. Registro. Definição. O tamanho como necessidade. Como nome. Imposição.
De não poder ser maior. Por ser pequena. E de não poder ser pequena. Por ser maior. E de poder vir a ser, crescendo ou diminuindo, sempre de um outro tamanho. Como Alice. Mas não em qualquer direção.
Sempre foi isso. Direções. Crescimentos. Decréscimos. Retiradas.
Depois de algum tempo, cresceram os seios. Os pêlos. Mas não o desejo certo. Não na direção certa. O desejo. E as exigências mudando.
Não era só de grandezas que se tratava, mas de direções. Era de certo e errado que se tratava. Não de disposições. Era de sujo e limpo. De pecado e salvação. Era disso que se tratava.
No fundo, o problema era o mesmo. Grandezas, intensidades. Ou o que se dizia delas. Não poder ser grande. Por ser pequeno. Não poder ser certo. Por estar errado. Não poder ser limpo. Por viver impuro.
O tema era o mesmo tema. Só que travestido. E não se podia ir, como Alice, em duas direções. Só na direção certa. Que era a grande, a limpa, a exata, a útil, a branca, alta, altiva, restrita ao sexo que veio, ao país, à pele, restrita à superfície do nome, da direção, da falta de sentido do sentido.
Ou do excesso de sentidos do sentido.
Restrita, enfim, ao sentido, às sentinelas, ao sempiterno corte, ao traço aberto pela língua.
Ao caminho aberto pelos outros. Era disso que se tratava. Não abrir novas veredas. Não fugir da reta. Não derrapar na curva. Sempre o mesmo caminho. Nomeado. Sedento de grandezas. De coordenadas. Sempre o mesmo e grandioso caminho. Palavras grandes. Astros, noites, tempestades.
Mas o viver no meio mesmo do pequeno. É disso que se trata. Viver no violento meio. No pequeno. No violento sujo. No feminino, no avesso, no oposto, no espanto. O viver pelo lado de fora. No negro, no fuliginoso pardo, no inferno dos outros, sendo outro.
Sendo outra.
De outra forma, de outra cidade, de outro tamanho. Vivendo em outra velocidade, em um país onde o tempo se expande, onde o clips esquecido na calçada pode ser salvo e entregue a outras sortes, onde o que é pequeno pode violentamente crescer e continuar pequeno.
Pequeno e nunca visto, inexistente, esquecido, transparente, opaco ou luminoso, não importa, desde que invisível, grande ou pequeno, mas invisível, intocável, intangível. Expulso.
Porque é disso que se trata, no fundo. Ou na superfície da língua e da pele. De tocar e de ver.
De tocar pra ver. Se existe. Como Tomé. Como outros tantos duvidando. Duvidando do sentido e da falta de sentido. Duvidando da fome disforme do desejo. Duvidando da página nunca escrita. Da língua dilacerada pela história que sempre existiu. Da pele inflamada pela trégua que nunca veio. Dos sonhos no deserto. Da desaparição do mundo e do tempo sob o mistério da palavra. A divina, não. A humana mesmo. Pequenina e alta palavra. Sensível ao toque. Escancaradamente cruel. Ferina e feliz. Nomen clatura. Fiel e tangível ossatura de espantos. De surpreendentes proezas. De vazios.
De uma sede que nunca passa. De uma vontade escura de encontrar você. Tocá-lo com dedos de louça e amor.
Porque é de tocar e sentir. É disso que se trata.
De fomes. Não de nomes.

26.4.09

Será mesmo?

Deixe isso pra depois.
Não se preocupe com os muros.
Não vai haver muros.
A terra não tem divisões.
Juan Rulfo
Para sobreviver, é preciso não esquecer da culpa. Do choro, da reza, dos gafanhotos da bíblia.
Que é dos personagens? Ruth, Raquel, Madalena. Estátuas de sal. Mulheres e maçãs vermelhas. Personagens são máscaras elétricas. Estertores singulares. Símbolos castrados, nuvens de gafanhotos ocultando um céu deserto. Demônios aparecem e somem.
É preciso não esquecer que há palácios. É preciso não esquecer que há escadarias que levam a quartos de cartolina e crepom, onde as frutas maduras das mulheres esperam para ser colhidas a tempo. Se não, secam, apavoradas. Portanto, é preciso não esquecer que há sempre frutas maduras apodrecendo de cansaço nas árvores. Sem que ninguém as possa alcançar, sem que elas caiam.
É preciso não esquecer que tudo isso está escrito no livro fétido dos homens. Livros violáceos de sangue e poder. Livros de violação.
É preciso lembrar que há anêmonas urgentes no mar escuro, que não há filosofemas que nos salvem, que há bocas ainda não mordidas e decifradas nos esperando no portão, que há homens sem olhos aguardando o aviso final. Para avançarem sem remissão.
Será mesmo possível continuar? Meu texto é uma porta que se fecha. A página ferida. A garganta trancada pela sede. Como uma cidade para a qual não se pode voltar. Como um incômodo cheio de frases inúteis.
Escrever é uma coisa crua. Sobre palavras líquidas lambendo azulejos mofados. Sobre muros de concreto e ferro empenhados em sufocar. Sobre vísceras femininas dilaceradas por galhos fervorosos, dispostos a mostrar como somos acessíveis.
Por isso escrevo tão em silêncio. O mundo está muito restrito. Há muros em toda parte.
Mas há pontes também. Algumas delas.
Por isso sobrevivemos?

2.4.09

Um nome para Deus - Parte II

Depois, foi a vez das outras vezes. O nome de Deus sempre presente. Presente nas conversas, nas aulas, na tv, nos mistérios todos. Uma vez aparecido, começou a ouvi-lo em toda parte.

Com o tempo, tomou coragem. E perguntou aos pais como fazer para conhecê-lo. E chorou contando que todas as colegas o viam sempre na escola. Menos ela.

Os pais se enterneceram com a confissão ingênua. E trataram de mostrar as dificuldades de Deus. Não podia vê-lo, mas devia amá-lo. Ele era o pai de tudo. O criador de todas as coisas. Poderoso, soberano, intangível. E magnífico. As palavras novas e ainda estranhas deram ao personagem uma coloração mágica. Não parecia nada difícil amar aquele ser tão bondoso, segundo o pai, e tão misterioso, segundo a mãe (que, só muito tempo depois, confessou que duvidava de sua existência).

Ele mora no céu. Diziam eles. E aquele lugar todo azul passou a dizer de uma intensidade, de uma volúpia, de uma carícia. Ele estava lá. E em todos os lugares.

A mãe explicou como se rezava, e como podia encontrá-lo assim, no seu coraçãozinho de criança. O pai mostrou que havia muitas religiões. E disse que a dele era a melhor. Que o seu Deus era muito mais poderoso e verdadeiro. Matriculou-a na Escola Dominical da igreja que ele freqüentava. E comprou pra ela uma roupa especial para o culto de domingo. Ela já estava pronta para encontrá-lo. Ele dizia.

Aquela súbita animação do pai a deixou quase em transe. Compreendeu que amar a Deus era condição para ser amada pelo pai. E se um era pai do outro, tudo estava então muito certo. De noite, quando rezava, já agora mestre na arte de agradecer por todas as coisas que tinha, era com grande empenho que o fazia. Tomada de profunda emoção e reverência, entregava-se ao nome de Deus como se o tivesse conhecido desde sempre. E sabia que ia adorá-lo eternamente. Cada cor nova que encontrava, cada palavra, cada emoção, cada pensamento, tudo ela entregava a ele, de noite, no frescor adocicado dos sonhos. Por tudo dai graças, ensinava o pai. E ela profundamente agradecia.

O mundo ficando maior. E mais suave.

Ela assistia aos cultos de domingo da igreja que era a do pai, muito compenetrada, embevecida com os pastores. Quando aprendeu a ler, o pai comprou pra ela uma Bíblia para Crianças. Toda ilustrada. As lindas histórias foram lidas com uma sofreguidão de amante. Nervosamente. Intensivamente. Devorava as páginas, as figuras, os sonhos de José, as parábolas de Jesus.

Mas na extremidade da fé, estavam as palavras. As histórias. Depois do nome de Deus, conhecia a palavra de Deus. A palavra de Deus era forte e justa. Dizia o pai. Dizia o pastor.

A palavra de Deus era a verdade e a vida. Os que duvidavam eram fracos e pecadores. Diziam todos.

Era preciso não duvidar.

Mas ao não poder duvidar, já duvidava um pouco. Porque não podia duvidar? Decerto ela, que era tão pequena, e sua dúvida, que era ainda menor, podiam abalar algo tão grande quanto a verdade de Deus? Duvidava muito.
Foi então que começou a testá-lo. A Deus. Duvidava muito, pra ver o que acontecia. E nunca acontecia nada. Começou a pensar que Ele, que sabia de tudo, já sabia que ela o testava, duvidava de mentirinha, forçava-o por meios ingênuos a aparecer com sua verdade mais verdadeira.
Era preciso duvidar mais fortemente? Era.
Então, foi a vez das outras vezes. O nome de Deus sempre em xeque. Lia as histórias da Bíblia de novo. Elas pareciam cada vez mais esquisitas. Povoadas de enganos. De traições. De fraquezas. De falsas promessas.
Cada história assegurava uma pergunta. Cada pergunta, uma possibilidade de resposta. Cada possibilidade, uma cilada. Cada cilada, uma nova forma para a culpa. Só ela não entendia a palavra. Só ela duvidava. Só ela negava. Muito mais do que três vezes.
Todas aquelas palavras foram se parecendo cada vez mais com o zumbido na igreja. Eram ininteligíveis. Inacessíveis. Insolventes. Sussuros fantasmáticos de uma voz sem rosto. Cada vez mais firmes, anunciavam uma presença que não estava lá.
E que talvez. Dúvida das dúvidas. Nunca houvesse estado.

21.3.09

Ops!

Cansada de dizer coisas óbvias ou coerentes, ela divagava. Detestava a coerência, que era pra ela como uma espada espantada. Passou a dizer coisas alhures. A misturar melancias com pistões. E dava mesmo muito certo. Algorítimos casavam bem com sinagogas. Suspiros, com determinações. Era mesmo assim mesmo. Ela era ovalada. De suas pernas nasciam hermenengardas, que só andavam vestidas no outono. Seus cabelos, feitos de sistemáticos motrizes, nunca eram cortados, mas diziam muito. Diziam louças e tempestades. Tramas familiares. Estigmas. Tudo por uma esmeralda. Viaturas.

Cansada de dizer coisas prudentes, começou a arriscar no escuro. Nada era muito pouco. Tudo sobrava em puro susto devedor. Ela era Penélope costurante e Orfeu desatado. Nadava sempre de costas, para não encontrar a outra margem. E ganhava sempre nos jogos, disposta a modificar o circunflexo.

Foi queimada dezoito vezes, e tem cicatrizes fetônias, mas não se rende. Depois de terminados os sábados, vai adoecer na chuva, para melhor se fortalecer.

Cansada de ser de verdade, passou a estalar os dedos sempre que uma guerra acabava. E elas acabavam muito, mais do que começavam. Talvez porque sempre fosse preciso dar lugar a outras velocidades, e talvez porque elas não fossem de plástico. E se enguias ainda hoje a confundem, não é mais com ódio que ela as recebe entre seus dedos.

Cansada de dizer coisas urgentes, passou a ser arauto do olvido, e a construir carvalhos. Ela era uma espécie de isotopia. Uma oficina de meandros.

Mas foi só depois, muito depois, que perceberam sua importância.

Era ela que lambia o mundo.

16.3.09

Chuva de Letras

Esse post é só pra convidar pro lançamento de Chuva de Letras, o novo livro do Luis Alberto Brandão. Desta vez, escrito para os pimpolhos...

O evento vai ser no Café com Letras, no dia 28/03, sábado, a partir das 11:00h.

http://www.scipione.com.br/chuva/chuvadeletras.swf

A julgar pelos dois primeiros - que me deliciaram, comoveram, seduziram e encantaram de uma forma muito particular, e quase intraduzível -, o livro novo é sem dúvida esplêndido.

Vamos?

8.3.09

Um dia como qualquer outro?

Nesse dia das mulheres, faço questão de reproduzir aqui um texto de Marjorie Rodrigues, que resume o que eu penso sobre o assunto com muita propriedade!
Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: ”parabéns”.
Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”.
Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.
Dizem que a rosa simboliza a “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade — da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a – afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis.
A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas. Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger. Mas, bem, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro.Este tipo de crime também aparece com frequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” – o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que “amam demais”, não os homens.
Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”. A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.
Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?
Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades. Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10oº lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso — onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.
A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor…). Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca. Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”. Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama. “Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.
Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamurizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.
Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio , isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.
Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.
…Enquanto isso não acontecer, meu querido, enfia esta rosa no dignissímo senhor seu cu.
. . .

O texto faz parte de uma campanha conjunta, organizada pela Marjorie e por esta comunidade.
Se quiser, pode reproduzir o texto em seu blog ou perfil no orkut/facebook! No entanto, não se esqueça de dar os devidos créditos.
. . .
Cynthia Semíramis tem um excelente guia para não ser escroto no dia internacional da mulher.
No ano passado, nessa mesma época, escrevi um post com minhas reflexões sobre o tema: Sobre mulheres, homens e pessoas, e participei de um filme muito legal, que também trata dessas questões. Vale a pena ler, e disseminar, de novo. Estou preparando um material para esse ano, mas acabei me atrasando... Em breve posto aqui.
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Atualização
Mais um texto bacana sobre o tema, do blog Histórias de Menina.
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Atualização 2
E o apoio do querido Saramago:
e

14.2.09

Um nome para Deus [Parte I]

Foi quando ouviu o nome de Deus pela primeira vez.

Primeiro dia de aula, escola nova, uniforme novo. Outras coleguinhas. O coração batendo grande e urgente. No meio da primeira aula, ela apareceu. Era uma moça bonita, mas vestida de um jeito esquisito. E prometeu que depois do recreio as pequeninas novatas iriam se encontrar com Deus na capela principal. Deus?

A voz da moça era grave e firme. E parecia emocionada. Não podia ver seus cabelos, escondidos embaixo da touca, mas os lábios finos, suavemente expostos num sorriso, além daqueles olhos tão brilhantes, rapidamente a convenceram da importância do encontro. A simplicidade do nome a emocionava, e uma vaga lembrança de que já o havia escutado antes dava-lhe a certeza de que, finalmente, alguma coisa iria conhecer do mundo distante dos adultos.

O recreio foi longo pra tanta expectativa. Com o lanche esquecido no colo, a toda hora pensava naquele nome, e no que ele tinha de lindamente simples. Deus, deus, deus, deus. Estava eufórica, e nada lhe pareceu mais estranho do que o modo como todas as outras garotas se comportavam diante daquela notícia. Brincavam ou conversavam animadamente, e mal pareciam se lembrar do que estava prestes a acontecer. Vai ver já o conheciam, pensava, e isso a deixava um pouco triste. Talvez não soubesse se comportar direito em sua presença. Era sempre tão tímida. Tão arisca. Talvez ele, como o pai e a mãe, quisesse muito abraçá-la, e ela não deixaria, de pura falta de coragem. E ficaria depois tão frustrada, com o desejo do abraço pendendo frouxo das mãos. Mas talvez ele fosse mais fácil, como alguns adultos o eram, quando não se importavam tanto com abraços e beijos melados, deixando que ela ficasse ali, quietinha, só ouvindo, e pudesse aos poucos, nervosamente, chamar a coragem necessária para enfim se aproximar, tocando-lhes de leve o braço.

Deus, deus, deus, deus. Como seria ele? Seria bonito como o pai? Teria olhos azuis tão lindos como os da mãe? Seria gordo? Seria velho? Seria pequeno? Vai ver era um gigante, por isso a tal capela principal era tão alta. A mãe já tinha mostrado. Mas podia ser um menino gigante. Ou talvez fosse uma moça bonita como aquela da roupa estranha, só que ainda maior, mais alta. Talvez fosse uma princesa como as das histórias, por isso tanta importância. Talvez tivesse que fazer mesuras e se ajoelhar, como a mãe explicava que se devia fazer nos palácios. Tinha medo de perguntar. Como ninguém parecia ter dúvidas, era melhor não falar nada, imitar tudo o que elas fizessem.

E assim fez. Depois de um recreio interminável, a hora finalmente chegou. As garotas todas, muito espertas, correram logo para a fila, ao chamado da moça de vestido preto. Ela seguiu rapidamente uma das meninas, e imitou seu modo estranho de ficar, cabeça baixa, passos lentos. Que coisa mais esquisita. Deve ser para ver melhor depois, pensava, atônita.

Na imensa capela, cheia de luzes brilhantes, a fila de meninas foi devagarzinho se enviando nas fileiras de cadeiras, sempre em silêncio, com a cabeça baixa. Todas se ajoelharam logo, e puseram as mãos juntas uma da outra, fechando logo os olhos, com convicção.

Ela olhava tudo aquilo muito surpreendida, mas imitava com cuidado os gestos todos. Não fossem pegá-la no flagra, na dúvida do que fazer. Deus, deus, deus, deus. E agora?

Agora a moça falava: “vamos rezar!”

Rezar? Rezar? O que será isso? Desesperada, olhava para os dois lados, as duas meninas ajoelhadas, tal como ela, mas plenamente conscientes do que fazer. Murmuravam alguma coisa, inaudível, com os lábios quase fechados. Era um zumbido bem estranho, e não parecia dizer nada. Mas as mãos apertadinhas, os olhos tão concentradamente fechados, aquilo devia fazer parte da recepção. Estava sendo mais difícil do que pensava, mas tudo bem. Fechou os olhos bem fechados, e apertou as mãos com força uma contra a outra. Dedos entrelaçados. Murmurava barulhinhos estranhos e incoerentes, parecidos com os que faziam as outras meninas. E quase nem sentia a dor nos joelhos, tão concentrada estava na imitação. Shh... fiiii… ai oss que estshhh ssss... san... ch... shhh... oss... nomb... ass...te.... comb.... ce...

Que horas Deus iria aparecer? Como deveria se comportar? O zumbido geral era acolhedor, mas muito estranho. Levantava os olhos às vezes, e via que uma ou outra menina fazia o mesmo, para rapidamente voltar à posição inicial. Ela deve estar confusa também, pensava. Talvez seja de fora, como eu. Iria hoje mesmo perguntar à mãe o que era aquilo, não podia ficar tão abandonada assim. Talvez ela soubesse. Ou então o pai. Se não, teria que passar pela suprema vergonha de perguntar pra moça de preto quem afinal era Deus, e o que devia murmurar para que ele aparecesse. Pensando melhor, era melhor não. Ela parecia tão certa de que todos o conheciam. Não podia falar nada. Não podia.

Shh... fiiii… ai oss que estshhh ssss... san... ch... shhh... oss... nomb... ass...te.... comb.... ce... Shh... fiiii… ai oss que estshhh ssss... san... ch... shhh... oss... nomb... ass...te.... comb.... ce... Shh... fiiii… ai oss que estshhh ssss... san... ch... shhh... oss... nomb... ass...te.... comb.... ce...

Deus. Deus. Deus. Deus. Onde estaria? Já começava a ficar cansada. E nada de nada. Que coisa mais estranha. Shh... fiiii… ai oss que estshhh ssss... san... ch... shhh... oss... nomb... ass...te.... comb.... ce... Shh... fiiii que estshhh ssss... san... que estshhh ssss... san... ai ai ai. Deus. Deus!!!! Será que só eu não estou vendo? Talvez seja como no circo. Mamãe já me levou lá. Algumas coisas somem e outras aparecem. Vai ver só vê quem sabe rezar. O que será rezar? Preciso perguntar logo isso pra mamãe. Tenho que me lembrar disso hoje ainda. Deus só não aparece pra mim. Por quê? Tudo isso é muito chato, e bem esquisito. Porque estão todos de olhos fechados? Será que ele só aparece no escuro? Será que é só um som? Uma voz? Um sonho? O que será? O que será?

Finalmente, a moça de preto, que também estava ajoelhada, se levantou, fez muitos gestos estranhos, de costas para elas, mas de frente para umas estátuas e uma grande mesa que estavam no final do corredor de cadeiras, e fez sinal para que a seguissem. As meninas todas, mais do que depressa, correram para a fila e voltaram à posição inicial, concentrada e de olhos baixos. Ela fez o mesmo, ainda mais pasma do que antes, mas fingindo profundo conhecimento de causa.

De volta à sala de aula, a moça de touca fez um sinal para a professora, mas não disse mais nada. As alunas, todas elas, rapidamente, voltaram à animação de costume, como se nada tivesse acontecido.

Tomada de profunda vergonha, ela se sentou bem quieta, esperando os próximos passos. Procurava entre as cabeças agitadas aquela menina que parecia ter levantado os olhos fora de hora, tal como ela, mas não tinha mais certeza se poderia reconhecê-la. Estavam tão diferentes agora. Tudo estava tão diferente agora. Deus não aparecera pra ela, fosse quem fosse, fosse como fosse. E pelo modo como todos pareciam estar felizes, isso começou a lhe parecer muito grave. Talvez a mãe pudesse ajudá-la, ou o pai. Mas não tinha mais certeza. Não tinha certeza de quase nada.

Mas de uma coisa teve certeza. As coisas estavam mais complicadas agora.

15.1.09

À maneira de Ulrica

Para Silk...
Sobre ela, pouco se podia dizer.

Dizia-se de sua pele comovente, expansiva em forças. Explosiva ternura.

Dizia-se de sua beleza. De seus girassóis. Leveza vibrátil e ardente, tocada pelo fogo, marcada por seu inexaurível mistério.

Dizia-se de sua febril intensidade. Seus olhos. Ardorosa meditação sobre a alegria. Dizia-se de sua vibração aquática, humores e fluidos em infatigável doçura.

Dizia-se de sua proximidade com os ventos. De sua liberdade cantante de moça do ar.

Dizia-se de sua densidade terrestre. Da disposição para o encanto. Das exigências do corpo. Das pernas.

Falava-se, sempre e sempre, acerca da conformação sutil de seus quatro elementos. Caleidoscópicos. Sutis neblinares de tímida e rutilante orquestração.

Dizia-se que era criança e mulher. E que podia ser encantadoramente nossa em certas noites de lua cheia. Ou quando do encontro de certos tipos de amuletos. E de suspensórios.

E mais não se podia dizer.
Porque seria sempre muito pouco.

5.1.09

De águas e vôos

Chove muito. Há muitos dias.

E em quase todos eles, você esteve longe.

Não posso te explicar quanto senti sua falta. Todos esses dias. Torrentes de água escoando, o muro liquefeito das esquinas, árvores ensopadas, pássaros escondidos, meus cabelos escorrendo, se desmanchando, o mundo inteiro se dissolvendo, os carros boiando sôfregos na tempestade, a noite submersa em rios, úmidas vertentes.

Chove muito. Há muitos dias. E em quase todos eles, você esteve muito perto.

Não posso explicar sua presença em mim, dissonante. Algo de água. Sempre fugindo. Dissolvida. Em todas as esquinas. Encharcando os sapatos, abrindo as sombrinhas, refrescando os beirais e amolecendo os telhados. Sua presença. Em mim. Na chuva. Liquefeita, esboroante, fúlgida. Tímida. O mundo inteiro encolhendo. Só sua ausência existindo. Meu coração boiando sôfrego na tempestade, contra o céu da meia-noite, te encontrando. A noite submersa em sangue, meu corpo todo pulsando, úmidas vertentes.

Agora continua chovendo. Mas você voltou.

E no conforto tão longo do seu abraço, me senti flutuar de novo na amplitude aérea do céu.

Não posso explicar o que senti, o que sinto ainda agora, o que invento. O céu ficando de novo claro, iluminado azul e mais leve. As árvores sacudindo as cabeleiras, gotas pendentes brilhando, sua elegância renovadamente limpa. As ruas emplumadas ao sol, exibindo cores novas e mais frescas. Janelas de repente abertas. Luz invadindo. Crescendo. O mundo inteiro de novo. Secando suas roupas ao sol. Flores, presságios, bicicletas. Cabelos ao vento. Andorinhas.

Eu com elas voando. Leve pássaro aceso.

25.12.08

Substantivo suicídio

O suicídio de um rato
não é igual
ao suicídio de um inseto
não é igual
ao suicídio de um mastro
não é igual
ao suicídio de um templo
não é igual
ao suicídio de um resto
não é igual
ao suicídio de um vício
não é igual
ao suicídio de um gesto
não é igual
ao suicídio de um fato
não é igual
ao suicídio de um tempo
não é igual
ao suicídio de um vivo
não é igual
ao suicídio de um morto
não é igual

mas é suicídio

23.12.08

Até aqui...

Foto de Maybeoctober


Encerrar o ano é um recurso muito útil. Todos sabem disso. Há todo um investimento coletivo no sentido de empacotar a memória dos doze meses anteriores, em envelopes bem datados e bem lacrados, e de preparar um ritual cuidadoso de despedida. Afinal, todo espetáculo tem fim. É preciso fechar as cortinas, apagar as luzes e sair de cena. É preciso dobrar os panos, encaixotar as fantasias e tirar a maquiagem. É urgente trancar as portas e deixar tudo pra trás.

Pra poder seguir em frente.

Uma frente, todos nós sabemos, que é mesmo o meio do mundo. O meio do tempo. O meio de um espaço todo bagunçado, que não tem começo nem fim. Que não tem bordas, que não tem saída nem entrada, que não tem sentido. Mas que continua.

Todos sabemos disso, mas isso não chega a ser um problema, porque ninguém quer saber disso. O futuro foi por todos nós traçado e por todos nós será escrito. Ele vai sempre pra frente. Inapelavelmente.

O futuro sou eu e você. O futuro é a nova peça que começa. Já com algumas linhas mestras traçadas. Já com alguns finais meio prontos e uma boa dose de humor e tragédia. É assim.

Um futuro escrito por todos nós. Dramas mexicanos. Novelas brasileiras. Vilões e vilãs parecidos, mas com nomes diferentes. Mais frios e calculistas do que nunca. E cada vez mais bonitos. Novos filmes de arte. Outras e diferentes roupas. Novos cenários. Velhas estratégias. Antiqüíssimos preconceitos.

Crises econômicas novas, mas com o mesmo sabor amargo no fundo. Somos todos culpados. Materialistas, pequeno-burgueses, sedentários, hipócritas, falsamente religiosos, genuinamente fiéis. Fiéis de nós mesmos. Entupindo as artérias, os shoppings, as caixas de e-mails, as igrejas, as salas de espera. Esperando por nós mesmos.

Esperando pela nova peça que já vai começar.

E que tem algumas linhas e quase que todo o enredo já pronto. É só preencher os espaços vazios, é só preencher os canhotos dos cheques, as filas do banco, do supermercado, do cinema. É só ocupar um lugar. Na fila ou fora dela. No estacionamento ou na sarjeta. No mercado de trabalho ou na lista de aprovados.

Está quase tudo pronto. O resto é bem fácil de fazer. É só cozinhar em forno brando, com uma pitada de sal. O sal é sempre a gosto. O gosto determina o final. O gosto determina a moda e a vitrine. O valor e o presente. O nacional e o universal. O gosto determina a fome e a sede. O que manda e o que recebe. Bom gosto, bom senso, temperança, temperos suaves, boa vizinhança. Caldo de galinha ou remédio tarja preta.

Mas o neutro está lá. Insuportavelmente insosso. Ora, mas ninguém quer saber dele. Ele não importa.

O que não tem nome, o que não ocupa espaço, o que não é nem doce nem salgado, o que não tem utilidade. Nada disso importa. A peça precisa começar.

Novos personagens, cenários conhecidos e velhos tipos urbanos são convocados. O bêbado e o equilibrista. O político em cima do muro e os muros de concreto armado.

E muros de outros tipos. Tão diversos. Muros de fome e de linguagem. Gente que não sabe falar francês. Gente que não sabe que passeio no Sena é cafona. Gente que nem liga pro fato de passear no Sena ser cafona. Gente que brilha e que morre de fome. Ou de overdose. Muros de purpurina e de celofane. Muros de sal e de açúcar. Muros de coca e de anfetamina. Cada um no seu quadrado. Ou elipse. Muros.

Novos personagens. Mitos antigos. Aquiles e seu calcanhar. Velhas atrizes e o medo de envelhecer. Penélope, Ulisses e suas tantas artimanhas pra não sucumbir. Novas pílulas e velhos exercícios para emagrecer. David e Golias. Nós e nossos espelhos.

Muros são recursos úteis. Muros de tempo. Ano passado. Esse ano. Ano retrasado. Ano que vem. Muros entre um fracasso e outro. Entre um sucesso e outro. Entre uma religião e outra. Entre um deus e outro. Entre um amor e outro. Muros de solicitude e de solidão. Muros de esperança também: não vai haver mais muros! Muros de ilusão.

A ilusão é um recurso utilíssimo. Imprescindível. É preciso fingir que o cenário não é de papel. É preciso imaginar que o ator não está viciado, que ele não é gay, que ele é pai de família, tem três filhos e talvez uma amante. Velhas histórias. Velhos vilões. É preciso contar com os vilões certos. Um para cada muro. Um para cada religião. Um para cada forme. Um para cada regime.

É preciso contar com os heróis também. Com os mocinhos e com as mocinhas. Eles nos falam de nossos muros. De nossos espelhos. Eles nos confirmam e nos arrebatam. Eles nos preenchem e perpetuam. Eles nos salvam do quadrado alheio. Da cafonice alheia. Da elipse alheia. Da miséria alheia. Da riqueza alheia.

Eles nos salvam de uma vida sem final feliz. De uma vida sem final trágico. Eles nos salvam de uma vida sem final. Eles não deixam as teorias ficarem sem conclusão ou os problemas sem solução. Heróis são sempre úteis. Imprescindíveis. Eles e suas espadas. Elas e suas lágrimas.

Violência e martírio. Elementos que não podem faltar na nossa peça cotidiana. No nosso dia-a-dia, no nosso copo de água. Muros de dor e sacrifício. E culpa. Velhos personagens. Novas histórias. Jesus e seu sangue permanentemente derramado. Brigas de bar. Tiroteios. Antígonas e Medéias entupindo os presídios. Estatísticas. Histórias de sucesso. Vilões e mocinhos. Casais apaixonados. Sexos diferentes, por favor.

Violência e martírio. Amor e sexo. Paixão e Glória. E de vez em quando uma grande descoberta científica. Traições. Separações. Novos encontros. Pontes.

Sim. De vez em quando. Entre os muros. Uma ou outra ponte. Entre os quadrados e elipses. Entre um soluço e outro. Entre uma culpa e outra. Entre um amor e outro. Pontes.

Pontes entre mulheres e homens. Pontes efêmeras. Sempre efêmeras demais. Impermanentes, indóceis, impróprias, quase inúteis. Mas ainda assim, pontes.

Entre eu e você. Entre você e seus muros. Entre eu e meus heróis de placebo. Entre nós dois, nós duas, nós três, nós mil, nós muitos. Pontes de fé e de silêncio. Pontes para diminuir nossa culpa e a dos outros. Pontes para o pequeno detalhe. Pontes para a beleza inútil, inabordável. Passageira. Pontes para a poesia sem retorno, para a história sem sentido, para o sorriso sem motivo. Para a árvore que ninguém vê no meio do trânsito. Pontes para o neutro, para o sem sal ou doce. Ou marca. Para o sem gosto. Pontes para o outro gosto. O ainda não provado. O recusado. O já fora do prazo de validade. O já fora de moda. Pontes para o lado de fora. Para o meio do caminho, para o meio da rua, para o meio do mundo. Pontes entre as histórias. Entre as memórias. Entre os sentidos. Pontes entre as peças. Entre os móveis. Entre os medos.

Pontes efêmeras. Sempre efêmeras demais. Impermanentes, indóceis, impróprias, quase inúteis. Mas ainda assim, pontes.

Pontes para o presente. Pontes para o milagre que não é depois. É agora. Entre o amanhã e o ontem. Entre esse ano e o próximo. Entre eu e você. Entre os muros. Agora.

Hora de atravessar.

21.12.08

Depoismente do fim

Aceita. Tudo acaba, escritor. O que é bom dura pouco. Mas não se desespere. As coisas te farão companhia.
As memórias, ainda que dispersas ou já dispensadas, podem te perseguir docemente no escuro, amargadas de terem partido. Subrepticiamente.
A faca e o queijo. Cá estão. Faça deles e com eles o possível para não sofrer. Não rompa em soluços, não arranque os cabelos. O livro acabou. Não há mais palavras. Mas faça o possível para esquecer isso.
É fácil. É só pensar que tudo é feito de água. Tudo mesmo. Água escoante, vibrante suave, contornando os perigos, amolecendo pedras.
Águas torrenciais descem do céu. É tarde. Você fracassou, mas as pernas estão inteiras. Andam, adormecem, se estendem. Muito brancas.
É cedo para sofrer. É tarde para partir. É hora de desistir. De golpear o ar.
...
Mas depois. Ah! Depois você pisca o olho e sorri.
O mundo está todo inteiro de novo.
A chuva se foi. O cansaço também. É domingo.
E a literatura continua.

12.12.08

Narcisistic home

O negócio é o seguinte: talvez a escrita nem comece. Estou em casa. Ou mesmo na rua. A casa é o intervalo para a rua. A casa é o começo da conversa.
Daqui, ouço gritos. Moro no centro. O centro da cidade é um estampido. Rumores de todos os tipos. Sonoros, roucos, mudos. Viscosos. Gritos. O tempo todo. É como uma espécie de fábrica. De mugidos e cisternas. De gargalhadas. É como uma espécie de mercado. De fim de sexta-feira. Assovios, apitos, estalos, arranhões. Todo mundo.
Algo vibra o tempo todo. Não faço idéia do quê. Bom, está chovendo. Mas não é o barulho da chuva. É atrás da chuva. É atrás do som. Algo que não se escuta nunca. Só agora. Depois do silêncio dos tacos. Antes do elevador.
A casa é engraçada. Toda em portas. Um corredor. Algo que se estica. Uma varanda. Portas encardidas. Pedaços de fios. Conexões. Rios antenados espumando ligando controlando. Confirmando. Somos todos muito sozinhos.
O lugar do telefone é importante. O espaço da tv. O espaço da fome. Eu não tenho sala de jantar. Nem sala de justiça. Eu não gosto de tv. Só de cinema. Mas gosto de novela. A coisa mais triste do mundo é programa de auditório. E auditoria de sistemas.
A coisa mais triste do mundo é achar algo triste. Se é assim, é porque se está triste. Porque tudo não é muito triste não. Tudo é bem mais ou menos. Meio que não se sabe se é bom ou ruim, até saber. Tudo é assim feito uma estopa. Pode estar suja ou limpa. Mas na verdade está suja. Mas o sujo não é sujo quando é antigo, entende? Encardido não é sujo, é já marcado. Marcado por uma vida de entregas, entende? Como algo que já foi. Não é novo mais. Foi sempre.
Mas pode ser visto como. Como se fosse. Novo ou limpo. Mas as marcas estão lá. Uma coisa pode ser gasta e pobre. Mas não deixa de ser neutra. A luz bate, e pronto. A coisa acontece. Fica toda nítida. Exposta. Derepente coisa. Até bonita. Como a minha casa. Como eu.
É uma espécie de feira. De banalidades. De urgências. É quase como um grito solto no meio do ruído. Sempre alguém ouve. E nunca importa tanto.
A casa sou eu mesma. Quase nublada. Uma casa com muitas portas. Kafka de saias, coitada. Só pensa em amores e mulheres que já foram embora. Uma casa é feita de paredes. Todas elas. As casas são cozidas lentamente. No pano quente das esquinas. Toda casa é um suspense e um aviso. Toda casa é fácil de dizer. É só dizer. E só olhar. É só fotografar.
Olha. São 9 e quinze. Ninguém me ligou ou escreveu. Todos sabem que tenho que estudar. Mas não estudo, não consigo. Talvez seja tarde demais.
O que sei do literário, nunca soube. É puro teorema. Abstração dilatada. Esquecimento. O que sei, já foi dito. Mas posso dizer de novo. Isso posso. Quer saber? A escrita são muitas casas. Uma dentro da outra. Todas ao meio. A escrita é o ovo de Clarice. A casa de Duras. A minha casa. Uma casa de corredores e fios. Uma casa de janelas fechadas. Lembrem-se, eu moro no centro. A escrita é a casa do encontro. Não há encontro fora dela. Da escrita. Casa ou rua. Não importa. Toda casa é pública e notória. Nem todas as casas têm privada.
É muito triste não poder abrir as janelas. É triste não poder entrar em todas as casas. É triste ser triste, vou ser alegre de novo. Juro. O mar vem voltando pra mim. Eu, marítima, aguardo brisas novas. Elas vêm chegando. Eu sinto.
Me aguardem, vou ser muito alegre. Vou ser um canto generoso e bendito, invandindo espaços com a crueza da alegoria. Evolução, vão dizer... nota 10.
Olha, estava tudo escrito. Eu vou escrever tudo de novo. Umas mil vezes. O problema é que as pessoas não ouvem. Eu também não. Ninguém está aqui, mas alhures. É super fácil escrever teorias com sempre, nunca, todo mundo e ninguém.
Olha, está tudo em outra parte, sabe? Vou dormir agora. Peraí, vou estudar, lembrei. Tenho que escrever uma carta de amor antes, se não não consigo estudar.
Sempre foi assim. Cartas de amor. Cartas chilhenas. Cartas de amor. Cartas portuguesas. Cartas de amor. Cantigas de amigo. Cartas de amor. Torres de Babel.
Algo vibra o tempo todo. Serei eu mesma? Algo está sempre por acontecer. Isso dizia Clarice. Minha casa está toda assombrada por fantasmas. Não posso dormir, se Deus não vier.
Ele vem, é importante que venha... Isso eu sempre soube. Eu e Riobaldo. Eu e Diadorim. Eu e Clarice. Eu e todo mundo. Deus é neblina. Deus é mulher. Deus é a minha casa. Deus sou eu.
E eu. Meu deus. Eu só tenho um espelho para me encontrar.

2.12.08

Soleira

Sentada à beira do sol, como a beira de um riacho, a menina mergulha as pernas na poça escaldante de luz. O resto do corpo esfria na sombra, refrescado em repouso de paz.
Do lado de fora, a cidade passa por ela, em lenta progressão anti-cinematográfica. Paquidérmica e grave, escorre em sua modorra de verão. Do lado de dentro, a casa descansa refrigerada. Telhas de barro e louça enxuta.
Quem vê, pensa que está tudo parado. Mas não está.
Na porta, o polígono luminoso avança pelas pernas da menina, subindo aos poucos em seu erotismo delicado. Os pés já fervem sobre o cimento, joelhos e coxas vão mergulhando devagar na piscina de calor.
A essa implacável arremetida da natureza, ela se expande. Cada vez mais lânguida. O corpo amolecido de amor. A febre cada vez mais urgente, ávida, úmida.
Entregue.
Por fim, já quase exangue, a pele iluminada tem sede - e insiste em fazer sofrer a menina. O suor aumenta seu trabalho, refresca os dedos, o pescoço, a fronte. Os olhos.
É tarde, é tarde, é tarde. Um resto de pensamento se aproveita. A menina reage sôfrega, estica o corpo, sacode os cabelos, o excesso de ardor.
E desaparece na neblina sonora do almoço.
É hora de continuar.

1.12.08

Uma frase...

26.11.08

clip

Foto de Guy Sargent

Sobre o meu colo repousa
quase pluma
sua presença-presente

E a lembrança desse ardor
já quase antigo

desfia
desnuda
desperta

temas que nem têm nome
ou forma

Mas andam comigo
suspensos

Em franca vizinhança

15.11.08

pois é

Otávio dizia assim: eu fui até o fim por você!

Ao que Sofia retrucava: então, meu bem, e daí? Você nem morreu nada, morreu?

Ela não era muito romântica, e era bom que fosse assim.

Otávio, afinal de contas, era só um moço comum que queria sofrer um pouco.

Mas o fim era muito longe. E Sofia tinha uns seios lindos.

Era melhor que fosse assim.

Mais simples.

.

Mas depois de murchos os seios.

E acabado o amor.

Ele teve que admitir.

Que era um moço comum.

Sem final trágico.

Ou enredo exuberante.

.

Mesmo assim.

Não era nada simples.

4.11.08

De repente

De repente, era a alegria que voltava,
De mansinho, de tardinha, como um sopro de vento depois de escaldante calor, como beijo de amigo depois de briga, como sorvete depois do trabalho, como saúde voltando, vida, expectativa, densidade, começo de noite na praia, banho de cachoeira, patinação no gelo, bicicleta na descida, jabuticaba no pé, passarinho voando bem alto, no esplêndido violáceo do céu, de repente era assim, como livro bom e rede, como parede caiadinha de branco, móveis antigos de madeira, música de chico, casa de oscar, pandeiro e violão, calças listradas, vestidos azuis, boinas de lã, suspensórios, candelabros, cinema, praça, algodão doce, vitrola, janela com paisagem, céu de brigadeiro, vertigens,
era assim, de repente, como tudo o que é mais gostoso e suave,
como um beijo roubado,
como algo que se declara, que de repente se diz,
suspense solto no espaço
da luminosa alegria.

29.10.08

No calor do cansaço, uma febre que volta...

Eu estou tão cansada de que me digam o que fazer. O que temer. A quem amar. Eu estou tão cansada de não poder sofrer, ou gritar. De não me deixarem mentir, pra mim ou pra outros, sobre gostar de mim ou de outros. Estou cansada de meias verdades, de verdades inteiras, de receitas de bolo. Estou cansada de amor viciado, de febre nos olhos, de sonhos vencidos. Estou cansada, perdida, exausta, retorcida. Estou cansada de pensar em adjetivos. Estou cansada de parecer bem estruturada, antenada, discreta, correta ou corrosiva. Estou cansada de ser eu mesma e de ser outras. De ser simpática. De ser pedante. Não quero mais controlar nada nem me esforçar para que não me controlem. Estou de saco cheio de pesar as palavras e a elegância. Estou profundamente cansada de ser elegante, me desculpem. O vômito também é real e prazeroso. Vou falar de coisas fétidas ou supérfluas, só porque me deu na telha. Nem é pra chocar, é porque estou com saudade. Estou com saudade de um mundo meu que nunca existiu, e que era doce e grave e feérico, com todas as luzes acesas e nenhuma vontade de chorar. Estou cansada de procurar pessoas pra amar, pra me distrair, pra contrariar ou desobedecer. Estou cansada de procurar trabalho pra esquecer e pra sobreviver. E de procurar argumentos pra convencer. Estou exausta de arder, de ficar tentando parar de sofrer ou de chorar. Estou puta de ficar querendo entender e perdoar. Estou farta de procurar sarna pra me coçar. De procurar motivos pra me torturar, de procurar amigos pra desabafar. Estou cansada de procurar e de achar. Estou cansada de rir, de mim mesma e de outros. Eu não tenho respostas agora. Sinto muito. Nem perguntas eu tenho. Estou quase vazia. E cansada de estar tão cansada. E cansada de planos alternativos, como cantar no banheiro ou escrever um poema. Quero sentar no chão e descuidar de mim mesma. Quero ter febre de novo. E calafrios.

Cansei de migalhas.

Quero o tremor inteiro.