24.1.12

No escorredor

dois copos coloridos
duas taças

dois pratos
duas xícaras de café

talheres também em dupla
orquestração
de dois

aos pares
a louça limpa

nos confirma
e aguarda





12.10.11

Em verdade vos digo...

... that willing suspension of disbelief for the moment, which constitutes poetic faith"

S. T. Coleridge

Pra escrever, dizem, é preciso verdade. Parece simples, mas não é não. A verdade nem sempre está nas coisas, ou na vida, ou no que sentimos e queremos. Ela muitas vezes não está. Eu ando por esse mundo aí, como muitos outros, falando de tantas coisas, fingindo que me importo, tentando encontrar uma saída, ou quem sabe uma entrada, mas as coisas escorrem rápidas, e o mundo é grande demais.

A verdade, tadinha, volta e meia ela volta, insistindo em dizer coisas que não queremos ouvir. Quem quer? Quem quer ouvir da morte, da fome, do caos? Que quer ouvir o presente, esse tempo insatisfatório e descontínuo, onde nos perdemos, sempre no meio, em vias de, em travessia?

No entanto, entre um presente e outro, passamos. A verdade, seja ela qual for, é o de menos. Se Deus existe ou não, se viveremos muito ou não, se há empregos para todos ou não, quem se importa? Eu não me importo. As verdades parecem ser muitas, vêm e vão. Não me dizem nada. Não me dizem respeito. Ou dizem muito pouco. Às vezes, me tomam por um tempo, me convencem, me acalmam me sufocam. Mas depois passam, como tudo passa, e deixam, se não um travo amargo na boca, pelo menos um traço de desamparo, de desassossego, de melancolia.

Esses temperos, ao longo do tempo, servem para encher o mundo de falidas controvérsias - sobre tudo e sobre nada. Falsas polêmicas, desatinos. Muito melhor seria, sejamos francos, não haver verdade alguma, não sofrer delas, não buscá-las, não exigi-las, não brigar por elas, não morrer, não ganir, não fugir. Muito melhor seria, sejamos ainda mais francos, ou quem sabe verdadeiros, viver de mentiras, de meias verdades, de suposições, de falácias.

Viver no que não pode ser, no que nunca será, no que se move sempre, e para sempre – não é bonito? Viver do inexplicável e com ele. Sobre ele erguer labirintos e pontes, missivas ao absurdo. A tudo que se perde e se agita, comovido, entre um sabor e uma folha, entre um delírio e uma girafa.

Escrever, talvez, e só talvez, é um convite ao que não pode ser verdade, mas não deixa de não sê-lo. Inventar, talvez, é dizer o que nunca precisou ter existido para se fazer misterioso, profundo afago onde nos derretemos, ansiosos de histórias, poemas, imagens flutuantes.

Pra escrever, dizem, é preciso verdade. Não acho não. Talvez o que se precise fazer é pedir, com muito jeitinho, pela sua (pelo menos efêmera) suspensão.

23.6.11

Cordéis avulsos

Vida e literatura são piedosamente imprecisas.

O vazio razoável. Necessário. Para o salto.

Nunca absoluto. Mas evidente.

A literatura encena o que a vida exige.

Às vezes fome. Às vezes, consistência.

Tudo é sobreposição. Avesso. Incontinência.

O rosto exacerbado. Nem grandiloquente nem suntuoso. Apenas colocado.

Visto para ser revisitado.

Do argumento da sede: a redundância é sempre bem vinda.

A forma em seu tempo.

Talvez formalize uma fértil ampliação de fronteiras.

Talvez.




13.6.11

Um dia desses...

Um dia desses eu conto. O que vem acontecendo. O que anda pegando. Como ando e persisto e calo e me mudo. Como mudo. Como emudeço. Como permaneço ou persigo o que não mereço. Conto como me faço e como me esqueço. Um dia desses eu conto. Como reconheço.

Conto também como é grande a fome. E grande o tropeço. Conto se vivi, se sofri, se entrei de férias, se perdi a conta. Se a dividi ou deixei pra lá. Conto e desconto as dívidas. As falências. Conto como me multiplico. Como sangro. Como divago.

Conto como venho falindo, falhando, encantando. Conto como venho perseguindo o que nem sei o tamanho. Conto logo logo. Logo me abro. Logo me afogo.

Um dia desses. Quem sabe. Conto talvez o milagre.

Mas por enquanto. Sei lá. Vou contando a passagem.


25.3.11

Pra sempre...


Não lembro bem quando te vi a primeira vez, nem a segunda, mas um dia devo ter te visto de verdade, porque, na minha memória, é como se você sempre estivesse estado lá. No fundo da sala, com os colegas mais barulhentos, pertencendo a uma turma que eu gostaria que fosse minha, mas não era. Eu ficava na frente da sala, colada nos professores, e tinha por turma outras colegas, menos indóceis que você, um pouco mais responsáveis. Mas nem de longe tão lindas. Você tinha lindos olhos escuros, redondos, e uma pele muito branca, toda pintadinha de micro sardas clarinhas, quase da cor da pele mesmo. Ainda tem. Seu nariz era engraçado (ainda é), e eu me lembro que ele me conquistou. Ele ficava ainda mais engraçado quando você ria, e eu me peguei me esforçando muito pra ver você rir. Eu faço isso até hoje, e sei muito bem porque.

De algum modo que não me lembro como foi, começamos a participar de um coral, e por causa dele fiquei mais próxima de você. Por causa desse coral, cantamos juntas, andamos juntas por variados recreios, rimos muito de tudo e de todos, e ficamos, palavra grande demais para aquela idade - amigas.

Você tinha, então, outras amigas, e uma melhor amiga, de quem eu morria de ciúme. E um namorado lindo, que andava de moto e parecia um galã da globo. E eu tinha inveja. Mas não era de você. Era dele mesmo.

Num certo churrasco da turma, nessa época, você foi atacada por todos da cidade, porque beijava o menino na frente de todos, na piscina, corajosa de amor e juventude. Uma coragem que só fui conhecer muito depois. Eu te defendi, porque eu acreditava em você. E te defendo ainda, pelo mesmo motivo.

Muito antes de eu crescer e me descobrir, você já estava lá. Era adulta, linda, corajosa, vibrante. Hoje acho que eu sou um pouco como você, só um pouco, mas você me ensinou essas coisas aí. E outras mais.

Você foi morar longe, longe, voltou toda diferente, amando rock pesado e idéias malucas sobre o mundo, mas seu rostinho redondo era o mesmo de sempre, assim como sua caligrafia. Eu confiei nessa constância e tive certeza de que você não ia me abandonar. E não abandonou.

Eu também não te abandonei, e na primeira oportunidade que tive eu te trouxe pra perto de mim, pra morar junto comigo. E assim dividimos as horas felizes e terríveis que aqueles anos nos trouxeram. Eu perdi uma amiga querida, você perdeu um querido amor. Nós ganhamos e perdemos muitas coisas, mudamos de casa e de idéias, mas nos mantivemos ali, uma ao lado da outra. Durante muito tempo.

Quando eu tive que partir, porque minha mãe estava morrendo e tudo o que eu entendia por vida virava de cabeça pra baixo, você conseguiu me apoiar. Você me tirou de dentro da dor, me emprestou energia, coragem, dinheiro. Você, do outro lado do país, a cada carta, me ensinava a viver. E a palavra amizade ia ficando mais do nosso tamanho, cada vez mais, a cada troca de vertigens que o fim de tantas coisas celebrava. Outras começavam, a vida toda urgente, e o mundo não esperando a gente crescer pra acompanhar.

Mas eu tinha você. E isso me sustentava no ar.

Eu passei um tempo longe, mas logo voltei pra nossa casa, que já não era muito nossa, mas você deu um jeito pra que ela ficasse nos pertencendo de novo. Esse momento maluco foi uma espécie de ensaio para algumas definições profissionais, suas e minhas, e a gente acabou se separando de novo. Mas estávamos, então, mais próximas do que nunca. Tudo na nossa vida se transformava a todo instante. E era preciso muita ternura e amizade pra dar conta do recado.

Nesses últimos anos, fomos vivendo de ponte aérea e viagens de ano-novo. Muita coisa aconteceu, e falar delas é buscar um modo de ser você e eu. Encontramos o amor e o perdemos de novo, mudamos de área, de profissão, de rumos, de idéias. Viajamos, dançamos, rimos de tudo e de todos, nos fizemos mais fortes, mais fracas, mais doces, mais duras.

E por fim, numa certa cidade que tinha tudo pra nos fazer maiores. Ficamos mais pequeninas. Foi lá, à beira do Tejo, rio memorioso de tantas partidas e retornos, que não conseguimos acertar nossas memórias. Ou nossos ponteiros. Descompassamos, desafinamos, nos perdemos um pouco de nós. Tentando acertar isso, você veio até minha casa, e nós, de novo, nos desentendemos. Mas, de desvio em desvio, de dor em dor, vamos nos acertando de novo aos poucos, tenho certeza. É só uma questão de tempo. Pode ser clichê, mas é tão bonito.

Escrevi nossa história aqui porque ela é meu modo de te falar de coisas que não posso falar sem chorar, sem te abraçar por tanto tempo que seria fácil te fazer chorar também. Mas não quero isso. Quero ver seu rostinho tão lindo, sempre um pouco mais jovem que o meu, sorrir de novo pra mim, sorrir sempre, até o último dia de uma de nós.

Escrevi nossa história porque acredito que ela vai apenas pelo meio, que ainda teremos muito a nos dizer e a nos (des)encontrar pela frente. É o que está certo. Escrevi porque não sei fazer outra coisa, e se falho tanto em tudo, não falho nunca em tentar encontrar o modo certo de te dizer que estou e estarei aqui. Pra você e por você. Sempre.


21.3.11

Um dia que não foi além de si mesmo pode fazer equívocos?

Diário e constitutivo mistério.

Passagem das horas...

Então, esse dia, vulgar e já falecido, que provavelmente desaparecerá no mugir inconstante dos outros todos, a menos que, deus-me-livre, seja o último, ou o anterior a algo imenso ou terrível que sempre pode acontecer amanhã, a menos que, portanto, seja o crepúsculo de uma era, ou o arauto dos novos tempos, esse dia, opaco e tímido, nunca terá existido, nunca terá feito diferença, nunca terá salvado o mundo ou nascido para brilhar. Esse dia, como nós mesmos todos, um dia, nada mais terá sido. Além dele próprio.

Por isso, o deixo aqui. De castigo. Cumprindo pena de semi-eternidade.





19.3.11

Falando nisso...

O que eu tenho a dizer é da máxima importância. Mas não sei como dizer, ou como começar. Só tenho uma dúvida, entre muitas, e ela me diz o seguinte: por que, entre tantas vidas ritmadas, minha voz se quer fazer ouvir? Por que só eu, entre outros tantos que dizem e falam, se acha no direito de se fazer mais audível, ou mais temível, ou mesmo mais relevante?

O que eu tenho a dizer não tem nenhuma importância. Na verdade, é a importância mesma que se cala quando alguém diz o que é dizível, e o que não é. A importância, com sua gravidade encorpada e luminosa, é atulhada de coisas sem nenhuma ferocidade, sem nenhuma espécie de inutilidade, sem qualquer traço de tímida volúpia. Por isso mesmo se esquiva de importar, e só aos tolos importa, só aos parvos assusta, só aos cegos se impõe. Eu ali vou incluída, evidentemente. Porque sou tola, parva e cega. E só outros que também assim são com isso não concordariam.

Sim, o que tenho a dizer não é importante. Mas nesse mesmo instante existe. E por si só se faz grave. Que me sigam os que, tão cegos quanto eu, entendem essa única importância. A que se faz agora. Nesse instante que já logo mais não voltará. E que é tão desimportante e ritmado quanto muitos. Mas está vivo.

Enquanto outros não estarão.

14.2.11

Matemática

Dois pode ser demais,

quando se quer o um

inteiro,


mas entre o mais

e o menos,

não fica algo

no meio?

1.11.10

Poema número 31 (ou 13)

Eu falo de um dia como muitos dias.

Esquina, almoço, vitrines, mendigos.

Eu falo de um dia como tantos outros.

Chuva, mormaço, atrasos, relógios.


Eu falo de um dia em que a porta se abre,

E lá fora vemos suspensas surpresas.

Os jornais dizem: as coisas mudaram!

E esse dia não é mais como os outros.


Mas o mundo não muda

muito. Ou tanto.

Tudo continua a crescer, com bastante força.

O ódio, a fome, a dor, os impropérios.


A esperança também cresce, essa senhora daninha,

Estranha esperança que não morre nunca.


Ela cresce e me comove,

como se o mundo fosse outro,

E o dia de hoje não fosse como tantos.


Ela cresce e me comove,

como se o dia fosse inteiro.

E o mundo de hoje não fosse quase

o mesmo.


Ela cresce e me comove,

como se o amor fosse novo.

E o desejo de hoje não fosse

desde sempre.

22.9.10

De novo...

Fratura é coisa sem termo.

E não é não.


Depois do corte, o espanto.

A dor, o ponto, o gelo.

A sutura imperfeita. O alarido das coisas que não cessam.

Que não se rendem.


Depois, depois. A coisa cicatriza.

Mas fica na pele feito coisa que termina.

E de vez em quando se agita e geme e ferve.

E toma conta.


Como aquele sorriso perdido entre balbúrdias.

Como um afago incompleto. Resto de um silêncio sem partida,

sem contornos.


Ao depois passa.

Mas de vez em quando volta.

A queda, o grito, o sonho.


Volta como quem perde uma amiga.

Surdo e exposto.

À deriva.

9.9.10

Aliás

Aliás, o medo. É sobre o medo que eu queria falar, agora me lembro. Me lembro mesmo muito bem, ele está aqui. Ele está aqui comigo. O tempo todo. Era isso que eu queria falar.

Meu medo não é paralisante, como dizem por aí. Não é disso que se trata. Se trata de falar do medo. É disso que eu quero falar. Mas ele me escapa. Me escapa sempre, como quem foge, mas está sempre por perto. Como quem está atrasado, mas ainda nem partiu.

Ele está sempre por perto. Mas não me paralisa, não, como dizem por aí. Ele me movimenta.

Meu medo organiza tudo. Dá corda aos relógios, levanta os muros. Meu medo acorda, anda comigo pela estrada, me traz sombra e susto, me suspende. Escreve comigo diários de medo, máquinas medrosas, escolhas perfiladas. É isso. É assim que acontece. Ele dá as cartas. O tempo todo.

Meu medo é um sumidouro. Faz desaparecer o dia, a noite, os anos inteiros. Me leva com ele pro abismo, me faz cair por tempo indefinido, me faz conversar com os gatos. Com lagartas e tartarugas.

Estando sempre presente, nem lembro que ele está lá. Quando vi, já foi, mas sem deixar de ter saído.

Meu medo engole o futuro, engole o tempo, engole a espera da morte. Meu medo me faz crescer imensa, perder a chave, e diminuir depressa às portas de qualquer coisa. Meu medo me estica e encolhe, me deforma, me afoga em mim mesma, me salva. Meu medo sou eu mesma?

Sem saída, é nele mesmo que opero, é nele mesmo que grito e sufoco, é a partir dele que reclamo, é com ele que denuncio os que me cortam a cabeça. Os que adoram tribunais.

Sim, fui eu que roubou a torta, que chegou atrasada, que não soube escolher as palavras, que ganhou a corrida, que apimentou a sopa. Fui eu fui eu fui eu. Posso crescer e ir embora, mas vou continuar sendo eu mesma. A que nunca cabe. Insuficiente e alhures. E às vezes sem chapéu.

Era isso que eu queria falar. Sobre tomar chá e contar histórias. Histórias de medo e suspense. Memórias sem nenhum sentido. Era isso, e não era bem exatamente isso, mas agora já não importa.

Um lado faz crescer; o outro, diminuir. É só isso que importa. De que tamanho está o medo agora?

Era disso que eu queria falar.



10.6.10

Dúvida

Se cada discurso pode ser um começo, e cada percurso um tropeço, vale dizer que qualquer postura é um avanço, sem deixar de ser retrocesso?

Se cada movimento pode ser um princípio, ou um processo, e cada ternura um alívio, ou um deserto, não convém admitir, finalmente, que toda leitura tem seu preço?

E o resto é resto?

1.4.10

Quase assim...

Fonte da foto: http://inafractionofasecond.blogspot.com/2010/01/irish-blessing.html

Há muito tempo que não escrevo. Há muito tempo que não salto, não ganho, não perco. Estou atada numa espécie de silêncio complacente e revoltado, diante do mundo, diante das coisas. Tenho pouco a dizer, porque as palavras quase sempre me cansam. São demasiado impuras, demasiado invasivas. Mentirosas mesmo. Infames. O que tenho a dizer não é íntimo nem grave, não é passado nem futuro, simplesmente não existe. Não quero falar nada, nem nada compartilhar. Quero apenas estar aqui.

Quero apenas, num espasmo antes de tudo egoísta, mas profundamente humano, me apagar num gozo flácido de mim mesma, vouyer alheada da comédia social, sempre tão mesquinha e quase ridícula. Esse apagamento, no entanto, só pode acontecer sob a égide de uma participação meticulosa, coordenada, estratégica. Não basta ser, tem que participar, já dizia um comercial de remédio para contusões. Muito apropriado, aliás.

Participar. É um jogo talvez fácil, mas consistente. Todos me vêem e ninguém me vê. Todos me escutam, mas eu digo apenas o que querem ouvir. Eu a todos agrado, e a quase todos conservo e delicio, simplesmente porque quero desaparecer em seu amor. Quero tornar-me antes deles que de mim mesma, falar a sua língua, dizer a sua voz. Comparecer à cena para, dentro dela, poder fugir de tudo e de todos. Mas não de mim.

É simples desse jeito. E é fácil demais. Basta dizer palavras comedidas. Basta dançar conforme a música, participar das festas, atender telefonemas. Basta ser cordial, cordata, referencial, batuta. Basta corresponder ao sorriso, pagar as contas, dizer obrigado e chorar no escuro. Basta não gritar. Basta não usar palavras em desuso. Basta cantar afinado, olhar direto e firme, usar roupas apropriadas, falar baixo e objetivamente, dar o cu para o chefe, nunca chegar atrasado. Basta sorrir simpático e ser engraçado. Basta mentir. Basta nunca falar de coisas importantes ou difíceis. Basta odiar e ter inveja. Desprezar os que não sabem se comportar. Basta se comportar. Há manuais para tudo, é só saber ler.

É por essas e outras que em verdade vos digo: tenho medo.

Medo porque é fácil demais.

1.3.10

Nem assim tão noite

Foto: Yosigo

Como começou esse poema? Ele começou em uma noite de insônia. Terminou agora. Terminou a medo. Porque é preciso ter medo para sobreviver. Começou com o medo e terminou depois. Depois do medo é o sonho. De não ter mais medo. Mas aí, nada. O nada também vem depois do medo.

Tudo são palavras e é preciso nascer muito para entender. Que é tudo vazio e de noite, mas de vez em quando se canta. Seja porque o instante existe, seja porque se tem medo e é agora.

Eu canto a noite, de noite, no escuro. É bem tedioso, mas funciona. Eu canto a noite e suas dádivas porque tenho insônia e medo e escuros. Se tivesse outras coisas, outras coisas faria, mas isso é só o que tenho.

Contentem-se.

É pouco. Mas é quase azul.


25.1.10

...

No meio do verso, o susto,
Seja ao meio, expectante.

No meio do verbo, o meio,
Seja em morte, exultante.

No meio de tudo, um pouco,
Quase nada, quase antes.

No meio de mim, eu mesmo,
Quase verbo,
Tremulante.

18.1.10

Não por acaso


O caso sobretudo era o de estar presente. De calcular a hora certa. Agir precipitadamente não era pra ele. Tudo precisava ser desenhado com muito gosto. E precisão. Ele era um homem de sobreavisos. Não podia falhar.

Estar ali, no instante exato. Executar o gesto, coisa tão simples. Evitar desvios. Não derrapar.

Conquistar primeiro os olhos. Depois as mãos. Depois o resto. Era mesmo tão fácil quanto diziam.

...

Porque então não parava de tremer?

Ou de soluçar?


12.1.10

Faça você mesmo seu jogo linguístico

Escrever no vazio. A partir do vazio. Sobre ele, com ele, em torno dele.

Escrever o vazio. Esvaziá-lo.

Não é assim que se excede?

...

Escrever no excesso. A partir do excesso. Sobre ele, com ele, em torno dele.

Escrever o excesso. Torná-lo excessivo.

Não é assim que se escreve?

...

Escrever na escrita. A partir da escrita. Sobre ela, com ela, em torno dela.

Escrever a escrita. Entregá-la.

Não é assim que se ama?

...

Escrever no amor. A partir do amor. Sobre ele, com ele, em torno dele.

Escrever o amor. Revivê-lo.

Não é disso que se morre?

...

Escrever na morte. A partir da morte. Sobre ela, com ela, em torno dela.

Escrever a morte. Morrer a morte.

Não é assim que se fica vazio?

28.12.09

O que se diz do novo

A renovada forma


O que se diz de novo

A renomada espera


Um ano

Outro ano

O tempo


Como um golpe que escapa

Sem ferir coisa alguma

Como um silêncio esmiuçado

Por mãos vazias

E tenras


O que se diz de novo e de novo

Atrás dos sorrisos ansiosos


Sejamos felizes

Apesar de

E para sempre


Sejamos felizes: a vida é curta

E grossa


Guarda em segredo novos rituais

Onde se diga de novo

O que nunca devera ser

Velho

7.12.09

Dynamis

O espaço vazio abre-se

para o movimento

que desvenda

a altura,

que permite

o salto,

que alcança

a queda.

...

O movimento,

o salto

e a queda

tornam possível

o silêncio

do encontro

com o espaço vazio.


E suas suposições.