14.2.13

Dos sustos.



Querendo escrever. Quando a vida fica muito grande. Ou muito pequena. Precisando escrever. Mas as palavras não saem. Simplesmente engasgam. Tudo é por um fio. De faca ou de norte.

Querendo viver. Quando a escrita fica muito ácida. Ou muito estreita. Precisando viver. Mas o fôlego falta. Ou jorra. Tudo é por um rito. De passagem ou de sorte.

Querendo sofrer. Quando tudo fica muito distante. Ou muito próximo. Precisando sofrer. Mas a vida sobra e luta. Engasga, vibra, escreve. Tudo é por um caminho. De alegria ou de suporte.

Querendo entender. Quando tudo o mais é rarefeito e breve. Quando tudo para. Sem deixar de continuar. Tudo é mesmo por um rio. De saudade ou de morte.

Para Bruce Amaro

10.1.13

Uma vez...

Ilustração: Anna Cunha

Uma vez, sonhei: uma bicicleta feita de acasos, de terra, de pedaços de coisas, de sinopses.

O sonho era cheio de vertigens, de bicicletas, evidentemente, de modos de colher água da chuva, de fazer as pessoas voarem, de cobrir a terra de um modo abrupto, de coisas assim esquisitas e impronunciáveis.

Quando acordei, anotei tudo num papel. Depois o perdi.

Hoje achei o papel, e não entendi nada. Na lembrança, uma vaga ideia. Uma concreta palavra: bicicletas. Só lembro, de forma absurda e profunda, que havia bicicletas.

Aliás, sonho muito com elas. É a única coisa, afinal, que sei dirigir. Mas sonho com carros também. E não sei dirigir carros.

Essa coisa do interior e do exterior. Uma bagunça.

Alguns objetos podem ser sujeitos. Isso se sabe.

Objetujeitos. Algo assim.

Mas, no meio da ideia, algo surge, se fragmenta, se isola. Como numa experiência científica ou amorosa.

Como num convite pra tomar um chá, ou participar de uma festa. Algo se nutre e se consola do abismo que somos. Algo fica enfim inventariado. Objetificado. Impossível.

Algo fica, ou volta, ou vai embora pra sempre. Aliás, o que mais acontece é coisas irem embora pra sempre. Triste isso, não?

Faço coleções de coleções. Isso me alivia um pouco. Como toda coleção é incompleta, as minhas já começam pelo fim. Ficam incomeçadas. Um único objeto faz uma coleção? Eu acho que sim.

Então, posso fazer uma coleção de objetos que são duplos: como escova e pasta. Ou triplos, como colher, faca e garfo.

Essa coisa do insondável e do concreto. Algumas coisas se juntam, outras não. É assim.

Os objetos são pontos de passagem.

Como essa bicicleta aí do sonho. Uma vertigem.

Não é?

Pois então.

18.12.12

Respondo sempre igual...

É difícil dizer como começam as coisas que nunca começaram, que sempre estiveram lá. Ou aqui, por exemplo. Como aquele modo seu de dizer que gosta de mim, como as roupas secando no varal, como os lugares de cada coisa nas estantes, nas gavetas, nos armários. Há coisas que parecem tão eternas no fim de uma noite de verão quanto um lapso entre um espanto e outro, entre um grito e um plano de viagem. No verão, tudo parece mais estático, até eu mesma, que prossigo entre os cômodos me fingindo de suave, de esplêndida, cantando baixinho ou repetindo que estou viva. Apesar do calor, e das ondas de tédio e asfalto que vêm de fora, estou viva, por enquanto.

É difícil dizer como começou isso, ficar viva. Sentir-se dentro e fora das coisas. Sentir-se apenas. Como as colheres no escorredor, como as paredes que escurecem aos poucos, como os livros cruamente organizados e sólidos. É difícil dizer do tempo em um dia tão quente e áspero. É difícil porque sufoca sem sofrimento. É como esperar, apenas. Que tudo isso passe e seja vulgarmente amanhã.

É difícil entender que logo será amanhã, quando hoje é tão hoje que cansa. No fundo, fingimos que acreditamos no mundo, para que ele possa de fato existir. Inteiramente normal. E por isso mesmo um pouco enviesado, um pouco ao meio. Como quem sabe que falseia, que finge de morto ou cai sentado, como quem salta pela janela gritando, porque cansou de tudo e a noite é quente. Tudo é muito etecétera.

Mesmo assim, vamos à feira amanhã, lançamos livros, escrevemos cartas, compramos passagens, digerimos a carne e esquecemos o sangue. Porque é natal, esquecemos principalmente o sangue.

E fica mais fácil achar tudo difícil. Ou tremendamente normal.


9.11.12

Ethyl horoskop


Os nascidos no signo da CERVEJA são divertidos, alegres e leves, amigos pra todas as horas. São mais afáveis no verão, quando se espalham por todos os lugares, e podem ser vistos na companhia de toda a gente: ricos, pobres, remediados, caretas, alternativos, masculinos, femininos ou mesclados. Os do signo da cerveja se dão bem com todos, e a todos acompanham com delícia, a noite e o dia todo, se preciso for. A princípio podem parecer amargos, mas só quando não se os conhece bem. Logo se mostram em toda a sua espumante euforia. Adoram samba e futebol, e brilham em copas do mundo, carnavais, e outras festas tais... Em resumo, são muito festeiros, mas há quem diga que são superficiais e sem compromisso. Brigam muito com os do signo do uísque e do vinho, mas se dão muito bem com os do signo da aguardente. Sua cor é o dourado, e seu dia da semana é sexta-feira.


Os nascidos no signo do COQUETEL são multifacetados, descolados e mega articulados. Combinam-se de forma inusitada e vivem inventado moda. São olhados com certa desconfiança pelos outros signos, porque têm em si um pouco de todos, e misturam com segurança os mais variados temperamentos, cores e velocidades. Inflamados ou flambados, gelados ou chacoalhados, vermutados ou coloridos, são sempre recebidos com surpresa e admiração, mesmo pelos mais tradicionais, porque cuidam da aparência como ninguém, e sua chegada é sempre uma sensação. Sua beleza, mesmo quando invejada, não deixa de ser apreciada por todos, o que pode lhes conferir um certo ar de frívola majestade, ou entediado dandismo. São lindos, sim, e daí? Às vezes ficam famosos, quase clássicos, e chegam a representar um país inteiro, ou a cidade mais cosmopolita do mundo, mas sua fama de inventivos permanece intocada – afinal, eles não envelhecem nunca. São saborosamente eternos, e sabem disso. Sua riqueza está na criatividade, e são tanto melhores quanto mais malucos nos parecem. Fugazes e mirabolantes, suas cores são o furta-cor e o fúcsia, e seu dia da semana é a quarta-feira.


Os nascidos no signo do VINHO são refinados, sutis e bastante envolventes. Têm múltiplas colorações, densidades e intensidades, por isso se diz deles que são misteriosos: cada um é bastante diferente dos outros todos, e nos conquista de um modo inteiramente seu. Eles amam as noites, frias ou quentes, e mudam de cor de acordo com o ambiente e a situação – festiva, melancólica, poética ou romântica. Deixam no ar um perfume único quando passam, são inesquecíveis, mas podem provocar tempestades quando tratados com superficialidade. Eles exigem respeito, e não se dão com qualquer um, apenas com aqueles que (de acordo com seu juízo), podem entender sua complexidade, seus devaneios frutados ou aromáticos, seus caprichos. Adoram velas e ambientes à meia luz, e sabem ser profundos sem perder a simpatia. Às vezes ficam chatos, ou arrogantes, mas talvez isso seja provocação dos do signo da cerveja, ou do uísque. Podem ser temperamentais ou suaves, delicados ou fortes, tudo depende da ocasião, ou de sua constituição específica. Em suma, são mirabolantes, e fazem o mundo mais vertiginoso. Suas cores são o rubro, o branco e o rosa, e seu dia da semana é quinta-feira.


Os nascidos no signo do UÍSQUE são densos, intensos, apaixonantes. Sua força às vezes é brutal, às vezes é suave, mas sempre conquista os que têm coragem de se aproximar dela. Sua beleza tem um matiz antigo, e quase melancólico, mas não deixa de ter a dignidade dos velhos esconderijos, e dos ainda mais velhos (e saborosos) mistérios. Eles são muitas vezes acusados de tradicionais, ou de arcaicos, e não há quem não os associe aos estranhos vapores da rigidez. No entanto, os que com eles se misturam aprendem a conhecer a tessitura delicada do próprio tempo, moinho de transformações tão sutis quanto inventadas. Ao lado desses taciturnos e às vezes sombrios elementos, nos vemos tomados de uma leveza estranha, quase inóspita, e entendemos que nenhuma solidez é compacta, que nenhuma duração é permanente. Seus vapores ferruginosos nos transportam para o lagos mais distantes do planeta, onde a neblina e a chuva nos lembram, permanentemente, como somos feitos de solitária espera, e violenta expectativa. Suas cores são o marrom e o cobre, e seu dia da semana é a terça-feira.


Os nascidos no signo da AGUARDENTE são incansáveis, apaixonados, ardorosos, febris. Por reunirem em si a fluidez dos líquidos e a violência do fogo, não se cansam de fazer loucuras, ainda que paguem por elas o alto preço da incompreensão e do desprezo. Inflamam-se com facilidade, e podem ser explosivos se tratados com superficialidade. No entanto, sabem ser doces quando querem, e sua carícia mais leve traz esperança e calor a todos os que deles se aproximam, sejam eles poderosos ou desesperados, famosos ou aflitos. Os nascidos nesse signo não conhecem diferenças, nem sociais, nem culturais, e são bem quistos e amados até no extremo oriente, onde são conhecidos com o singelo nome de SAQUÊ. São amistosos, divertidos e facilmente encontrados em toda a parte, construindo entre os que os amam alianças profundas, ainda que efêmeras. É o vínculo da paixão o que entre eles vibra – luminar e incandescente, propício à volúpia e ao arrebatamento. Não conhecem fronteiras, e por isso são tão fortes. Poder algum resiste a seus encantos. Suas cores são o verde e o amarelo cristalinos, e seu dia da semana são todos.


Os nascidos no signo da VODKA são instáveis e excêntricos, ainda que transparentes em sua eloquência. Hábeis como nenhum outro em transformar as situações mais comuns e ordinárias em extraordinárias, eles são conhecidos como o signo dos extremos, e por isso mesmo são encantadores. Eles podem enfrentar por você as situações mais calamitosas, de nevascas da velha Rússia a tempestades tropicais, sem perder a ternura ou o rebolado, mas são incapazes de mentir, e suas decisões peremptórias podem ser uma experiência das mais extenuantes. Quando se dispõem ao combate, ou à fúria, são inigualáveis, e rompem qualquer barreira. São entusiasmados, devastadores, incandescentes. Cristalinos quando amam e quando odeiam, podem atrair o desespero ou o desejo, com igual intensidade. Sua melancolia é também hipertrofiada, podendo levá-los a desenvolver, ao longo dos anos, uma sanguínea atração pelo subsolo, por ruelas estreitas e fétidas, onde só os mais infelizes dos homens podem conhecer o valor da miséria, as idiossincrasias do inconsciente e as saturações do vício. Suas cores são o branco e o prata, e seus dias da semana são a segunda-feira e o domingo.



24.1.12

No escorredor

dois copos coloridos
duas taças

dois pratos
duas xícaras de café

talheres também em dupla
orquestração
de dois

aos pares
a louça limpa

nos confirma
e aguarda





12.10.11

Em verdade vos digo...

... that willing suspension of disbelief for the moment, which constitutes poetic faith"

S. T. Coleridge

Pra escrever, dizem, é preciso verdade. Parece simples, mas não é não. A verdade nem sempre está nas coisas, ou na vida, ou no que sentimos e queremos. Ela muitas vezes não está. Eu ando por esse mundo aí, como muitos outros, falando de tantas coisas, fingindo que me importo, tentando encontrar uma saída, ou quem sabe uma entrada, mas as coisas escorrem rápidas, e o mundo é grande demais.

A verdade, tadinha, volta e meia ela volta, insistindo em dizer coisas que não queremos ouvir. Quem quer? Quem quer ouvir da morte, da fome, do caos? Que quer ouvir o presente, esse tempo insatisfatório e descontínuo, onde nos perdemos, sempre no meio, em vias de, em travessia?

No entanto, entre um presente e outro, passamos. A verdade, seja ela qual for, é o de menos. Se Deus existe ou não, se viveremos muito ou não, se há empregos para todos ou não, quem se importa? Eu não me importo. As verdades parecem ser muitas, vêm e vão. Não me dizem nada. Não me dizem respeito. Ou dizem muito pouco. Às vezes, me tomam por um tempo, me convencem, me acalmam me sufocam. Mas depois passam, como tudo passa, e deixam, se não um travo amargo na boca, pelo menos um traço de desamparo, de desassossego, de melancolia.

Esses temperos, ao longo do tempo, servem para encher o mundo de falidas controvérsias - sobre tudo e sobre nada. Falsas polêmicas, desatinos. Muito melhor seria, sejamos francos, não haver verdade alguma, não sofrer delas, não buscá-las, não exigi-las, não brigar por elas, não morrer, não ganir, não fugir. Muito melhor seria, sejamos ainda mais francos, ou quem sabe verdadeiros, viver de mentiras, de meias verdades, de suposições, de falácias.

Viver no que não pode ser, no que nunca será, no que se move sempre, e para sempre – não é bonito? Viver do inexplicável e com ele. Sobre ele erguer labirintos e pontes, missivas ao absurdo. A tudo que se perde e se agita, comovido, entre um sabor e uma folha, entre um delírio e uma girafa.

Escrever, talvez, e só talvez, é um convite ao que não pode ser verdade, mas não deixa de não sê-lo. Inventar, talvez, é dizer o que nunca precisou ter existido para se fazer misterioso, profundo afago onde nos derretemos, ansiosos de histórias, poemas, imagens flutuantes.

Pra escrever, dizem, é preciso verdade. Não acho não. Talvez o que se precise fazer é pedir, com muito jeitinho, pela sua (pelo menos efêmera) suspensão.

23.6.11

Cordéis avulsos

Vida e literatura são piedosamente imprecisas.

O vazio razoável. Necessário. Para o salto.

Nunca absoluto. Mas evidente.

A literatura encena o que a vida exige.

Às vezes fome. Às vezes, consistência.

Tudo é sobreposição. Avesso. Incontinência.

O rosto exacerbado. Nem grandiloquente nem suntuoso. Apenas colocado.

Visto para ser revisitado.

Do argumento da sede: a redundância é sempre bem vinda.

A forma em seu tempo.

Talvez formalize uma fértil ampliação de fronteiras.

Talvez.




13.6.11

Um dia desses...

Um dia desses eu conto. O que vem acontecendo. O que anda pegando. Como ando e persisto e calo e me mudo. Como mudo. Como emudeço. Como permaneço ou persigo o que não mereço. Conto como me faço e como me esqueço. Um dia desses eu conto. Como reconheço.

Conto também como é grande a fome. E grande o tropeço. Conto se vivi, se sofri, se entrei de férias, se perdi a conta. Se a dividi ou deixei pra lá. Conto e desconto as dívidas. As falências. Conto como me multiplico. Como sangro. Como divago.

Conto como venho falindo, falhando, encantando. Conto como venho perseguindo o que nem sei o tamanho. Conto logo logo. Logo me abro. Logo me afogo.

Um dia desses. Quem sabe. Conto talvez o milagre.

Mas por enquanto. Sei lá. Vou contando a passagem.


25.3.11

Pra sempre...


Não lembro bem quando te vi a primeira vez, nem a segunda, mas um dia devo ter te visto de verdade, porque, na minha memória, é como se você sempre estivesse estado lá. No fundo da sala, com os colegas mais barulhentos, pertencendo a uma turma que eu gostaria que fosse minha, mas não era. Eu ficava na frente da sala, colada nos professores, e tinha por turma outras colegas, menos indóceis que você, um pouco mais responsáveis. Mas nem de longe tão lindas. Você tinha lindos olhos escuros, redondos, e uma pele muito branca, toda pintadinha de micro sardas clarinhas, quase da cor da pele mesmo. Ainda tem. Seu nariz era engraçado (ainda é), e eu me lembro que ele me conquistou. Ele ficava ainda mais engraçado quando você ria, e eu me peguei me esforçando muito pra ver você rir. Eu faço isso até hoje, e sei muito bem porque.

De algum modo que não me lembro como foi, começamos a participar de um coral, e por causa dele fiquei mais próxima de você. Por causa desse coral, cantamos juntas, andamos juntas por variados recreios, rimos muito de tudo e de todos, e ficamos, palavra grande demais para aquela idade - amigas.

Você tinha, então, outras amigas, e uma melhor amiga, de quem eu morria de ciúme. E um namorado lindo, que andava de moto e parecia um galã da globo. E eu tinha inveja. Mas não era de você. Era dele mesmo.

Num certo churrasco da turma, nessa época, você foi atacada por todos da cidade, porque beijava o menino na frente de todos, na piscina, corajosa de amor e juventude. Uma coragem que só fui conhecer muito depois. Eu te defendi, porque eu acreditava em você. E te defendo ainda, pelo mesmo motivo.

Muito antes de eu crescer e me descobrir, você já estava lá. Era adulta, linda, corajosa, vibrante. Hoje acho que eu sou um pouco como você, só um pouco, mas você me ensinou essas coisas aí. E outras mais.

Você foi morar longe, longe, voltou toda diferente, amando rock pesado e idéias malucas sobre o mundo, mas seu rostinho redondo era o mesmo de sempre, assim como sua caligrafia. Eu confiei nessa constância e tive certeza de que você não ia me abandonar. E não abandonou.

Eu também não te abandonei, e na primeira oportunidade que tive eu te trouxe pra perto de mim, pra morar junto comigo. E assim dividimos as horas felizes e terríveis que aqueles anos nos trouxeram. Eu perdi uma amiga querida, você perdeu um querido amor. Nós ganhamos e perdemos muitas coisas, mudamos de casa e de idéias, mas nos mantivemos ali, uma ao lado da outra. Durante muito tempo.

Quando eu tive que partir, porque minha mãe estava morrendo e tudo o que eu entendia por vida virava de cabeça pra baixo, você conseguiu me apoiar. Você me tirou de dentro da dor, me emprestou energia, coragem, dinheiro. Você, do outro lado do país, a cada carta, me ensinava a viver. E a palavra amizade ia ficando mais do nosso tamanho, cada vez mais, a cada troca de vertigens que o fim de tantas coisas celebrava. Outras começavam, a vida toda urgente, e o mundo não esperando a gente crescer pra acompanhar.

Mas eu tinha você. E isso me sustentava no ar.

Eu passei um tempo longe, mas logo voltei pra nossa casa, que já não era muito nossa, mas você deu um jeito pra que ela ficasse nos pertencendo de novo. Esse momento maluco foi uma espécie de ensaio para algumas definições profissionais, suas e minhas, e a gente acabou se separando de novo. Mas estávamos, então, mais próximas do que nunca. Tudo na nossa vida se transformava a todo instante. E era preciso muita ternura e amizade pra dar conta do recado.

Nesses últimos anos, fomos vivendo de ponte aérea e viagens de ano-novo. Muita coisa aconteceu, e falar delas é buscar um modo de ser você e eu. Encontramos o amor e o perdemos de novo, mudamos de área, de profissão, de rumos, de idéias. Viajamos, dançamos, rimos de tudo e de todos, nos fizemos mais fortes, mais fracas, mais doces, mais duras.

E por fim, numa certa cidade que tinha tudo pra nos fazer maiores. Ficamos mais pequeninas. Foi lá, à beira do Tejo, rio memorioso de tantas partidas e retornos, que não conseguimos acertar nossas memórias. Ou nossos ponteiros. Descompassamos, desafinamos, nos perdemos um pouco de nós. Tentando acertar isso, você veio até minha casa, e nós, de novo, nos desentendemos. Mas, de desvio em desvio, de dor em dor, vamos nos acertando de novo aos poucos, tenho certeza. É só uma questão de tempo. Pode ser clichê, mas é tão bonito.

Escrevi nossa história aqui porque ela é meu modo de te falar de coisas que não posso falar sem chorar, sem te abraçar por tanto tempo que seria fácil te fazer chorar também. Mas não quero isso. Quero ver seu rostinho tão lindo, sempre um pouco mais jovem que o meu, sorrir de novo pra mim, sorrir sempre, até o último dia de uma de nós.

Escrevi nossa história porque acredito que ela vai apenas pelo meio, que ainda teremos muito a nos dizer e a nos (des)encontrar pela frente. É o que está certo. Escrevi porque não sei fazer outra coisa, e se falho tanto em tudo, não falho nunca em tentar encontrar o modo certo de te dizer que estou e estarei aqui. Pra você e por você. Sempre.


21.3.11

Um dia que não foi além de si mesmo pode fazer equívocos?

Diário e constitutivo mistério.

Passagem das horas...

Então, esse dia, vulgar e já falecido, que provavelmente desaparecerá no mugir inconstante dos outros todos, a menos que, deus-me-livre, seja o último, ou o anterior a algo imenso ou terrível que sempre pode acontecer amanhã, a menos que, portanto, seja o crepúsculo de uma era, ou o arauto dos novos tempos, esse dia, opaco e tímido, nunca terá existido, nunca terá feito diferença, nunca terá salvado o mundo ou nascido para brilhar. Esse dia, como nós mesmos todos, um dia, nada mais terá sido. Além dele próprio.

Por isso, o deixo aqui. De castigo. Cumprindo pena de semi-eternidade.





19.3.11

Falando nisso...

O que eu tenho a dizer é da máxima importância. Mas não sei como dizer, ou como começar. Só tenho uma dúvida, entre muitas, e ela me diz o seguinte: por que, entre tantas vidas ritmadas, minha voz se quer fazer ouvir? Por que só eu, entre outros tantos que dizem e falam, se acha no direito de se fazer mais audível, ou mais temível, ou mesmo mais relevante?

O que eu tenho a dizer não tem nenhuma importância. Na verdade, é a importância mesma que se cala quando alguém diz o que é dizível, e o que não é. A importância, com sua gravidade encorpada e luminosa, é atulhada de coisas sem nenhuma ferocidade, sem nenhuma espécie de inutilidade, sem qualquer traço de tímida volúpia. Por isso mesmo se esquiva de importar, e só aos tolos importa, só aos parvos assusta, só aos cegos se impõe. Eu ali vou incluída, evidentemente. Porque sou tola, parva e cega. E só outros que também assim são com isso não concordariam.

Sim, o que tenho a dizer não é importante. Mas nesse mesmo instante existe. E por si só se faz grave. Que me sigam os que, tão cegos quanto eu, entendem essa única importância. A que se faz agora. Nesse instante que já logo mais não voltará. E que é tão desimportante e ritmado quanto muitos. Mas está vivo.

Enquanto outros não estarão.

14.2.11

Matemática

Dois pode ser demais,

quando se quer o um

inteiro,


mas entre o mais

e o menos,

não fica algo

no meio?

1.11.10

Poema número 31 (ou 13)

Eu falo de um dia como muitos dias.

Esquina, almoço, vitrines, mendigos.

Eu falo de um dia como tantos outros.

Chuva, mormaço, atrasos, relógios.


Eu falo de um dia em que a porta se abre,

E lá fora vemos suspensas surpresas.

Os jornais dizem: as coisas mudaram!

E esse dia não é mais como os outros.


Mas o mundo não muda

muito. Ou tanto.

Tudo continua a crescer, com bastante força.

O ódio, a fome, a dor, os impropérios.


A esperança também cresce, essa senhora daninha,

Estranha esperança que não morre nunca.


Ela cresce e me comove,

como se o mundo fosse outro,

E o dia de hoje não fosse como tantos.


Ela cresce e me comove,

como se o dia fosse inteiro.

E o mundo de hoje não fosse quase

o mesmo.


Ela cresce e me comove,

como se o amor fosse novo.

E o desejo de hoje não fosse

desde sempre.

22.9.10

De novo...

Fratura é coisa sem termo.

E não é não.


Depois do corte, o espanto.

A dor, o ponto, o gelo.

A sutura imperfeita. O alarido das coisas que não cessam.

Que não se rendem.


Depois, depois. A coisa cicatriza.

Mas fica na pele feito coisa que termina.

E de vez em quando se agita e geme e ferve.

E toma conta.


Como aquele sorriso perdido entre balbúrdias.

Como um afago incompleto. Resto de um silêncio sem partida,

sem contornos.


Ao depois passa.

Mas de vez em quando volta.

A queda, o grito, o sonho.


Volta como quem perde uma amiga.

Surdo e exposto.

À deriva.

9.9.10

Aliás

Aliás, o medo. É sobre o medo que eu queria falar, agora me lembro. Me lembro mesmo muito bem, ele está aqui. Ele está aqui comigo. O tempo todo. Era isso que eu queria falar.

Meu medo não é paralisante, como dizem por aí. Não é disso que se trata. Se trata de falar do medo. É disso que eu quero falar. Mas ele me escapa. Me escapa sempre, como quem foge, mas está sempre por perto. Como quem está atrasado, mas ainda nem partiu.

Ele está sempre por perto. Mas não me paralisa, não, como dizem por aí. Ele me movimenta.

Meu medo organiza tudo. Dá corda aos relógios, levanta os muros. Meu medo acorda, anda comigo pela estrada, me traz sombra e susto, me suspende. Escreve comigo diários de medo, máquinas medrosas, escolhas perfiladas. É isso. É assim que acontece. Ele dá as cartas. O tempo todo.

Meu medo é um sumidouro. Faz desaparecer o dia, a noite, os anos inteiros. Me leva com ele pro abismo, me faz cair por tempo indefinido, me faz conversar com os gatos. Com lagartas e tartarugas.

Estando sempre presente, nem lembro que ele está lá. Quando vi, já foi, mas sem deixar de ter saído.

Meu medo engole o futuro, engole o tempo, engole a espera da morte. Meu medo me faz crescer imensa, perder a chave, e diminuir depressa às portas de qualquer coisa. Meu medo me estica e encolhe, me deforma, me afoga em mim mesma, me salva. Meu medo sou eu mesma?

Sem saída, é nele mesmo que opero, é nele mesmo que grito e sufoco, é a partir dele que reclamo, é com ele que denuncio os que me cortam a cabeça. Os que adoram tribunais.

Sim, fui eu que roubou a torta, que chegou atrasada, que não soube escolher as palavras, que ganhou a corrida, que apimentou a sopa. Fui eu fui eu fui eu. Posso crescer e ir embora, mas vou continuar sendo eu mesma. A que nunca cabe. Insuficiente e alhures. E às vezes sem chapéu.

Era isso que eu queria falar. Sobre tomar chá e contar histórias. Histórias de medo e suspense. Memórias sem nenhum sentido. Era isso, e não era bem exatamente isso, mas agora já não importa.

Um lado faz crescer; o outro, diminuir. É só isso que importa. De que tamanho está o medo agora?

Era disso que eu queria falar.



10.6.10

Dúvida

Se cada discurso pode ser um começo, e cada percurso um tropeço, vale dizer que qualquer postura é um avanço, sem deixar de ser retrocesso?

Se cada movimento pode ser um princípio, ou um processo, e cada ternura um alívio, ou um deserto, não convém admitir, finalmente, que toda leitura tem seu preço?

E o resto é resto?

1.4.10

Quase assim...

Fonte da foto: http://inafractionofasecond.blogspot.com/2010/01/irish-blessing.html

Há muito tempo que não escrevo. Há muito tempo que não salto, não ganho, não perco. Estou atada numa espécie de silêncio complacente e revoltado, diante do mundo, diante das coisas. Tenho pouco a dizer, porque as palavras quase sempre me cansam. São demasiado impuras, demasiado invasivas. Mentirosas mesmo. Infames. O que tenho a dizer não é íntimo nem grave, não é passado nem futuro, simplesmente não existe. Não quero falar nada, nem nada compartilhar. Quero apenas estar aqui.

Quero apenas, num espasmo antes de tudo egoísta, mas profundamente humano, me apagar num gozo flácido de mim mesma, vouyer alheada da comédia social, sempre tão mesquinha e quase ridícula. Esse apagamento, no entanto, só pode acontecer sob a égide de uma participação meticulosa, coordenada, estratégica. Não basta ser, tem que participar, já dizia um comercial de remédio para contusões. Muito apropriado, aliás.

Participar. É um jogo talvez fácil, mas consistente. Todos me vêem e ninguém me vê. Todos me escutam, mas eu digo apenas o que querem ouvir. Eu a todos agrado, e a quase todos conservo e delicio, simplesmente porque quero desaparecer em seu amor. Quero tornar-me antes deles que de mim mesma, falar a sua língua, dizer a sua voz. Comparecer à cena para, dentro dela, poder fugir de tudo e de todos. Mas não de mim.

É simples desse jeito. E é fácil demais. Basta dizer palavras comedidas. Basta dançar conforme a música, participar das festas, atender telefonemas. Basta ser cordial, cordata, referencial, batuta. Basta corresponder ao sorriso, pagar as contas, dizer obrigado e chorar no escuro. Basta não gritar. Basta não usar palavras em desuso. Basta cantar afinado, olhar direto e firme, usar roupas apropriadas, falar baixo e objetivamente, dar o cu para o chefe, nunca chegar atrasado. Basta sorrir simpático e ser engraçado. Basta mentir. Basta nunca falar de coisas importantes ou difíceis. Basta odiar e ter inveja. Desprezar os que não sabem se comportar. Basta se comportar. Há manuais para tudo, é só saber ler.

É por essas e outras que em verdade vos digo: tenho medo.

Medo porque é fácil demais.

1.3.10

Nem assim tão noite

Foto: Yosigo

Como começou esse poema? Ele começou em uma noite de insônia. Terminou agora. Terminou a medo. Porque é preciso ter medo para sobreviver. Começou com o medo e terminou depois. Depois do medo é o sonho. De não ter mais medo. Mas aí, nada. O nada também vem depois do medo.

Tudo são palavras e é preciso nascer muito para entender. Que é tudo vazio e de noite, mas de vez em quando se canta. Seja porque o instante existe, seja porque se tem medo e é agora.

Eu canto a noite, de noite, no escuro. É bem tedioso, mas funciona. Eu canto a noite e suas dádivas porque tenho insônia e medo e escuros. Se tivesse outras coisas, outras coisas faria, mas isso é só o que tenho.

Contentem-se.

É pouco. Mas é quase azul.


25.1.10

...

No meio do verso, o susto,
Seja ao meio, expectante.

No meio do verbo, o meio,
Seja em morte, exultante.

No meio de tudo, um pouco,
Quase nada, quase antes.

No meio de mim, eu mesmo,
Quase verbo,
Tremulante.