17.6.09
Ou então
Lá, onde eu possa agarrá-la em definitivo.
Onde tuas mãos, de novo, possam lavar as minhas.
Onde teu sopro encontre minha sombra.
No fim dos tempos
não haverá mais fuga.
Nem perspectivas.
E seremos finalmente duas.
Que se foram.
30.5.09
Da fabulosa altura assimétrica do oposto
26.4.09
Será mesmo?
2.4.09
Um nome para Deus - Parte II
Com o tempo, tomou coragem. E perguntou aos pais como fazer para conhecê-lo. E chorou contando que todas as colegas o viam sempre na escola. Menos ela.
Os pais se enterneceram com a confissão ingênua. E trataram de mostrar as dificuldades de Deus. Não podia vê-lo, mas devia amá-lo. Ele era o pai de tudo. O criador de todas as coisas. Poderoso, soberano, intangível. E magnífico. As palavras novas e ainda estranhas deram ao personagem uma coloração mágica. Não parecia nada difícil amar aquele ser tão bondoso, segundo o pai, e tão misterioso, segundo a mãe (que, só muito tempo depois, confessou que duvidava de sua existência).
Ele mora no céu. Diziam eles. E aquele lugar todo azul passou a dizer de uma intensidade, de uma volúpia, de uma carícia. Ele estava lá. E em todos os lugares.
A mãe explicou como se rezava, e como podia encontrá-lo assim, no seu coraçãozinho de criança. O pai mostrou que havia muitas religiões. E disse que a dele era a melhor. Que o seu Deus era muito mais poderoso e verdadeiro. Matriculou-a na Escola Dominical da igreja que ele freqüentava. E comprou pra ela uma roupa especial para o culto de domingo. Ela já estava pronta para encontrá-lo. Ele dizia.
Aquela súbita animação do pai a deixou quase em transe. Compreendeu que amar a Deus era condição para ser amada pelo pai. E se um era pai do outro, tudo estava então muito certo. De noite, quando rezava, já agora mestre na arte de agradecer por todas as coisas que tinha, era com grande empenho que o fazia. Tomada de profunda emoção e reverência, entregava-se ao nome de Deus como se o tivesse conhecido desde sempre. E sabia que ia adorá-lo eternamente. Cada cor nova que encontrava, cada palavra, cada emoção, cada pensamento, tudo ela entregava a ele, de noite, no frescor adocicado dos sonhos. Por tudo dai graças, ensinava o pai. E ela profundamente agradecia.
O mundo ficando maior. E mais suave.
Ela assistia aos cultos de domingo da igreja que era a do pai, muito compenetrada, embevecida com os pastores. Quando aprendeu a ler, o pai comprou pra ela uma Bíblia para Crianças. Toda ilustrada. As lindas histórias foram lidas com uma sofreguidão de amante. Nervosamente. Intensivamente. Devorava as páginas, as figuras, os sonhos de José, as parábolas de Jesus.
Mas na extremidade da fé, estavam as palavras. As histórias. Depois do nome de Deus, conhecia a palavra de Deus. A palavra de Deus era forte e justa. Dizia o pai. Dizia o pastor.
A palavra de Deus era a verdade e a vida. Os que duvidavam eram fracos e pecadores. Diziam todos.
Era preciso não duvidar.
21.3.09
Ops!
Cansada de dizer coisas prudentes, começou a arriscar no escuro. Nada era muito pouco. Tudo sobrava em puro susto devedor. Ela era Penélope costurante e Orfeu desatado. Nadava sempre de costas, para não encontrar a outra margem. E ganhava sempre nos jogos, disposta a modificar o circunflexo.
Foi queimada dezoito vezes, e tem cicatrizes fetônias, mas não se rende. Depois de terminados os sábados, vai adoecer na chuva, para melhor se fortalecer.
Cansada de ser de verdade, passou a estalar os dedos sempre que uma guerra acabava. E elas acabavam muito, mais do que começavam. Talvez porque sempre fosse preciso dar lugar a outras velocidades, e talvez porque elas não fossem de plástico. E se enguias ainda hoje a confundem, não é mais com ódio que ela as recebe entre seus dedos.
Cansada de dizer coisas urgentes, passou a ser arauto do olvido, e a construir carvalhos. Ela era uma espécie de isotopia. Uma oficina de meandros.
Mas foi só depois, muito depois, que perceberam sua importância.
Era ela que lambia o mundo.
16.3.09
Chuva de Letras
O evento vai ser no Café com Letras, no dia 28/03, sábado, a partir das 11:00h.
http://www.scipione.com.br/chuva/chuvadeletras.swf
A julgar pelos dois primeiros - que me deliciaram, comoveram, seduziram e encantaram de uma forma muito particular, e quase intraduzível -, o livro novo é sem dúvida esplêndido.
Vamos?
8.3.09
Um dia como qualquer outro?
14.2.09
Um nome para Deus [Parte I]
Primeiro dia de aula, escola nova, uniforme novo. Outras coleguinhas. O coração batendo grande e urgente. No meio da primeira aula, ela apareceu. Era uma moça bonita, mas vestida de um jeito esquisito. E prometeu que depois do recreio as pequeninas novatas iriam se encontrar com Deus na capela principal. Deus?
A voz da moça era grave e firme. E parecia emocionada. Não podia ver seus cabelos, escondidos embaixo da touca, mas os lábios finos, suavemente expostos num sorriso, além daqueles olhos tão brilhantes, rapidamente a convenceram da importância do encontro. A simplicidade do nome a emocionava, e uma vaga lembrança de que já o havia escutado antes dava-lhe a certeza de que, finalmente, alguma coisa iria conhecer do mundo distante dos adultos.
O recreio foi longo pra tanta expectativa. Com o lanche esquecido no colo, a toda hora pensava naquele nome, e no que ele tinha de lindamente simples. Deus, deus, deus, deus. Estava eufórica, e nada lhe pareceu mais estranho do que o modo como todas as outras garotas se comportavam diante daquela notícia. Brincavam ou conversavam animadamente, e mal pareciam se lembrar do que estava prestes a acontecer. Vai ver já o conheciam, pensava, e isso a deixava um pouco triste. Talvez não soubesse se comportar direito em sua presença. Era sempre tão tímida. Tão arisca. Talvez ele, como o pai e a mãe, quisesse muito abraçá-la, e ela não deixaria, de pura falta de coragem. E ficaria depois tão frustrada, com o desejo do abraço pendendo frouxo das mãos. Mas talvez ele fosse mais fácil, como alguns adultos o eram, quando não se importavam tanto com abraços e beijos melados, deixando que ela ficasse ali, quietinha, só ouvindo, e pudesse aos poucos, nervosamente, chamar a coragem necessária para enfim se aproximar, tocando-lhes de leve o braço.
Deus, deus, deus, deus. Como seria ele? Seria bonito como o pai? Teria olhos azuis tão lindos como os da mãe? Seria gordo? Seria velho? Seria pequeno? Vai ver era um gigante, por isso a tal capela principal era tão alta. A mãe já tinha mostrado. Mas podia ser um menino gigante. Ou talvez fosse uma moça bonita como aquela da roupa estranha, só que ainda maior, mais alta. Talvez fosse uma princesa como as das histórias, por isso tanta importância. Talvez tivesse que fazer mesuras e se ajoelhar, como a mãe explicava que se devia fazer nos palácios. Tinha medo de perguntar. Como ninguém parecia ter dúvidas, era melhor não falar nada, imitar tudo o que elas fizessem.
E assim fez. Depois de um recreio interminável, a hora finalmente chegou. As garotas todas, muito espertas, correram logo para a fila, ao chamado da moça de vestido preto. Ela seguiu rapidamente uma das meninas, e imitou seu modo estranho de ficar, cabeça baixa, passos lentos. Que coisa mais esquisita. Deve ser para ver melhor depois, pensava, atônita.
Na imensa capela, cheia de luzes brilhantes, a fila de meninas foi devagarzinho se enviando nas fileiras de cadeiras, sempre em silêncio, com a cabeça baixa. Todas se ajoelharam logo, e puseram as mãos juntas uma da outra, fechando logo os olhos, com convicção.
Ela olhava tudo aquilo muito surpreendida, mas imitava com cuidado os gestos todos. Não fossem pegá-la no flagra, na dúvida do que fazer. Deus, deus, deus, deus. E agora?
Agora a moça falava: “vamos rezar!”
Rezar? Rezar? O que será isso? Desesperada, olhava para os dois lados, as duas meninas ajoelhadas, tal como ela, mas plenamente conscientes do que fazer. Murmuravam alguma coisa, inaudível, com os lábios quase fechados. Era um zumbido bem estranho, e não parecia dizer nada. Mas as mãos apertadinhas, os olhos tão concentradamente fechados, aquilo devia fazer parte da recepção. Estava sendo mais difícil do que pensava, mas tudo bem. Fechou os olhos bem fechados, e apertou as mãos com força uma contra a outra. Dedos entrelaçados. Murmurava barulhinhos estranhos e incoerentes, parecidos com os que faziam as outras meninas. E quase nem sentia a dor nos joelhos, tão concentrada estava na imitação. Shh... fiiii… ai oss que estshhh ssss... san... ch... shhh... oss... nomb... ass...te.... comb.... ce...
Que horas Deus iria aparecer? Como deveria se comportar? O zumbido geral era acolhedor, mas muito estranho. Levantava os olhos às vezes, e via que uma ou outra menina fazia o mesmo, para rapidamente voltar à posição inicial. Ela deve estar confusa também, pensava. Talvez seja de fora, como eu. Iria hoje mesmo perguntar à mãe o que era aquilo, não podia ficar tão abandonada assim. Talvez ela soubesse. Ou então o pai. Se não, teria que passar pela suprema vergonha de perguntar pra moça de preto quem afinal era Deus, e o que devia murmurar para que ele aparecesse. Pensando melhor, era melhor não. Ela parecia tão certa de que todos o conheciam. Não podia falar nada. Não podia.
Shh... fiiii… ai oss que estshhh ssss... san... ch... shhh... oss... nomb... ass...te.... comb.... ce... Shh... fiiii… ai oss que estshhh ssss... san... ch... shhh... oss... nomb... ass...te.... comb.... ce... Shh... fiiii… ai oss que estshhh ssss... san... ch... shhh... oss... nomb... ass...te.... comb.... ce...
Deus. Deus. Deus. Deus. Onde estaria? Já começava a ficar cansada. E nada de nada. Que coisa mais estranha. Shh... fiiii… ai oss que estshhh ssss... san... ch... shhh... oss... nomb... ass...te.... comb.... ce... Shh... fiiii que estshhh ssss... san... que estshhh ssss... san... ai ai ai. Deus. Deus!!!! Será que só eu não estou vendo? Talvez seja como no circo. Mamãe já me levou lá. Algumas coisas somem e outras aparecem. Vai ver só vê quem sabe rezar. O que será rezar? Preciso perguntar logo isso pra mamãe. Tenho que me lembrar disso hoje ainda. Deus só não aparece pra mim. Por quê? Tudo isso é muito chato, e bem esquisito. Porque estão todos de olhos fechados? Será que ele só aparece no escuro? Será que é só um som? Uma voz? Um sonho? O que será? O que será?
Finalmente, a moça de preto, que também estava ajoelhada, se levantou, fez muitos gestos estranhos, de costas para elas, mas de frente para umas estátuas e uma grande mesa que estavam no final do corredor de cadeiras, e fez sinal para que a seguissem. As meninas todas, mais do que depressa, correram para a fila e voltaram à posição inicial, concentrada e de olhos baixos. Ela fez o mesmo, ainda mais pasma do que antes, mas fingindo profundo conhecimento de causa.
De volta à sala de aula, a moça de touca fez um sinal para a professora, mas não disse mais nada. As alunas, todas elas, rapidamente, voltaram à animação de costume, como se nada tivesse acontecido.
Tomada de profunda vergonha, ela se sentou bem quieta, esperando os próximos passos. Procurava entre as cabeças agitadas aquela menina que parecia ter levantado os olhos fora de hora, tal como ela, mas não tinha mais certeza se poderia reconhecê-la. Estavam tão diferentes agora. Tudo estava tão diferente agora. Deus não aparecera pra ela, fosse quem fosse, fosse como fosse. E pelo modo como todos pareciam estar felizes, isso começou a lhe parecer muito grave. Talvez a mãe pudesse ajudá-la, ou o pai. Mas não tinha mais certeza. Não tinha certeza de quase nada.
Mas de uma coisa teve certeza. As coisas estavam mais complicadas agora.
15.1.09
À maneira de Ulrica
Dizia-se de sua pele comovente, expansiva em forças. Explosiva ternura.
Dizia-se de sua beleza. De seus girassóis. Leveza vibrátil e ardente, tocada pelo fogo, marcada por seu inexaurível mistério.
Dizia-se de sua febril intensidade. Seus olhos. Ardorosa meditação sobre a alegria. Dizia-se de sua vibração aquática, humores e fluidos em infatigável doçura.
Dizia-se de sua proximidade com os ventos. De sua liberdade cantante de moça do ar.
Dizia-se de sua densidade terrestre. Da disposição para o encanto. Das exigências do corpo. Das pernas.
Falava-se, sempre e sempre, acerca da conformação sutil de seus quatro elementos. Caleidoscópicos. Sutis neblinares de tímida e rutilante orquestração.
Dizia-se que era criança e mulher. E que podia ser encantadoramente nossa em certas noites de lua cheia. Ou quando do encontro de certos tipos de amuletos. E de suspensórios.
E mais não se podia dizer.
Porque seria sempre muito pouco.
5.1.09
De águas e vôos
E em quase todos eles, você esteve longe.
Não posso te explicar quanto senti sua falta. Todos esses dias. Torrentes de água escoando, o muro liquefeito das esquinas, árvores ensopadas, pássaros escondidos, meus cabelos escorrendo, se desmanchando, o mundo inteiro se dissolvendo, os carros boiando sôfregos na tempestade, a noite submersa em rios, úmidas vertentes.
Chove muito. Há muitos dias. E em quase todos eles, você esteve muito perto.
Não posso explicar sua presença em mim, dissonante. Algo de água. Sempre fugindo. Dissolvida. Em todas as esquinas. Encharcando os sapatos, abrindo as sombrinhas, refrescando os beirais e amolecendo os telhados. Sua presença. Em mim. Na chuva. Liquefeita, esboroante, fúlgida. Tímida. O mundo inteiro encolhendo. Só sua ausência existindo. Meu coração boiando sôfrego na tempestade, contra o céu da meia-noite, te encontrando. A noite submersa em sangue, meu corpo todo pulsando, úmidas vertentes.
Agora continua chovendo. Mas você voltou.
E no conforto tão longo do seu abraço, me senti flutuar de novo na amplitude aérea do céu.
Não posso explicar o que senti, o que sinto ainda agora, o que invento. O céu ficando de novo claro, iluminado azul e mais leve. As árvores sacudindo as cabeleiras, gotas pendentes brilhando, sua elegância renovadamente limpa. As ruas emplumadas ao sol, exibindo cores novas e mais frescas. Janelas de repente abertas. Luz invadindo. Crescendo. O mundo inteiro de novo. Secando suas roupas ao sol. Flores, presságios, bicicletas. Cabelos ao vento. Andorinhas.
Eu com elas voando. Leve pássaro aceso.
25.12.08
Substantivo suicídio
não é igual
ao suicídio de um inseto
não é igual
ao suicídio de um mastro
não é igual
ao suicídio de um templo
não é igual
ao suicídio de um resto
não é igual
ao suicídio de um vício
não é igual
ao suicídio de um gesto
não é igual
ao suicídio de um fato
não é igual
ao suicídio de um tempo
não é igual
ao suicídio de um vivo
não é igual
ao suicídio de um morto
não é igual
mas é suicídio
23.12.08
Até aqui...
Pra poder seguir em frente.
Uma frente, todos nós sabemos, que é mesmo o meio do mundo. O meio do tempo. O meio de um espaço todo bagunçado, que não tem começo nem fim. Que não tem bordas, que não tem saída nem entrada, que não tem sentido. Mas que continua.
Todos sabemos disso, mas isso não chega a ser um problema, porque ninguém quer saber disso. O futuro foi por todos nós traçado e por todos nós será escrito. Ele vai sempre pra frente. Inapelavelmente.
O futuro sou eu e você. O futuro é a nova peça que começa. Já com algumas linhas mestras traçadas. Já com alguns finais meio prontos e uma boa dose de humor e tragédia. É assim.
Um futuro escrito por todos nós. Dramas mexicanos. Novelas brasileiras. Vilões e vilãs parecidos, mas com nomes diferentes. Mais frios e calculistas do que nunca. E cada vez mais bonitos. Novos filmes de arte. Outras e diferentes roupas. Novos cenários. Velhas estratégias. Antiqüíssimos preconceitos.
Crises econômicas novas, mas com o mesmo sabor amargo no fundo. Somos todos culpados. Materialistas, pequeno-burgueses, sedentários, hipócritas, falsamente religiosos, genuinamente fiéis. Fiéis de nós mesmos. Entupindo as artérias, os shoppings, as caixas de e-mails, as igrejas, as salas de espera. Esperando por nós mesmos.
Esperando pela nova peça que já vai começar.
E que tem algumas linhas e quase que todo o enredo já pronto. É só preencher os espaços vazios, é só preencher os canhotos dos cheques, as filas do banco, do supermercado, do cinema. É só ocupar um lugar. Na fila ou fora dela. No estacionamento ou na sarjeta. No mercado de trabalho ou na lista de aprovados.
Está quase tudo pronto. O resto é bem fácil de fazer. É só cozinhar em forno brando, com uma pitada de sal. O sal é sempre a gosto. O gosto determina o final. O gosto determina a moda e a vitrine. O valor e o presente. O nacional e o universal. O gosto determina a fome e a sede. O que manda e o que recebe. Bom gosto, bom senso, temperança, temperos suaves, boa vizinhança. Caldo de galinha ou remédio tarja preta.
Mas o neutro está lá. Insuportavelmente insosso. Ora, mas ninguém quer saber dele. Ele não importa.
O que não tem nome, o que não ocupa espaço, o que não é nem doce nem salgado, o que não tem utilidade. Nada disso importa. A peça precisa começar.
Novos personagens, cenários conhecidos e velhos tipos urbanos são convocados. O bêbado e o equilibrista. O político em cima do muro e os muros de concreto armado.
E muros de outros tipos. Tão diversos. Muros de fome e de linguagem. Gente que não sabe falar francês. Gente que não sabe que passeio no Sena é cafona. Gente que nem liga pro fato de passear no Sena ser cafona. Gente que brilha e que morre de fome. Ou de overdose. Muros de purpurina e de celofane. Muros de sal e de açúcar. Muros de coca e de anfetamina. Cada um no seu quadrado. Ou elipse. Muros.
Novos personagens. Mitos antigos. Aquiles e seu calcanhar. Velhas atrizes e o medo de envelhecer. Penélope, Ulisses e suas tantas artimanhas pra não sucumbir. Novas pílulas e velhos exercícios para emagrecer. David e Golias. Nós e nossos espelhos.
Muros são recursos úteis. Muros de tempo. Ano passado. Esse ano. Ano retrasado. Ano que vem. Muros entre um fracasso e outro. Entre um sucesso e outro. Entre uma religião e outra. Entre um deus e outro. Entre um amor e outro. Muros de solicitude e de solidão. Muros de esperança também: não vai haver mais muros! Muros de ilusão.
A ilusão é um recurso utilíssimo. Imprescindível. É preciso fingir que o cenário não é de papel. É preciso imaginar que o ator não está viciado, que ele não é gay, que ele é pai de família, tem três filhos e talvez uma amante. Velhas histórias. Velhos vilões. É preciso contar com os vilões certos. Um para cada muro. Um para cada religião. Um para cada forme. Um para cada regime.
É preciso contar com os heróis também. Com os mocinhos e com as mocinhas. Eles nos falam de nossos muros. De nossos espelhos. Eles nos confirmam e nos arrebatam. Eles nos preenchem e perpetuam. Eles nos salvam do quadrado alheio. Da cafonice alheia. Da elipse alheia. Da miséria alheia. Da riqueza alheia.
Eles nos salvam de uma vida sem final feliz. De uma vida sem final trágico. Eles nos salvam de uma vida sem final. Eles não deixam as teorias ficarem sem conclusão ou os problemas sem solução. Heróis são sempre úteis. Imprescindíveis. Eles e suas espadas. Elas e suas lágrimas.
Violência e martírio. Elementos que não podem faltar na nossa peça cotidiana. No nosso dia-a-dia, no nosso copo de água. Muros de dor e sacrifício. E culpa. Velhos personagens. Novas histórias. Jesus e seu sangue permanentemente derramado. Brigas de bar. Tiroteios. Antígonas e Medéias entupindo os presídios. Estatísticas. Histórias de sucesso. Vilões e mocinhos. Casais apaixonados. Sexos diferentes, por favor.
Violência e martírio. Amor e sexo. Paixão e Glória. E de vez em quando uma grande descoberta científica. Traições. Separações. Novos encontros. Pontes.
Sim. De vez em quando. Entre os muros. Uma ou outra ponte. Entre os quadrados e elipses. Entre um soluço e outro. Entre uma culpa e outra. Entre um amor e outro. Pontes.
Pontes entre mulheres e homens. Pontes efêmeras. Sempre efêmeras demais. Impermanentes, indóceis, impróprias, quase inúteis. Mas ainda assim, pontes.
Entre eu e você. Entre você e seus muros. Entre eu e meus heróis de placebo. Entre nós dois, nós duas, nós três, nós mil, nós muitos. Pontes de fé e de silêncio. Pontes para diminuir nossa culpa e a dos outros. Pontes para o pequeno detalhe. Pontes para a beleza inútil, inabordável. Passageira. Pontes para a poesia sem retorno, para a história sem sentido, para o sorriso sem motivo. Para a árvore que ninguém vê no meio do trânsito. Pontes para o neutro, para o sem sal ou doce. Ou marca. Para o sem gosto. Pontes para o outro gosto. O ainda não provado. O recusado. O já fora do prazo de validade. O já fora de moda. Pontes para o lado de fora. Para o meio do caminho, para o meio da rua, para o meio do mundo. Pontes entre as histórias. Entre as memórias. Entre os sentidos. Pontes entre as peças. Entre os móveis. Entre os medos.
Pontes efêmeras. Sempre efêmeras demais. Impermanentes, indóceis, impróprias, quase inúteis. Mas ainda assim, pontes.
Pontes para o presente. Pontes para o milagre que não é depois. É agora. Entre o amanhã e o ontem. Entre esse ano e o próximo. Entre eu e você. Entre os muros. Agora.
Hora de atravessar.
21.12.08
Depoismente do fim
12.12.08
Narcisistic home
2.12.08
Soleira
1.12.08
26.11.08
clip
Foto de Guy Sargent quase pluma
sua presença-presente
E a lembrança desse ardor
já quase antigo
desfia
desnuda
desperta
temas que nem têm nome
ou forma
Mas andam comigo
suspensos
Em franca vizinhança
15.11.08
pois é
Ao que Sofia retrucava: então, meu bem, e daí? Você nem morreu nada, morreu?
Ela não era muito romântica, e era bom que fosse assim.
Otávio, afinal de contas, era só um moço comum que queria sofrer um pouco.
Mas o fim era muito longe. E Sofia tinha uns seios lindos.
Era melhor que fosse assim.
Mais simples.
.
Mas depois de murchos os seios.
E acabado o amor.
Ele teve que admitir.
Que era um moço comum.
Sem final trágico.
Ou enredo exuberante.
.
Mesmo assim.
Não era nada simples.
4.11.08
De repente
29.10.08
No calor do cansaço, uma febre que volta...
Eu estou tão cansada de que me digam o que fazer. O que temer. A quem amar. Eu estou tão cansada de não poder sofrer, ou gritar. De não me deixarem mentir, pra mim ou pra outros, sobre gostar de mim ou de outros. Estou cansada de meias verdades, de verdades inteiras, de receitas de bolo. Estou cansada de amor viciado, de febre nos olhos, de sonhos vencidos. Estou cansada, perdida, exausta, retorcida. Estou cansada de pensar em adjetivos. Estou cansada de parecer bem estruturada, antenada, discreta, correta ou corrosiva. Estou cansada de ser eu mesma e de ser outras. De ser simpática. De ser pedante. Não quero mais controlar nada nem me esforçar para que não me controlem. Estou de saco cheio de pesar as palavras e a elegância. Estou profundamente cansada de ser elegante, me desculpem. O vômito também é real e prazeroso. Vou falar de coisas fétidas ou supérfluas, só porque me deu na telha. Nem é pra chocar, é porque estou com saudade. Estou com saudade de um mundo meu que nunca existiu, e que era doce e grave e feérico, com todas as luzes acesas e nenhuma vontade de chorar. Estou cansada de procurar pessoas pra amar, pra me distrair, pra contrariar ou desobedecer. Estou cansada de procurar trabalho pra esquecer e pra sobreviver. E de procurar argumentos pra convencer. Estou exausta de arder, de ficar tentando parar de sofrer ou de chorar. Estou puta de ficar querendo entender e perdoar. Estou farta de procurar sarna pra me coçar. De procurar motivos pra me torturar, de procurar amigos pra desabafar. Estou cansada de procurar e de achar. Estou cansada de rir, de mim mesma e de outros. Eu não tenho respostas agora. Sinto muito. Nem perguntas eu tenho. Estou quase vazia. E cansada de estar tão cansada. E cansada de planos alternativos, como cantar no banheiro ou escrever um poema. Quero sentar no chão e descuidar de mim mesma. Quero ter febre de novo. E calafrios.
Cansei de migalhas.
Quero o tremor inteiro.


