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Mostrando postagens de Agosto, 2008

Exposição

Livros intermináveis, expostos, insondáveis, ilegíveis. Letras inabordáveis, estranhas, intangíveis, quase insuportáveis em sua macia ilegibilidade, renda, suporte, folha, desabrigo. Cobre, tecido, flutua, desencadeia. Espaço vazio escandalosamente recortado. Letras gráficas símbolos jóias fios feixes. Cardumes de folhas, de páginas, de lombadas grossas e pesadas como os livros da minha infância, de capas duras sóbrias e permanentes expulsando madeixas cabeleiras rios mistérios cachoeiras. Livros intermináveis. Minha vida exposta. Difícil de tocar. A pele do livro. A pele da vida. Difícil de pegar, de ler, de traduzir. Páginas que se misturam, engancham, estorvam, entrelaçam. Escandem, sílaba após sílaba, um rendado todo feito de marcas, de peles, de gritos, de fios partidos, de esperas urgentes. De vazios.


Impressões sobre a exposição Seu Sami, de Hilal Sami Hilal (até 14 de setembro no Palácio das Artes)

Um novo final para Celestina

Celestina era moça direita e engomada, gostava de rosas e de suspiros quentes. Passava as tardes costurando com a mãe, e as manhãs ensaiando um modo de dizer a seu vizinho Demerval o quanto o amava. Escrevia cartas, fazia músicas, assava bolos. Seus poemas eram intermináveis; suas rimas, sofridas e urgentes. Eram delicadas. Mas não podiam atingi-lo. Demerval parecia ser muito exigente. E não tinha a menor cara de quem gostava de doces.

Acontece que o modo limpo e claro com que ela o amava, uma vez exposto, uma vez marcado, uma vez cantado, uma vez declarado em papel de seda, assado no forno ou aceso na boca em forma de riso, ficava roto e sofria, murchava e caía, em petição de miséria.

Não é bem isso... pensava a moça, com o bolo esfriando nas mãos, com a canção de amar se desmanchando no colo.

Essas permanentes - e talvez inglórias - lacerações na pele fina do amor foram fazendo de Celestina uma moça cada vez mais direita. E cada vez mais engomada.

Aboliu as rosas, porque tinham espinhos…

Linea

As cores da inspiração são assim mesmo, costumam vir todas misturadas, embaralhadas, trocando seus matizes em reverberantes formas... sua fome é a de confundir poetas e desavisados, embora sejam sempre bem vindas, em sua vibrátil e cantante euforia... e dispersão... mas às vezes, só às vezes, numa tarde de domingo, em um final de inverno, elas resolvem se estender organizadas, longilíneas, evanescentes, suaves e lânguidas, em feixes contínuos de luz... formam, então, linhas paralelas de múltiplas cores, adensando-se em dinâmicas horizontais ou verticais, largas ou estreitas, lívidas ou generosas, e se preparam para criar um universo de beleza todo especial... um universo todo listrado... que me move, colorido e urgente, para além de mim mesma... e de minhas lembranças... e faz, de uma parede em sua matéria, de um par de longas pernas em seu tecido dançante, e de dois olhos sorridentes e queridos, um motivo de esfuziante alegria. E tímida expansão.

Teoria do Encontro II

Para minha amiga S. Que é do amor, esse desarvorado, que flui diário e urgente como um fantasma? Que é da espera, essa impassível, que lenta e secreta move-se em águas profundas? Essas palavras quiméricas, tão desossadas... A expect-ativa, ação de espera, ação ativa de espera e urgência, é sempre uma entrega erótica, de encontro, de desencontro, de mãos que se tocam e fulgem, de peles, de reentrâncias. É sempre uma exposição, uma expansão, uma deriva. Talvez seja mesmo uma desmedida. Ou uma espécie de demência. O peito expectante, em estado de combate, em estado de experiência, em estado de milagre. Aguardando. O corpo indo, antes do olhar e do conceito. E de todas as palavras. O corpo vibrando, já entregue, sob as mãos daquele que molda a terra. E talvez o silêncio. A pele iluminada, efervescente, suspensa por novas e candentes delícias, não para de tatear no espaço, no tempo, em estado de pétala, de seda, de musgo. De superfície. A pele, essa impossível, quão desordenada e profunda nos par…

A mulher azul

Montagem a partir de fotos de Federico Erra
[Sugestão de Anne Gusmão]

Uma mulher azul caminha. O universo está restrito. Ela foge. Eu fujo, na iminência inconteste do texto. A mulher azul tem pernas e anda, descontente e absorta. Sua pele, no entanto, deflora. Gestos contidos e olhos estertorados. O céu da sua cor, as águas, o vento. Nada te barra, tudo te agita. Isso é o que te move, em silêncio de astro. Você anda, seu hábito alucina. Vendo-a de lado, eu apavoro o gesto. Sinto-me invadida por pequenas luzes. Tudo é muito e muito pouco agora. Mas meus mortos espreitam a sombra e o susto. Louca, sua sombra vaga, azúlacea e anômala, verte seu tino. Eu, desabusada e absurda, ouso escrever esse desarvorado segredo. O acaso, pai de todos os artistas, inventou seu nome, sua cor, seu ritmo. Escrevo-te, mulher azul, sua ruína. Visto seu uniforme e espero seu turno acabar. Depois dele, começa minha escrita. Quando você saltar do ônibus, e percorrer a pé suas ruas e excrescências, eu lá estarei…