7.8.08

A mulher azul

Montagem a partir de fotos de Federico Erra
[Sugestão de Anne Gusmão]


Uma mulher azul caminha. O universo está restrito. Ela foge. Eu fujo, na iminência inconteste do texto. A mulher azul tem pernas e anda, descontente e absorta. Sua pele, no entanto, deflora. Gestos contidos e olhos estertorados.
O céu da sua cor, as águas, o vento. Nada te barra, tudo te agita. Isso é o que te move, em silêncio de astro. Você anda, seu hábito alucina.
Vendo-a de lado, eu apavoro o gesto. Sinto-me invadida por pequenas luzes. Tudo é muito e muito pouco agora. Mas meus mortos espreitam a sombra e o susto. Louca, sua sombra vaga, azúlacea e anômala, verte seu tino. Eu, desabusada e absurda, ouso escrever esse desarvorado segredo.
O acaso, pai de todos os artistas, inventou seu nome, sua cor, seu ritmo. Escrevo-te, mulher azul, sua ruína. Visto seu uniforme e espero seu turno acabar. Depois dele, começa minha escrita. Quando você saltar do ônibus, e percorrer a pé suas ruas e excrescências, eu lá estarei pra te contaminar em febre. Pra te ruminar no escuro. Suas dores, seus espasmos, seus filhos golpeando a noite. Sim, porque você está morrendo.
Você morre aos poucos. Azul e tímida. E a brisa única é a que o seu odor exala: poderes amargos e uma dor já extinta.
No espaço vazio, tal qual um rato, espreitarei seu último sopro, seu derradeiro espinho.
No tempo acumulado, tal qual um mito, pousarei então no hiato do texto.
E nada mais direi. Porque você já terá ido.

8 comentários:

Carol disse...

Parabéns pelos textos...

são poéticos e de um lirismo encantador


Meu beijo!

Rebecca P. disse...

Obrigada, Carol!

Fico muito feliz que tenha gostado.

"Encantador" é uma de minhas palavras prediletas...

Su disse...

Oi Rebecca! Cheguei no teu blog pela Lu. Simplesmente adorei os textos (especialmente o "Teoria do Encontro I"), parabéns!
Depois volto com mais calma. Beijos!
Su

Nalu disse...

Rebecca, adorei. Lindo demais. Beijos

K disse...

Eu também gosto da palavra encantador.E também gosto de azul, não apenas da cor em si mas da palavra e suas nuances.

Muitos beijos

lu disse...

sabe...
"mulher azul" me lembra a rebecca romjin (não lembro como escreve esse sobrenome dela) no filme dos homens queijo, quer dizer, dos mutantes.
bem lindo esse texto. eu já sou freguesa aqui...

Rebecca P. disse...

Su, Nalu, obrigada!

E K., o azul é realmente uma cor magnífica... e a palavra também tem uma sonoridade... adoro.

E Lu, a mutante azul é minha personagem predileta... aquelas escamas... rsrsrsrsrs!

paulo andré disse...

mulher azul, cor de hematoma, de sangue pisado