9.10.08

Montes Claros



Há coisas que não se explicam. Como um modo de amar o passado. Umas ruas empoeiradas. Uma praça, umas igrejas e duas escolas. Minha casa.
Há coisas que não se explicam. Como um modo de amar uma cidade. Uma cidade que não pude enfrentar por 11 anos. Como um modo de silenciosamente dizer: Mãe, eu não pude mais voltar.
Mas voltei. Caminhei tudo de novo. Refiz todos os meus passos. Um por um.
Primeiro, a escola. Dei a aula que tinha que dar, na mesma escola que me abrigou dos 10 aos 16 anos. A aula foi longa, e nela couberam infinitas coisas.
A primeira aula de literatura, claro. E o primeiro amor. O espaço breve e intemperante de cada uma das salas de aula. E os corredores de cimento. Os bancos onde crescíamos, tontos de mundo. E a dor de pertencer. Os discursos alados. Os discursos perdidos. Olhos e vozes esquecidas, perdidas no desdobrado ensandecido do tempo.
A aula foi longa, e nela couberam tantas coisas. Todas elas inexplicáveis. Todas elas urgentes. Da urgência doce e melodiosa dos que têm saudade. Da urgência insistente e desatinada dos que foram, um dia, feridos pelo encontro. Todos os meus professores. Todos eles. Estavam ali. Ela também. Meu primeiro amor.
Falei. Articulei, defendi, ensinei. E aprendi. Ninguém viu minha alma crescer de tamanho. Ninguém ouviu a voz das árvores arderem sua febre em mim. Há coisas que não se explicam.
Um Bacupari não se explica. Nem a falta que ele faz. Uma jabuticabeira. Uma mangueira. Árvores que estavam tão enraizadas em mim que não as pude ver ausentes do pátio onde deviam estar plantadas. Para sempre. Minha saudade refazia cada uma delas. Mas as árvores não estavam mais lá.
O pátio estava. Nu. Dissecado. Deserto. A serra, nunca antes vista, fremia escaldante no horizonte. O corredor incompreensível. As portas de cada um das salas restavam atônitas, olhando o pátio vazio.
Orientei os alunos. Sofri meu tanto. Despedi-me deles. E fiz meu caminho de volta.
De táxi, não. A pé.
Refiz todos os meus passos. Um por um. Agora, de volta pra casa, depois da aula imensa e do pátio esvaziado de árvores. Depois do dia longo e quente e febril. De volta para a minha casa. Meu compasso ferido pela morte.
Um retorno triste e alegre. Como tantos outros. O mesmo caminho de sempre. As ruas menores e mais curtas. A poeira era a mesma? O tempo não.
Uma casa onde se morou não se explica. E nem se entra. Também ali me roubaram a árvore. A que devia estar na frente da casa e não estava. Árvore que minha mãe plantou? Árvore em que subi tantas vezes.
A rua era a mesma e era outra. Em mim ajustada, menor. Mais rica agora. Sem padaria e sem supermercado. Com igreja nova e prédio de muitos andares. Mais pobre também. Sem crianças.
Depois, a noite. A noite na avenida. Tudo crescendo em mim. Vozes antigas. A cidade suspensa. A cidade viva, fora de mim. Envelhecendo, criando seus filhos, amando a Deus, preocupada com a eleição.
Uma cidade que eu não conheço mais.
Depois, depois.
No dia seguinte, visitas. Outra escola. Um piso de ladrilhos muito meu. Um modo de ser das coisas que não têm nome. Uma sala de aula com janelas para a praça. Uma escola inteira parecendo de brinquedo. A saudade ficando suave.
Amigos de minha mãe. Conversas. Uma cidade que eu não conheço ainda. Um clube onde nadei, com ela me esperando. Tudo estonteantemente vivo. Praças, igrejas, pessoas. Minha mãe ali. No meio do mundo. De novo viva. De novo fazendo falta. Minha vida não se explicando. Minha história. Tudo ficando muito diferentemente igual.
Eu, de novo, no meio das pessoas, sem saber o que dizer a elas. Eu, de novo, sem saber como dizer sim. Eu, de novo, sem saber como procurar.
Sem saber como contar: tive saudade. Sem saber como admitir: eu parti porque quis. E não quero voltar. Sem saber como dizer e já dizendo: meu amor é grande e inteiro. Está enraizado aqui. É um modo de amor diferente. É um modo de amor que abandona. Que foge. Que elege outras cidades. Outras estradas.
Outros caminhos.
É um modo de amor que sabe que há coisas que não se explicam.
E que às vezes é preciso partir.
Para poder finalmente amar.

15 comentários:

Susana disse...

Rebs, eu (e posso dizer com autoridade) sei bem as cores desses pátios e árvores... fico feliz por esse reencontro. Gostaria de ter vivido ele com você (como tantos outros passados), mas também acho que essas coisas inexplicáveis, é na solidão mesmo que se vive. Solidão boa, necessária, para chegarmos àqueles a quem amamos. beijo enorme... amanhã no skype, confirmado!

Andre disse...

Aqui no TransCanada eu nao consigo colocar acentos nas palavras...o computador e uma maça. Ja pensou a C.Lispector escrevendo A maca no escuro com um computador maca? Um Apple? Eu tambem tenho uma cidade dentro de mim Rebecca. E tenho varias escolas dentro de mim. Falta-me apenas o sague frio para refazer esses passos na Escola Normal...ou no Colegio Estadual Coronel Antonio da Silva Bernardes. Lembro-me inclusive da carteira em que eu me sentava e dos colegas que eu invejava...ou mesmo dos colegas que me torturavam, dos professores que eu temia. Envelhecer faz bem. E deixar a poeira encobrir alguns fatos e locais tambem. A poeira nos e util. Lembrei-me agora do G. Ramos em Infancia. Tem coisas que sao melhores cobertas de poeira mesmo. Nao e atoa que em Infancia tem um incendio e tudo vira cinzas. De po somos feitos e ao po voltamos. Isso e biblico Rebecca. Somos um amontoado de fragmentos. beijos...Andre (Continuo americanofilo mas...com um pe no Canada e outro no Brasil)

paulo andré disse...

grande Rebequinha.
eu também parti para amar.
mas ainda não voltei.

Rebecca P. disse...

Su, eu também queria muito que vc estivesse lá... aliás, fiquei vendo eu e vc muitas e muitas vezes, pelos corredores todos... obrigada por estar sempre comigo! minha querida, querida, querida!!!

André, suas palavras me emocionaram aqui... estou morrendo de saudades do meu americanófilo predileto! Vc tem razão sobre a poeira... ela precisa existir. esquecer é uma forma esquiva de lembrar, não será?

E Paulo, fico pensando se nossas partidas não são todas feitas em nome dos muitos modos de amar... dos muitos modos de encontrar... Saudades de vc...

crys disse...

As vezes temos que enfrentar o passado. Ou simplismente revivelo. PARA PODERMOS FINALMENTE AMAR... XÚ

paulo andré disse...

não tinha visto as fotos antes!
com exceção da primeira, não tem vivalma na escola. só um fantasma solitário, fugindo da sua objetiva, na última.

paulo andré disse...

partir para amar quem fica

Rebecca P. disse...

Partir para também aprender a amar as partidas, a necessidade da partida, da viagem, das fugas...

Rosa disse...

lindo Rebecca! profundo, forte, triste, alegre e saudoso... mais achei que vc procurava o que não poderia encontra...um passado. Estou certa? BJS

Rebecca P. disse...

Acho que não, Rosa... acho que viajei para encontrar um presente... : )

alinecangussu disse...

Rebecca:
Achei o texto lindo e profundo. Quando estava lendo lembrei-me de nossa saída à noite para a Papaula, das coisas e saudade que vc falou, realmente foram momentos muito fortes, após 11 anos, de distância de um passado alegre, mas cheios de lembranças que fazem a alma doer. O bom de tudo foi poder rever os amigos, os lugares, as ruas, as praças, a escola, a sua antiga casa ... e o calor de Moc. A saudade faz parte da vida, para que assim jamais esqueçamos dos momentos bons e ruins, a qual passamos. Fique com Deus!

Rebecca P. disse...

Aline, obrigada! Eu fiquei muito emocionada ao escrever esse texto... foram muitas lembranças...
as cidades e as pessoas deixam tantas marcas em nós...

Anônimo disse...

Quem não reconhece a própia história e percebe-se de alguma forma parte da sua, ao ler algo escrito com tamanha emoção.

Estou feliz por te-la conhecido e por saber que existe sentido e sentimentos nesse mundo tão prático.

Tem certas coisas que eu não sei dizer, mas você me fez sentir.

Beijos

Amlek

Rebecca P. disse...

Amlek (lindo nome,esse...),

Seu comentário me emocionou por aqui...

Encontros que não se explicam...

Rosa disse...

Lindo! "As vezes é preciso partir" "Para poder finalmente amar" é isto mesmo minha querida! profundo e verdadeiro.
Rosa