1.11.07

Outro Ulisses e Outro Polifemo

Não. Não era esse o plano. No entanto, àquela altura, já não havia mais nada a fazer. A não ser esperar. O pai viria, era certo. Uma hora ou outra. Era melhor esperar. Claro que a posição não ajudava em nada. Era duro ficar de cócoras, agachado por detrás daquele empilhado de tijolos, defendendo um lugar de apoiar com a força do corpo. A visão que tinha da casa, aliás, também era péssima. Tinha que ficar todo atento aos barulhos, para não estragar tudo de vez. Mas o pior, o pior mesmo, era manter o equilíbrio.
Sentia que aquela pobreza muscular, aquela fadiga toda concentrada, estavam armadas contra a vontade dele. E tinha raiva. Muita raiva mesmo. Contra os panos duros da calça, contra o embotamento vagaroso das pernas – obrigadas a ficar naquela posição de merda - contra o tempo-todo da espera, contra o frio, contra sua própria idéia de resolver ficar ali. Contra tudo. Ia já começando a ter preguiça, a desistir, a amolecer a vingança sob as águas do sensato, do suor razoável. Tudo era tão difícil. Era melhor ir dormir e desistir de tudo aquilo. Era melhor.
Mas aos poucos, também, o atrito da raiva ia fazendo seu trabalho contrário. O de soldá-lo àquela posição meio grave, meio decadente, meio desesperada. O tempo agudo ia passando, longo e amolecido. E ele, ainda mais longo e retesado, grudava os pés na poeira grossa da terra e ia demolindo o sono dos ossos com o fogo demorado da lembrança.
Para manter os dedos no muro e o olho no terreiro, só precisava se lembrar da fome de morte que tinha. E da faca boa que trazia. Só precisava remoer a desordem interna das lembranças pra motivar de novo o empreendimento da vingança. Agora continuada. E, aos poucos, de memória em memória, de lembrança em lembrança, ia fazendo o ódio subir de novo nele feito formiga em tacho de doce, no devagar-e-sempre das coisas que são fatais. Era fácil. Era só não esquecer.
Não esquecendo. Se desovasse de novo os desmandos do pai no seu lombo, se revivesse o fisgar do milho nos joelhos, se cravasse no amargor das humilhações a besta fera dos gritos - era fácil odiar. De novo e de novo. Para sempre. A coisa subia que sufocava, fazia cócegas na garganta, afirmava o travo dos dentes, o franzido dos beiços em fúria. Odiava.

Porque o ódio, esse desconhecido, precisa às vezes ser um pouco inventado, um pouco cultivado, pra germinar mais firme, mais duro. Precisa ser também regado e alimentado e, em muitas ocasiões, podado e contido, pra ficar maior na estação seguinte, no ano seguinte, na década seguinte, quando estivermos mais fortes para o golpe.

No entanto, ao contrário do que se pensa, essa planta macilenta e daninha não é nada forte. O ódio, esse desconhecido, vibra limpo só uma vez. Depois, a lembrança tem que agir rápido e sempre, protegendo da morte esse momento frágil e intenso, essa semente maldita, esse espasmo. Todos os dias, é preciso verter águas de raiva límpida, diminuir o sol de outras paixões cotidianas, de outras memórias, principalmente das boas, adubar bem a terra do corpo, fechar os punhos, franzir os olhos, forçar a náusea. Ficar sempre lembrando, lembrando, lembrando.
Todos os dias. Lembrando do monstro que o pai sempre fora. Sim, porque Ulisses só conseguia lembrar das coisas que pudessem fazê-lo reviver aqueles momentos brutos. Com o tempo, o exercício do ódio acumulado, como juros compostos, nublava qualquer outra lembrança, boa ou pouco má. Só sobrava aquela, que à força de muito esforço, ainda mordia nele feito fome. A única lembrança possível.
A única lembrança. Aquele olho cego, o outro olhando. O estômago doendo, embrulhado, quando o pai o mandava fazer aquilo. O tempo demorando a passar, o enjôo grande demorando a chegar. Quando ele chegava, junto com o vomitado escuro e viciado, Ulisses ficava salvo. Quando a náusea vinha com força, ele desmaiava completo, para logo ser acordado aos tapas e repuxões. Quando ela vinha com força, ele conseguia fazer parar aquele pinto do pai.

Ele chamava o vômito, enchendo a boca, buscando crescer a garganta, aprendendo a revolver-se por dentro. Mas nem sempre ela vinha. A náusea grande. Ficando só a pequena, desforra do pai, que o comia então dobrado. Aquele filho da puta.

Não esquecendo. O pai chegando, como chegava muitas vezes, meio curvado, meio tropeçando na escada bruta, torta. Meio torto. Não esquecendo. O pai olhando com seu olho único o terreiro enorme, antes de entrar em casa. O pai batendo na mãe. Com as costas da mão. Com a correia. Com a colher de pau. O pai sempre. O pai de novo. O pai, o pai, o pai. Não esquecendo para sempre aquela cara torta, aquele olhar ausente de um olho só. O outro fechado cego por conta de uma briga de rua. Aquela pele turva e espessa. Cheia de poros imensos. Cheia de pêlos bravos por toda parte. Aquelas mãos de lixa pegando no seu pinto de menino, fino e leve como uma bexiguinha murcha. Puxando, raspando. Mãos imensas, desdobradas, cheias de unhas. E como fedia, o pai. Meu Deus, como fedia aquele homem. O saco azedo e nebuloso, encardido, frouxo. O pinto sempre pegajoso, tantas veias esquisitas, tão miseravelmente grande, cheirando a mijo e peixe. Podre e quente.
Meu Deus. Meu Deu, lá vem ele. É, só pode ser agora. O pai chegando, meio curvado, meio tropeçando na escada morta, meio torto, meio sôfrego. O cheiro nauseante de vinho barato. O olho cego franzido. O olho restante empapuçado, sombrio, embriagado.

A hora do golpe. Último olhar esquivo, última conferida no terreiro, última passada perto da pilha de tijolos, última tropeçada perto do filho. Última. E para sempre. Para sempre o fino fio frio daquela lâmina crescendo, perto da boca. Dentro da garganta, peito, barriga, barriga, barriga. Zap! A fúria crescendo.
Uma duas três. Doze, quinze, ufa! O pai perto da terra, o mundo perto do medo. A fúria. O balanço do ódio escaldante de Ulisses tremendo na boca, a faca tremendo na mão, o pai tremendo de morte. Daquele desafogar de tudo o que era ruim nele. Vai puto! Morre! Tudo o que sofreu virando combustível, virando sangue ensopando a terra, virando vento cada vez mais rápido em vela enfunada. Virando os olhos, o pai. Revirando os braços ao redor do corpo, parecendo cada vez mais o monstro que sempre fora.
Tudo vermelho. E o filho da puta sangrando até morrer junto à pilha sedenta de tijolos, lambendo no pêlo da terra a morte mais matada de todas: a de faca. Engolia em sangue de guerra aquele caralho podre que ele vivia colocando nos lugares errados, sangrando por todos os lados sua selvageria medonha, sua finada valentia. Seu veneno viscoso empapando a terra, feito chuva, feito alívio, feito vingança mesmo. Ainda morna. Continuando.

Nenhum comentário: