25.3.11

Pra sempre...


Não lembro bem quando te vi a primeira vez, nem a segunda, mas um dia devo ter te visto de verdade, porque, na minha memória, é como se você sempre estivesse estado lá. No fundo da sala, com os colegas mais barulhentos, pertencendo a uma turma que eu gostaria que fosse minha, mas não era. Eu ficava na frente da sala, colada nos professores, e tinha por turma outras colegas, menos indóceis que você, um pouco mais responsáveis. Mas nem de longe tão lindas. Você tinha lindos olhos escuros, redondos, e uma pele muito branca, toda pintadinha de micro sardas clarinhas, quase da cor da pele mesmo. Ainda tem. Seu nariz era engraçado (ainda é), e eu me lembro que ele me conquistou. Ele ficava ainda mais engraçado quando você ria, e eu me peguei me esforçando muito pra ver você rir. Eu faço isso até hoje, e sei muito bem porque.

De algum modo que não me lembro como foi, começamos a participar de um coral, e por causa dele fiquei mais próxima de você. Por causa desse coral, cantamos juntas, andamos juntas por variados recreios, rimos muito de tudo e de todos, e ficamos, palavra grande demais para aquela idade - amigas.

Você tinha, então, outras amigas, e uma melhor amiga, de quem eu morria de ciúme. E um namorado lindo, que andava de moto e parecia um galã da globo. E eu tinha inveja. Mas não era de você. Era dele mesmo.

Num certo churrasco da turma, nessa época, você foi atacada por todos da cidade, porque beijava o menino na frente de todos, na piscina, corajosa de amor e juventude. Uma coragem que só fui conhecer muito depois. Eu te defendi, porque eu acreditava em você. E te defendo ainda, pelo mesmo motivo.

Muito antes de eu crescer e me descobrir, você já estava lá. Era adulta, linda, corajosa, vibrante. Hoje acho que eu sou um pouco como você, só um pouco, mas você me ensinou essas coisas aí. E outras mais.

Você foi morar longe, longe, voltou toda diferente, amando rock pesado e idéias malucas sobre o mundo, mas seu rostinho redondo era o mesmo de sempre, assim como sua caligrafia. Eu confiei nessa constância e tive certeza de que você não ia me abandonar. E não abandonou.

Eu também não te abandonei, e na primeira oportunidade que tive eu te trouxe pra perto de mim, pra morar junto comigo. E assim dividimos as horas felizes e terríveis que aqueles anos nos trouxeram. Eu perdi uma amiga querida, você perdeu um querido amor. Nós ganhamos e perdemos muitas coisas, mudamos de casa e de idéias, mas nos mantivemos ali, uma ao lado da outra. Durante muito tempo.

Quando eu tive que partir, porque minha mãe estava morrendo e tudo o que eu entendia por vida virava de cabeça pra baixo, você conseguiu me apoiar. Você me tirou de dentro da dor, me emprestou energia, coragem, dinheiro. Você, do outro lado do país, a cada carta, me ensinava a viver. E a palavra amizade ia ficando mais do nosso tamanho, cada vez mais, a cada troca de vertigens que o fim de tantas coisas celebrava. Outras começavam, a vida toda urgente, e o mundo não esperando a gente crescer pra acompanhar.

Mas eu tinha você. E isso me sustentava no ar.

Eu passei um tempo longe, mas logo voltei pra nossa casa, que já não era muito nossa, mas você deu um jeito pra que ela ficasse nos pertencendo de novo. Esse momento maluco foi uma espécie de ensaio para algumas definições profissionais, suas e minhas, e a gente acabou se separando de novo. Mas estávamos, então, mais próximas do que nunca. Tudo na nossa vida se transformava a todo instante. E era preciso muita ternura e amizade pra dar conta do recado.

Nesses últimos anos, fomos vivendo de ponte aérea e viagens de ano-novo. Muita coisa aconteceu, e falar delas é buscar um modo de ser você e eu. Encontramos o amor e o perdemos de novo, mudamos de área, de profissão, de rumos, de idéias. Viajamos, dançamos, rimos de tudo e de todos, nos fizemos mais fortes, mais fracas, mais doces, mais duras.

E por fim, numa certa cidade que tinha tudo pra nos fazer maiores. Ficamos mais pequeninas. Foi lá, à beira do Tejo, rio memorioso de tantas partidas e retornos, que não conseguimos acertar nossas memórias. Ou nossos ponteiros. Descompassamos, desafinamos, nos perdemos um pouco de nós. Tentando acertar isso, você veio até minha casa, e nós, de novo, nos desentendemos. Mas, de desvio em desvio, de dor em dor, vamos nos acertando de novo aos poucos, tenho certeza. É só uma questão de tempo. Pode ser clichê, mas é tão bonito.

Escrevi nossa história aqui porque ela é meu modo de te falar de coisas que não posso falar sem chorar, sem te abraçar por tanto tempo que seria fácil te fazer chorar também. Mas não quero isso. Quero ver seu rostinho tão lindo, sempre um pouco mais jovem que o meu, sorrir de novo pra mim, sorrir sempre, até o último dia de uma de nós.

Escrevi nossa história porque acredito que ela vai apenas pelo meio, que ainda teremos muito a nos dizer e a nos (des)encontrar pela frente. É o que está certo. Escrevi porque não sei fazer outra coisa, e se falho tanto em tudo, não falho nunca em tentar encontrar o modo certo de te dizer que estou e estarei aqui. Pra você e por você. Sempre.


3 comentários:

Débora Cecília disse...

sua amiga precisa saber disso, há muita beleza por detrás das letras...

Anônimo disse...

Que sorte a sua, ter uma amiga cujo único "dogma" para se colocar neste mundo é o amor! Bjs pras duas, Mônica

Anônimo disse...

Olá trata-se a 2ª vez que vi o teu espaço online e gostei imenso!Espectacular Projecto!
Até à próxima