22.9.09

Na piscina

Ela sempre vivera dentro dágua. Por isso acabou reconhecendo que seus líquidos sobressaltos, além de mais tortuosos, eram sedutoramente infiéis. E quase mortais.

...

Foi assim, primeiro a mãe a matriculou numa escola de natação. Depois, ela aprendeu a viver daquilo: a respirar dentro da piscina como se fosse peixe. A pular entre as raias com estrondo e fúria. A domesticar o ar do fôlego e a vibrar braçadas ritmadas, plásticas, seguras. E rápidas. Muito rápidas.

Ela ficou então. Quase uma atleta. Rápida e profunda. Mergulhadora dos espaços sempre azuis das águas. Piscina e mar. E rio, de vez em quando. Mas rio é mais perigoso, dizia a mãe, que quase se afogara quando era criança. E só foi salva, dizia ela, porque estava de fita vermelha no cabelo.

E na correnteza em que a mãe ia, rio abaixo. Viram a fita boiando.

Ela ficava admirada da história. Afinal, só existia por causa da fita. Bom, não só, mas a fita tinha sido importante.

Ela é a mãe tinham sido escolhidas pra viver. Pelos acasos e águas do mundo. Sim, porque também ela, ainda menina, quase morrera afogada algumas vezes.

Duas no mar. Seu grande susto. Uma na piscina.

Passou, então, a juntar fôlego. A se adestrar no domínio intangível dos pulmões. Nunca se sabe quando se vai precisar deles.

E foi crescendo assim. Nadadora.

Descobriram, na escola, que ela treinava (e, às vezes, ganhava algumas competições da escolinha de natação). E sua existência de menina tímida e sem graça passou a ter algum brilho.

Daí pra quererem que ela competisse pela sala, foi um pulo. Ou melhor, um desastre.

Poucos se inscreveram pra tal da “mini-olimpíada” que as professoras organizaram. Na natação, só havia duas concorrentes. Ela, e a menina mais bonita da escola (pelo menos na sua opinião).

Era a sua chance, pensou. Afinal, a menina mais bonita nem treinava nem nada. E eram só as duas. Não seria muito difícil. Ela ia sem dúvida ganhar. Afinal, era a escolhida das águas.

No dia D., a mãe do lado, foram pra piscina olímpica da cidade.

(Primeira lição das competições: sempre é bom conhecer a arena da luta. ANTES da luta.)

Pois é, ela nunca tinha nadado numa piscina olímpica. Bom, pelo menos, de acordo com a menina mais bonita da escola, não era a única.

- Vamos treinar antes? Perguntou a adversária.

(lição dois, para o futuro... jamais confie nos adversários, principalmente quando eles são muito bonitos)

- Vamos sim.

E foram.

Ela ganhou as duas corridas de treino, e a menina bonita nem ligou pra isso. Depois brincaram, e riram, e pularam cambalhota, e mergulharam e fizeram de tudo. Ela sempre tentando dar o máximo de si. Tensa, em estado de êxtase, excitação e exibição máximos.

E a menina bonita só ria. Linda que só ela. Iluminando a piscina inteira. E todos os outros sóis atrás do sol.

No meio do brinquedo, as professoras e mães chamaram. Estava na hora.

Na hora da competição.

- Estão prontas?

(terceira lição: nunca minta quando em risco de vida)

- Estamos!

- Posição!!!

- Mas já?!

- Você não estava pronta?

- Estou um pouco sem fôlego, professora. Deixa eu descansar um pouco?

- Tá. Um minuto.

(quarta lição: um minuto e nada é a mesma coisa, especialmente em casos de vida ou morte)

- Já!

E nadou. E nadou. E nadou. Com a máxima velocidade que podia e conhecia.

Mas perdeu.

A menina mais bonita da escola, que nem treinava nem nada, ganhou a prova por uma braçada.

Mas ganhou.

E ela, a escolhida das águas, encolheu-se em sua tristeza. E decidiu nunca mais competir. E talvez até morrer.

...

Bom, pelo menos até uma outra menina perguntar onde ela aprendera a nadar tão bonito: “a menina que ganhou é bem mais rápida, mas é tão desajeitada...”

(quinta lição: nada como o tempo, uma hora depois da outra, etc...)

- Você acha que eu nado bem?! (prendendo o fôlego...)

- Com certeza! É lindo.

...

(sexta e última lição: é sempre bom preservar os pulmões. Nunca se sabe quando se vai precisar deles.)

- Você quer me ver saltar?!

- Quero!!! Salto mortal?

- É. Salto mortal.

8 comentários:

Gabriela Galvão disse...

Li isto, escrevi isso: http://mgabrielagalvao.blogspot.com/2009/09/ver-ter.html

Abraço

Janine Avelar disse...

rebs,
eles me deram um "notable" na tesina!
uauauauauauuauauauauauauau!
tô feliz!
bjus!

Anônimo disse...

Ah Rebecca, eu sempre amo tudo o que você escreve. Você está cada dia melhor, hein?
Beijos,
Dani Gusmão.

Val Prochnow disse...

eu é que fico sem folego algum com teus escritos, Rebequinha...!
beijocas,
Val

Rebecca P. disse...

Gabriela, adoro "desdobramentos" dos meus textos... inspirando a inspiração!

Janine, Parabéns, Parabéns!!! Não te falei que ia dar tudo certo?! Agora é a hora de comemorar!

Dani, que bom te ver por aqui de novo! Obrigada, obrigada!

E Val, seus elogios me deixam deveras emocionada!!! O esforço é diário, mas nem sempre o resultado corresponde a ele, né? Beijos, querida!

Anônimo disse...

Fumei tanto hoje e nem preservei meus púlmões. Não sabia que precisaria deles para ler "Na piscina".

Amei!

Beijos, alegrias e poesias,

Daniel Rubens Prado.

Rebecca P. disse...

Ai, Daniel... saudade de um cigarrinho... perdi as esperanças de conhecer vc e a Val, mas de qualquer modo, fico super orgulhosa de tê-los por aqui!!!
Bom mergulho!!! : )

Glauber Pereira Quintão disse...

você é uma grande nadadora.