4.9.09

Das ofensas nada gratuitas...

Uma das muitas formas de se criticar uma mulher é afastá-la, com maior ou menor sutileza, de tudo o que é considerado como “parte” do universo feminino – delicadeza, beleza, suavidade, elegância, candura, flexibilidade. Notem que usei apenas adjetivos “positivos”, mas ninguém desconhece o que eles representam: se é delicado, não consegue brigar; se é suave e cândido, é fácil de manipular; se é flexível, pode ser perigoso; se é belo, pode desviar a atenção de coisas mais “importantes” ou úteis, geralmente ligadas à racionalidade (posto que a beleza seria da ordem da emoção, da sensibilidade, geralmente relegadas ao plano do superficial, ou do supérfluo). São positivos, mas são negativos também.

Para ofender uma mulher, costuma-se tirar dela sua “feminilidade”, chamá-la de “menos mulher”, ou de “mulher pior”, roubar dela tudo que a ela deveria se ajustar como “essência feminina”, dizer a ela, enfim, que ela falhou como fêmea. Em outras palavras, chamá-la de macho.

O interessante jogo simbólico, aqui, é ambivalente, mas todos conhecem. Se fossemos usar de uma lógica simplista, quanto mais as mulheres se aproximassem do universo masculino, melhor elas seriam, posto que esse universo é considerado como “superior” em quase todos os aspectos. Quem negaria, em uma sociedade que cultiva a ascensão, como a nossa, o direito de alguém se aproximar de algo que considera positivo, superior, melhor?

No entanto, acontece o inverso. Quanto mais próxima uma mulher estiver do mundo masculino, pior ela é. Se a aproximação for “respeitosa” (feita com muita parcimônia), pode até ser bem vinda, mas qualquer entrada mais radical é uma afronta. Esse universo de, digamos, força, resistência, praticidade e racionalidade só nos seria acessível de longe, de muito longe, e ainda assim com a concessão explícita dos “senhores” desse espaço. Que, aliás, não se cansam de avisar: cuidado, mulheres, não se aproximem demais do “muro” da masculinidade, ou vocês vão ficar - meu deus! - agressivas, duras, inflexíveis, autoritárias, mandonas! Machonas.

Quanto mais próxima uma mulher estiver do mundo masculino, pior ela é. Qual é, portanto, o pior tipo de mulher? Qual é a que mais próxima está desse universo? As lésbicas, evidentemente. Muitas delas, de fato, reúnem as características acima citadas, recorrentemente associadas a elas e ao mundo masculino, mas TODAS elas fazem algo ainda pior, desejam aquelas a quem ELES desejam, amam aquelas que ELES amam – as mulheres.

Em resumo, ao se tentar ofender uma mulher, seja por qual motivo for, uma das ações mais efetivas (a outra é aproximá-la das prostitutas, como se sabe) é aproximá-la do “pior tipo” de mulher, as fanchonas, sapatonas, caminhoneiras, machonas.

E ainda que o universo lésbico seja muito maior e mais complexo do que isso, é a isso que ele normalmente é associado, simbolicamente falando – a essa falência, a esse não-ser tudo aquilo que se esperava que uma mulher fosse: mulher. E mulher, evidentemente, com todos aqueles “atributos” femininos esperados. Atributos que dizem, principalmente, de uma fragilidade e de uma sensibilidade. Fragilidade que, diga-se de passagem, não “ameaça” o universo masculino; sensibilidade que, além de pouco ameaçadora, ainda serve para “adornar” ou preencher aquelas horas masculinas que não estão sendo utilizadas para algum assunto “sério” – seja ela a construção do mundo ou sua destruição.

Em outras palavras, a mulher que o universo sexista/machista – porque é disso que estamos falando – considera mais “feminina” (e portanto “melhor”) é a mais bela e a mais frágil, e portanto, a menos ameaçadora e a mais “superficial”, posto que sua utilidade é da ordem do “entretenimento” – feita para as horas de descanso. Se dissermos com todas as letras: quando não estamos cumprindo a função biológico-reprodutiva, somos pouco mais que enfeites: alimento para os olhos e para o corpo. Ponto final.

O mais curioso aqui é que mesmo no mundo gay esses padrões sexistas se repetem. E com muita força até. Muitas mulheres gays, e que se assumem como tal, procuram ficar o mais possível próximas do que se espera delas como “mulheres”, e que poderia ser assim traduzido: Vocês aí, APESAR de serem lésbicas, PELO MENOS não sejam machonas, porque isso seria o FIM da picada. Há todo um esforço no sentido de não “parecer” ser lésbica, e muitas pessoas consideram como “elogio” dizer a uma lésbica: “puxa, você é tão feminina... nem imaginava que você fosse gay”.

Sim, porque a ÚLTIMA coisa que uma mulher “pode” é parecer ser um homem, em termos de atitude ou de aparência, é querer ou gostar de se vestir como homem (o que significa exatamente isso? ...assunto para outras reflexões), é agir com tal, sendo lésbica ou não.

Por outro lado, e seguindo a mesma linha de raciocínio, a pior ofensa para um homem é dar a ele atributos femininos, chamá-lo de frágil, de sensível, de cândido, de suave. Destacar tudo que nele não é vigor ou violência. Quanto mais doce e gentil ele for, mais se aproxima, valha-me deus, desses seres tão terríveis que são o “veado” e a “bicha”, e que são tanto mais terríveis e ameaçadores quanto mais “femininos” forem. E ainda que o universo gay seja muito maior e mais complexo do que isso, é a isso que ele normalmente é associado, simbolicamente falando – a essa falência, a esse não-ser tudo aquilo que se esperava que um homem fosse: homem. E homem com H, ou seja, com todos aqueles “atributos” masculinos: força, competência, poder de argumentação racional, resistência, agilidade, segurança, inflexibilidade, autoridade, conhecimento.

Todas essas características, desde o mundo grego associadas ao mundo masculino, são também as historicamente exigidas para o exercício da vida pública, e por isso mesmo consideradas como condições para a entrada no debate político (ainda que, mais recentemente, também se tenha valorizado aspectos normalmente associados ao feminino, como a flexibilidade, a capacidade de ouvir e negociar, a brandura).

O paradoxo está, portanto, mais do que formado. Das mulheres que desejem entrar para a vida pública, exige-se que tenham boa parte desses atributos, se não todos, posto que eles são a condição, e mesmo o instrumento, para o exercício da negociação política (partindo do princípio que a política também não possa ser feita de outra forma, ou com o auxílio de outros atributos, mas isso é assunto para outro texto). Uma vez de posse dessas características, elas correm o risco de serem aproximadas do pior de todos os universos, o das mulheres masculinas, ou masculinizadas. Quanto mais fortes forem, tanto mais essa aproximação será feita, e todos aqueles que desejarem ofendê-las sentir-se-ão no direito de fazê-lo, chamando a atenção justamente para aquelas características que, em um homem, seriam apreciadas, mas, em uma mulher, nada mais dizem do que do seu “afastamento” em relação ao universo femino, à sua essência, aos espaços que lhe estão “desde sempre” reservados – o espaço doméstico, o espaço da reprodução, o espaço da decoração.

O sexismo monta o sistema de “lugares” femininos e masculinos que orienta e estrutura nossa cultura, e penaliza aqueles que “saem” desses lugares, ou que os simplesmente os questionam, com a execração pública, com o desprezo, ou, nos piores casos, com a morte. Além disso, agregada à separação dos gêneros, e a ela vinculada como um de seus esteios, está a separação das inclinações sexuais. Além de sabermos como homens e mulheres são, ou deveriam ser, também sabemos como gays e lésbicas são, ou deveriam ser.

Mulheres e homens, gays e lésbicas têm seus lugares no mundo. Como os gays e lésbicas questionam permanentemente esses lugares (ainda que, muitas vezes, e ambivalentemente, os reforcem), são, por princípio, excluídos “naturais” desse sistema. Há um medo generalizado (também conhecido por homofobia), exposto e disseminado em todos os tecidos do cotidiano, de que alguém nos envie para esse “lado de fora” do mundo, nos vinculando a essas “aberrações” da cultura humana, àqueles que, consciente ou inconscientemente, nos mostram que esses “lugares sexuais” nada mais são do que construções culturais, inventadas e reinventadas ao longo de todo um desenrolar histórico, e portanto, feitas pelos homens, para os homens, com o “acordo” dos homens (e, durante muito tempo, com o medo das mulheres).

Esse “lado de fora”, no entanto, não é apenas, como se poderia pensar, destinado aos gays e lésbicas, mas principalmente àqueles que ousam questionar os MODOS de SER reservados aos homens e às mulheres, àqueles que nos mostram que esses modos de ser não são “naturais” ou essenciais, mas culturais. Assim fazendo, essas pessoas revelam que esses “espaços comportamentais” podem, e devem, ser reconstruídos, remodelados, reinventados, modificados (permanentemente). Em outras palavras, a exclusão é tão ou mais intensa para aqueles que violam as regras (leis) sexistas, tendo a sexualidade que tiverem.

Tudo isso para dizer que, quando alguém chama a atenção para a ‘masculinidade’ de uma mulher, ainda que o fantasma de uma suposta homossexualidade aí se manifeste, é a possibilidade de sua “exclusão” do mundo das mulheres que ali mais se entrega, ainda que sorrateiramente. Essa expulsão, no entanto, não abre para ela as portas do “outro” mundo, do mundo masculino, mas a retira de todos os mundos, lançando-a no limbo dos fracassados, dos impostores, dos traidores. É como se dissessem: você não consegue nem ser uma “mulher de verdade”, como pode nos governar, administrar nossas contas, lutar por nossos direitos? Você traiu a “essência” mesma de suas semelhantes, como pode querer o voto delas, ou mesmo o nosso?

Em resumo, mesmo que uma mulher tenha TODAS as características que o mundo competitivo dos homens exige (e não estou falando só do mundo da política), ainda assim, muitos as usarão para ameaçar seu sucesso. As qualidades que deveriam legitimar sua entrada na vida pública são traduzidas como negatividades, fechando portas que deveriam estar sendo abertas. A violência desse jogo é sutil, por isso nos aventuramos a denunciá-la. Afinal, por mais que, para muitos, ela seja mais do que óbvia, para muitos ela é ainda legítima, e até louvável. Infelizmente.

Eu, particularmente, admiro muitíssimo aqueles e aquelas que sabem montar e desmontar o brilhante teatro do gênero humano, mostrando os múltiplos cenários e figurinos com que podemos nos aventurar a ser, mais do que simplesmente homens ou mulheres, pessoas.

Pessoas para além das máscaras, saias, perucas, bigodes, calças, seios, saboneteiras, pernas, ancas, ombros, vulvas, barrigas, pênis, olhos, cílios, sardas, rugas, carecas, espáduas, uniformes, espadas, palanques. Pessoas preocupadas com o mistério que é ser uma pessoa.

Pessoas que têm coragem de dizer: eu existo.

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Tudo isso pra indicar o excelente blog Sexismo na Política.

A idéia é ficar de olho nos veículos de comunicação em geral com o fim de identificar atitutes sexistas, "analisando e procurando diminuir os obstáculos e insultos que desestimulam ou atrapalham o acesso das mulheres ao poder político".

Não é uma ótima idéia?!

13 comentários:

Pablia disse...

Berrequinha, Amei o texto!Cheguei a perder o fôlego. Bjus

Anônimo disse...

Adoreiiii...

Pinguim

rebook campanha classic disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Gabriela Galvão disse...

Rebecca, soh acho q a ameça ñ eh às mulheres q 'eles' amam, mas 'teem'. Pq machistas ñ gostam d mulheres, mas d 'buceta'.

E sim, eh uma ótima idéia!

Janine Avelar disse...

Rebs,
ainda não li o texto... ou seja, o comentário é sobre o blog...
Que lindo está com sua fotinha...
Adooorei...
Estou de volta à Minas Tão Gerais...
Depois te conto mais...
Tesina terminada, volta atribulada e dor de cotovelos...
Um dia passa, né?
Saudades flor!

Carolina Maia disse...

muito bom esse post, gostei mesmo! fico satisfeitíssima de saber que sua autora visita o homomento, e devo começar a frequentar esse espaço também.
o mais interessante é notar que determinadas características tidas como masculinas só podem aparecer positivamente nas mulheres se forem acompanhadas de outras femininas - como naquela polêmica que deu início ao "sexismo na política", o post do marcelo coelho sobre a dilma, a lina, a HH e a marina silva.
é por essas e outras que eu me recuso a chamar qualquer característica de masculina ou feminina... e fico extremamente chateada quando ouço essa frase que vocês citam, "tu nem parece lésbica".

Rebecca P. disse...

Pablia e Pinguim, obrigada! Que bom que gostaram...

Gabriela, acho que vc acertou na mosca! O universo machista vê a mulher como "pedaços" degustáveis: buceta, bunda, peitos, etc...

Janine, obrigada tb, mas demorei tanto a responder seu comment que já até mudei a carinha do blog de novo... rsrsrs! Mas continua uma coisa meio narcisa, vale admitir.

Carolina, eu é que fico contente com sua visita aqui. Conheci seu blog há pouco tempo, mas já visitei quase todos os posts e simplesmente adorei! Quando comecei a escrever esse post aqui, o que eu mais tinha na cabeça eram as ridículas frases do Marcelo Coelho, que "encarnou" com exemplaridade o que chamei de universo machista. Quanto a esse "hábito" (que denuncia uma estrutura...) de dividirmos o mundo em pólos opostos, eu tenho um texto mais poético que de alguma forma tenta trabalhar isso. Está no dia das mulheres do ano passado, vou ver se acho o link aqui pra vc.
Beijos, seja bem vinda!!!

Tainah Negreiros disse...

Sempre bom vir aqui, e fui num só respiro lendo o texto inteiro gostando muito desse desassossego sobre essas coisas tão engessadas e tranquilas nas relações. Arrasou, Becca!

Anônimo disse...

Olá Rebecca, voltei a encontrar seu blog e já o gravei nos meus favoritos.

É isso mesmo. A gente, principalmente a nossa geração ficou com um pé atrás, porque questionar a imagem que se faz da mulher constantemente passou a parecer coisa de feminista "radical". Enfim, as mulheres perderam um bom tempo seduzidas pela falta de coragem de errar, mas tentar dizer que não existe o "feminino natural".

Rebecca P. disse...

Obrigada, Tainah, é sempre bom recebê-la aqui. O desassossego é condição para qualquer mudança, né? Seria tão bom se todos nós nos incomodássemos com as injustiças...

E anônimo, bom que vc voltou... Mas não entendi uma coisa: "seduzidas pela falta de coragem de errar"? O que vc quis dizer com isso?

Anônimo disse...

"...falta de coragem de errar". Bem, querendo agradar aos outros em vez de procurar ser feliz.

Rebecca P. disse...

Ah, sim... É, por um lado vc tem razão, essa coisa de agradar os outros é sempre muito difícil, melhor seria buscar agradar a si próprio - ser feliz, como vc diz... mas o problema é mais grave do que parece, porque o "agradar" implica na felicidade, e vice-versa... Somos seres de relação (mulheres e homens), não conseguimos viver isoladamente, e muito menos na contra-mão de todos... o problema é que o agradar implica em "aceitar" muita coisa que não é legal (nem de longe)... ou então em lutar para que outros e outras achem legal mudar os conceitos e perspectivas. O que não é nada fácil, mas tb não acho impossível.

Isso tudo me lembra uma personagem do Almodóvar, a Agrado, lembra dela? Era um travesti que se chamava assim porque vivia de querer e gostar de agrados aos outros... E isso é uma puta ironia do Almodóvar, porque nada agrada menos aos preconceituosos de plantão do que um travesti... que, para cúmulo da ironia, era uma atriz que fazia, o que levava essas questões para outros tantos lugares... enfim, me estendi tanto que dava até outro post, mas vamos conversando...
Bjos!

Rebecca P. disse...

* querer e gostar de agradar aos outros