26.4.09

Será mesmo?

Deixe isso pra depois.
Não se preocupe com os muros.
Não vai haver muros.
A terra não tem divisões.
Juan Rulfo
Para sobreviver, é preciso não esquecer da culpa. Do choro, da reza, dos gafanhotos da bíblia.
Que é dos personagens? Ruth, Raquel, Madalena. Estátuas de sal. Mulheres e maçãs vermelhas. Personagens são máscaras elétricas. Estertores singulares. Símbolos castrados, nuvens de gafanhotos ocultando um céu deserto. Demônios aparecem e somem.
É preciso não esquecer que há palácios. É preciso não esquecer que há escadarias que levam a quartos de cartolina e crepom, onde as frutas maduras das mulheres esperam para ser colhidas a tempo. Se não, secam, apavoradas. Portanto, é preciso não esquecer que há sempre frutas maduras apodrecendo de cansaço nas árvores. Sem que ninguém as possa alcançar, sem que elas caiam.
É preciso não esquecer que tudo isso está escrito no livro fétido dos homens. Livros violáceos de sangue e poder. Livros de violação.
É preciso lembrar que há anêmonas urgentes no mar escuro, que não há filosofemas que nos salvem, que há bocas ainda não mordidas e decifradas nos esperando no portão, que há homens sem olhos aguardando o aviso final. Para avançarem sem remissão.
Será mesmo possível continuar? Meu texto é uma porta que se fecha. A página ferida. A garganta trancada pela sede. Como uma cidade para a qual não se pode voltar. Como um incômodo cheio de frases inúteis.
Escrever é uma coisa crua. Sobre palavras líquidas lambendo azulejos mofados. Sobre muros de concreto e ferro empenhados em sufocar. Sobre vísceras femininas dilaceradas por galhos fervorosos, dispostos a mostrar como somos acessíveis.
Por isso escrevo tão em silêncio. O mundo está muito restrito. Há muros em toda parte.
Mas há pontes também. Algumas delas.
Por isso sobrevivemos?

3 comentários:

Ana Laura disse...

sobrevivemos também pelo tom imprecisamente vermelhado do fimda tarde; pelo sorriso espontaneo e assim meio sem jeito que recebemos numa virada de esquina qualquer; pelo "cheiro" reconhecido na multidão de um corpo que parece ser do nossa exclusiva propriedade; por um ou dois suspiros de saudade....

pree disse...

denso.
bom texto.

Rebecca P. disse...

Ana Laura, vc disse TUDO!

Pree, obrigada! : )