2.4.09

Um nome para Deus - Parte II

Depois, foi a vez das outras vezes. O nome de Deus sempre presente. Presente nas conversas, nas aulas, na tv, nos mistérios todos. Uma vez aparecido, começou a ouvi-lo em toda parte.

Com o tempo, tomou coragem. E perguntou aos pais como fazer para conhecê-lo. E chorou contando que todas as colegas o viam sempre na escola. Menos ela.

Os pais se enterneceram com a confissão ingênua. E trataram de mostrar as dificuldades de Deus. Não podia vê-lo, mas devia amá-lo. Ele era o pai de tudo. O criador de todas as coisas. Poderoso, soberano, intangível. E magnífico. As palavras novas e ainda estranhas deram ao personagem uma coloração mágica. Não parecia nada difícil amar aquele ser tão bondoso, segundo o pai, e tão misterioso, segundo a mãe (que, só muito tempo depois, confessou que duvidava de sua existência).

Ele mora no céu. Diziam eles. E aquele lugar todo azul passou a dizer de uma intensidade, de uma volúpia, de uma carícia. Ele estava lá. E em todos os lugares.

A mãe explicou como se rezava, e como podia encontrá-lo assim, no seu coraçãozinho de criança. O pai mostrou que havia muitas religiões. E disse que a dele era a melhor. Que o seu Deus era muito mais poderoso e verdadeiro. Matriculou-a na Escola Dominical da igreja que ele freqüentava. E comprou pra ela uma roupa especial para o culto de domingo. Ela já estava pronta para encontrá-lo. Ele dizia.

Aquela súbita animação do pai a deixou quase em transe. Compreendeu que amar a Deus era condição para ser amada pelo pai. E se um era pai do outro, tudo estava então muito certo. De noite, quando rezava, já agora mestre na arte de agradecer por todas as coisas que tinha, era com grande empenho que o fazia. Tomada de profunda emoção e reverência, entregava-se ao nome de Deus como se o tivesse conhecido desde sempre. E sabia que ia adorá-lo eternamente. Cada cor nova que encontrava, cada palavra, cada emoção, cada pensamento, tudo ela entregava a ele, de noite, no frescor adocicado dos sonhos. Por tudo dai graças, ensinava o pai. E ela profundamente agradecia.

O mundo ficando maior. E mais suave.

Ela assistia aos cultos de domingo da igreja que era a do pai, muito compenetrada, embevecida com os pastores. Quando aprendeu a ler, o pai comprou pra ela uma Bíblia para Crianças. Toda ilustrada. As lindas histórias foram lidas com uma sofreguidão de amante. Nervosamente. Intensivamente. Devorava as páginas, as figuras, os sonhos de José, as parábolas de Jesus.

Mas na extremidade da fé, estavam as palavras. As histórias. Depois do nome de Deus, conhecia a palavra de Deus. A palavra de Deus era forte e justa. Dizia o pai. Dizia o pastor.

A palavra de Deus era a verdade e a vida. Os que duvidavam eram fracos e pecadores. Diziam todos.

Era preciso não duvidar.

Mas ao não poder duvidar, já duvidava um pouco. Porque não podia duvidar? Decerto ela, que era tão pequena, e sua dúvida, que era ainda menor, podiam abalar algo tão grande quanto a verdade de Deus? Duvidava muito.
Foi então que começou a testá-lo. A Deus. Duvidava muito, pra ver o que acontecia. E nunca acontecia nada. Começou a pensar que Ele, que sabia de tudo, já sabia que ela o testava, duvidava de mentirinha, forçava-o por meios ingênuos a aparecer com sua verdade mais verdadeira.
Era preciso duvidar mais fortemente? Era.
Então, foi a vez das outras vezes. O nome de Deus sempre em xeque. Lia as histórias da Bíblia de novo. Elas pareciam cada vez mais esquisitas. Povoadas de enganos. De traições. De fraquezas. De falsas promessas.
Cada história assegurava uma pergunta. Cada pergunta, uma possibilidade de resposta. Cada possibilidade, uma cilada. Cada cilada, uma nova forma para a culpa. Só ela não entendia a palavra. Só ela duvidava. Só ela negava. Muito mais do que três vezes.
Todas aquelas palavras foram se parecendo cada vez mais com o zumbido na igreja. Eram ininteligíveis. Inacessíveis. Insolventes. Sussuros fantasmáticos de uma voz sem rosto. Cada vez mais firmes, anunciavam uma presença que não estava lá.
E que talvez. Dúvida das dúvidas. Nunca houvesse estado.

8 comentários:

bruno:cunha disse...

Nossa.
Em cada palavra, letra, vírgula e pingo no I se vê a óptica de alguém que viveu e sentiu o que descreve - fica fácil de qualquer pessoa que passou por isso se enternecer ao se identificar com os sentimentos expressados.
De qualquer forma, digo, tendo-se vivido ou não, é necessário muito tato pra se expressar desse jeito. Adoro isso. (:
Deu até vontade postar algo no meu blog a respeito do conteúdo do post. Se o começasse a dissertar no espaço de um comentário facilmente me perderia.

Um beijo.

Val Prochnow disse...

Maravilhoso, desses que a gente não lê, mas engole. Devora.
Lindo, lindo, Rebequinha... de tirar o ar!
beijo querida!

Livia Queiroz disse...

Nossaaaaa Amei amei...

Muito lindo isso.
O tom ingênuo das palavras dão uma cor diferente à história.
Adorei mesmo!


E os meninos vão adorar mais ainda, peço a permissão pra levar pra eles. Comentei que tinha lhe mostrado o texto e que vc tinha gostado, e eles ficaram saltitantes... rsrsr
De repente, sem que eu percebesse isso tomou uma dimensão incrivel na cabecinha deles e é de uma importancia, eles fazem c mta seriedade.
Seu texto envolve e o melhor, além de envolver, nutre!

Beijos

Rebecca P. disse...

Bruno, eu vivi e senti quase tudo que lá vai escrito... e inventei um pouco onde a memória não alcançava... rsrsrsrs!
Vou adorar se a discussão se ampliar pra outros blogs... Escreva sim. já estou esperando!

Val, obrigada, viu? Eu estava achando tão bobinho... fiquei feliz com seu elogio.

E Lívia, pode usar o texto como quiser. Eu acho fundamental trabalhar com as crianças todas as "dificuldades" de Deus... sem dogmatismos, com sensibilidade. Vc arrasa como professora! É muita coragem sua!

helena leão disse...

nossa!!! O texto mais bonito que já li em seu blog..."Mas ao não poder duvidar, já duvidava um pouco. Porque não podia duvidar? Decerto ela, que era tão pequena, e sua dúvida, que era ainda menor, podiam abalar algo tão grande quanto a verdade de Deus? Duvidava muito." LINDO!!!!

bruno:cunha disse...

http://bestiariopessoal.wordpress.com/2009/04/21/um-nome-para-o-diabo-parte-i/
Tipo que a idéia era ser um contra argumento (e vai ser, hahaha).
O estilo é uma cópia descarada de teu post, de propósito.
Beijos.

Débora Cecília disse...

Rebeca,
que texto maravilhoso esse seu...
me diz uma coisa... o que você faz em BH? é formada em algum curso? trabalha em qual área?
fiquei curiosa em montar você na minha memória...

Rebecca P. disse...

Obrigada, Helena!

Débora, obrigada também! Respondendo às suas perguntas...
Eu fiz arquitetura, e dps fiz mestrado e doutorado na letras (teoria da literatura)... trabalho com publicidade, enquanto não passo em algum concurso para professor de literatura. Mas no fundo, no fundo mesmo, eu sou uma poeta de quinquilharias, meio sem lugar nesse mundo de desmandos e desmedidas...

E Bruno, adorei a homenagem-contra-argumento!
O diabo tem mesmo muitos nomes... Deus também.
Mas sabe, eu queria mesmo era um mundo mais livre... um mundo que não precisasse de tantas definições.