25.4.08

A menina e o cego que não mascava chicletes

Pessoas passavam por mim com suas bundas bolsas bocas encomendas pastéis embrulhos artífícios nuances.
A cidade passava por mim com suas bancas bolhas bancos bicicletas árvores borboletas linhas de tráfego sinais de trânsito placas de pare e pense e conversas pela metade.
Tudo era igualmente diferente na mesma rua (quase) mesma hora mesmo trânsito mesmos ônibus de idênticas cores e números e trajetórias.
Pombos passavam por mim e árvores e pedaços de sombrinhas e malas e até carrinhos de bebês e canteiros.
Tudo ia e voltava e vingava e sofria e partia e repetia e rebolava e suspirava e voava e se voltava para si mesmo como se nada fizesse sentido.
Ou era eu que estava triste pra caralho?
E o cego com sua bengala também ia passando passando passando, se não tivesse, de leve, trombado, e hesitado um pouco, na caixa de correios que amarelava a calçada.
E o cego, com sua bengala, também ia sendo rapidamente esquecido, se não tivesse, de leve, levantado seus olhos para o céu.
E os olhos do cego, com seu globo sulfurado e pastoso, tão impossivelmente pálido e suave, tão povoado de nuances vítreas e longas, violentamente dóceis em sua espessura algodoada e levemente azulada de nuvem, tão espantosamente dizendo de um assombroso espetáculo mudo que ninguém via, e esses olhos então, cuja cor nunca foi vista em algo que não fosse vidro, porque é a sombra móvel do que não está lá mas existe, esses olhos então me ofuscaram de um modo tão insuportavelmente belo
que eu parei imediatamente de chorar,
e me pus a caminho.

7 comentários:

Anônimo disse...

Caetano disse como é bom poder tocar um instrumento...o seu é a palavra.

clau

Anônimo disse...

Que triste e belo perceber
O que seus olhos percebem
O mesmo que os meus, quando resolvem olhar...
O mundo que não pára e que é tão belo!
A vida que acontece a despeito de tudo e que é tão viva...
E que não pára de acontecer diante da nossa loucura e correria
E ela é tão democrática!!! Chega a irritar...
Que bom te encontrar nas voltas da vida e perceber que você está aí:
Rebecca pura, Rebecca a mesma, Rebecca Viva!
Que outros olhos possam olhar!
Prazer Rebecca em te reencontrar.
Lu Mãe

Val Prochnow disse...

e como não há forma de registrar suspiros e silêncios;
e como não há forma de registrar as cores das palavras e não o significado delas;
... e como não há outra forma...
obrigada, Rebs.
beijos todos!

Anônimo disse...

Adorei a citação (ind) direta de Clarice e o fecho inesperado.

Ju Sampaio disse...

A menina a caminho e outros textos. :-) Lindo, lindo, Rebecca. Amor é isso aí.

Rebs disse...

O que mais me deixa feliz são os comentários de vocês... E muitos deles tão generosos e lindos que me fazem perder o chão...

Obrigada, queridos.

E Lu Mãe, que surpresa boa! Volte sempre, sempre.

rams disse...

olá... adorei! Vamos reconstituir sua rede de vacância.

abraço