9.9.10

Aliás

Aliás, o medo. É sobre o medo que eu queria falar, agora me lembro. Me lembro mesmo muito bem, ele está aqui. Ele está aqui comigo. O tempo todo. Era isso que eu queria falar.

Meu medo não é paralisante, como dizem por aí. Não é disso que se trata. Se trata de falar do medo. É disso que eu quero falar. Mas ele me escapa. Me escapa sempre, como quem foge, mas está sempre por perto. Como quem está atrasado, mas ainda nem partiu.

Ele está sempre por perto. Mas não me paralisa, não, como dizem por aí. Ele me movimenta.

Meu medo organiza tudo. Dá corda aos relógios, levanta os muros. Meu medo acorda, anda comigo pela estrada, me traz sombra e susto, me suspende. Escreve comigo diários de medo, máquinas medrosas, escolhas perfiladas. É isso. É assim que acontece. Ele dá as cartas. O tempo todo.

Meu medo é um sumidouro. Faz desaparecer o dia, a noite, os anos inteiros. Me leva com ele pro abismo, me faz cair por tempo indefinido, me faz conversar com os gatos. Com lagartas e tartarugas.

Estando sempre presente, nem lembro que ele está lá. Quando vi, já foi, mas sem deixar de ter saído.

Meu medo engole o futuro, engole o tempo, engole a espera da morte. Meu medo me faz crescer imensa, perder a chave, e diminuir depressa às portas de qualquer coisa. Meu medo me estica e encolhe, me deforma, me afoga em mim mesma, me salva. Meu medo sou eu mesma?

Sem saída, é nele mesmo que opero, é nele mesmo que grito e sufoco, é a partir dele que reclamo, é com ele que denuncio os que me cortam a cabeça. Os que adoram tribunais.

Sim, fui eu que roubou a torta, que chegou atrasada, que não soube escolher as palavras, que ganhou a corrida, que apimentou a sopa. Fui eu fui eu fui eu. Posso crescer e ir embora, mas vou continuar sendo eu mesma. A que nunca cabe. Insuficiente e alhures. E às vezes sem chapéu.

Era isso que eu queria falar. Sobre tomar chá e contar histórias. Histórias de medo e suspense. Memórias sem nenhum sentido. Era isso, e não era bem exatamente isso, mas agora já não importa.

Um lado faz crescer; o outro, diminuir. É só isso que importa. De que tamanho está o medo agora?

Era disso que eu queria falar.



4 comentários:

Glauber Pereira Quintão disse...

"você" anuncia o desejo de falar e parece ter dito de duas perspectivas: daquela que te perpassa e daquela que te escapa, sendo a entidade medo algo demasiadamente concreta para precisar ter corpo ou substância: "de" e "o", foram ditos e, de modo parcial, justamente, pelo não dito - como se impedido por obra do próprio medo. parece uma conversa com Alice in wonderland. admiro seu jeito forte de escrever. você é uma inspiração. beijo, Rebecca, Glauber.

Rebecca P. disse...

É uma conversa com Alice mesmo. Adoro suas leituras... sempre são muito instigantes. Vc também tem se tornado uma inspiração pra mim! Beijos!

jefhcardoso disse...

Rebecca, medo todo mundo tem, mas o seu medo é diferente, trabalha para você e com você. É uma excelente forma de sentir medo, não?! (sorrio)

*Entre o sonho e a realidade eu prefiro a realidade que me permita sonhar. http://jefhcardoso.blogspot.com

Rebecca P. disse...

Excelente, talvez não, Jefh, mas um pouco mais suportável... rsrsrs! Eu também prefiro a realidade que me permita sonhar. Não creio que esses planos sejam tão incompatíveis assim... talvez sejam mesmo muito próximos, misturados...