17.7.09

Bougainville

Para não esquecer Irene, comprei uma semente. Espero fazê-la crescer em verdes frases. Espasmódicas e espantadas como um soluço. Ardorosas como uma veemência. Meu texto é uma porta para dentro e para trás. Por isso plantei a semente. Para talvez lembrar, mergulhar, dissolver. Meus dedos virgens ensinam, nunca se deve perfurar a terra. Ou o passado. Escrever é uma coisa crua. Talvez dilacerante, talvez cantante, mas sempre uma coisa suja, isso aprendi. A terra tem abismos desconfortáveis. Epigramáticos. Ela é feita de folhas e pedras. De mortos. A memória é feita de mortos. A página é dura e estóica, mas aos poucos me acostumei com sua terrosa ossatura.
Como um deus adulto e calmo, concentro-me em mim mesma. Faço torrenciais as águas que, de tão limpas, fazem de verde as plantas. Molho a terra do vaso, onde a sedenta semente espera. Lembro que vivi um dia, úmida de cloro, amor e águas de piscina. Um traço se estabelece na página vívida e branca da narrativa. O risco invade, prenuncia, devaneia. Espera o começo da história. Minha semente explode em fendas, viciosas matrizes, quase tenras em sua ousada geometria. A terra traga aos poucos a casca dura e feia do grão, pavimenta o caminho do caule, desobriga o ritmo das sílabas. Findo o meu trabalho, o trabalho da planta começa. Mas não qualquer planta. Aquela. Feita de acasos e encontros. Inacabável. Feita de um cotidiano talvez banal. Aquele em que nos movíamos. Irene e Teodora.
A planta escuta e treme. A terra aos poucos cede. Como a minha pele sob aqueles dedos. Como a minha boca sob aqueles lábios. Os lábios de Irene. Tão leves. O texto avançando. Aquelas pernas. A febre alerta dos primeiros ardores. A planta crescendo em memórias. E a espuma de um cotidiano antigo, como um corpo sem peso ou âncoras, emergindo da superfície da língua. O sorriso moreno de Irene refrescando o longo verão de fogo daqueles dias. Grandes olhos de estanho e cobre. Minhas mãos nas suas. Meu medo de menina sem amigos ficando todo menor. Ou escondido. Irene me tomando o livro do colo, confundindo minha respiração com a dela, soprando na minha boca o desabalar macio do seu coração. Seus olhos descobrindo pra mim a noite e o dia e o tempo. Seus dedos vendo minha pele soçobrar sob o domínio de uma ternura macia e violenta. Suave pássaro em plumas.
Irene e eu correndo pelas ruas de pó e telha, desabando pelas colinas, cortando a serra de camurça com audazes bicicletas mambembes, dominando os campos esturricados de sol, espantando vacas, mastigando flores. Eu e Irene descendo atrasadas para a escola. Sôfregas de vento e paisagens. Tramando tempestades de silêncio para conquistar o mundo. No meio mesmo da praça, olhos nos olhos. Devorando picolés de tamarindo que eram da cor de Irene. Da cor da pele de Irene. Só que mais brilhantes. Seus lábios frios rindo da minha comparação, beijando meus cabelos eriçados em confusão de amor, beijando minha boca friamente febril. Como no cinema.
O texto me aquece. A planta me olha atenta. Em segundos rápidos, em fagulhas, em flashes rútilos. A planta eufórica. Sua voz em minha boca. A voz meio rouca de Irene. As dores da adolescência, seus abismos. Minha juventude pálida e sem rodeios. Tudo flutua e ecoa entre folhas aladas. Um cotidiano abrupto e seco. De ruas empoeiradas e sedentas. De bicicletas velhas, velhos tropeiros, comércios baldios, janelas de ferro. Um passado de amianto atravessado pela presença de Irene. Sua cabeça no meu colo. Seus cabelos muito lisos entre meus dedos. Minha Iracema, eu dizia. Minha Iracema de veludo.
Tudo se move na voz botânica. O passado se ergue em violências, desloca coisas, a página embargada. Assim como veio, não vai embora. O passado. Como uma espuma de onda que se recolhe, como uma bolha que estoura, como uma veia cortada, espanta, esmaga, interfere. E explode em flores. Pedindo seqüência à história. Um vento morno embaraça as folhas da minha planta. É preciso lembrar que há uma noite, apenas uma noite, em que tudo é silêncio e estame. Uma noite que povoa de morte nossa mais profunda entrega. A véspera do futuro. Uma cigarra eternamente cantando. Colinas de camurça escondidas no escuro mais fundo do cenário. Uma piscina de águas urgentes, pernas nadando, esquecidas. Olhos fechados, seios boiando. Aqueles. Um sorriso moreno e molhado me entregando um raminho de flor. Bougainville.
A doçura na ponta da haste. A flor febril e violenta. Como os lábios de Irene. O texto da sua pele. A comoção. Em transe, em trânsito. Insistindo em ter desvãos e pontes, restos, cavidades. Pirilampos de luz no interior da pétala aveludada. As cores todas. Violeta. Púrpura. Branco. A explosão da flor espantando nosso silêncio amoroso. Fazendo cócegas. Duas adolescentes nuas sob uma touceira de flores. Escandalosamente lilases. Uma boca que beija, uma mordida, um rosto. Lábios molhados de azul e glórias. Lâmpadas fluorescentes. A planta ardente esperando, esperando. Perto da piscina metálica. Embaixo da bougainville esplêndida. Nossos dedos virtuosos tomados de música e palácios. A noite sem lua. Uma via sacra de ruídos famintos. Um nome. Um sorriso. Aquelas pernas.
De repente, o texto funda e afunda. O grito lancinante de sempre. O susto. Um homem velho e sem camisa lançando-se no horror tumultuoso das águas. A piscina subitamente inflada, um corpo de criança boiando no vácuo. Urros, estertores, tempestades. Nossos olhos muito acesos. Azedume. O peso da morte é maior para quem está nu? A metáfora ausente. O futuro que não houve. Eu e ela. Teodora e Irene. As duas em pé. Desordenadas. O olhar estúpido apavorando as árvores. O mundo se perdendo nas beiras. O tempo cansado, cansado, balançando urgente no escuro, como num varal gotejante. Uma noite que se repete e agita. Sirenes intermináveis. A espera na ponta urgente das pétalas. O céu armando panoramas. Por fim, a semente cariada. O aborto do amor. Nada pode vibrar agora. O irmão de Irene está morto.
Não há como esquecer do pai, o espanto nas mãos, pronto para desferir o golpe. Um deus terrível, o veredicto inviolável, cruel. Um deus para os aflitos. Para os que odeiam as filhas. Vomitando vertiginosas sílabas desencontradas. Pálidos azulejos. Ela agora grita, a planta. Vê coisas, ouve vozes. Move-se no meio do mundo. Silenciada. O juízo é final, mas a página é breve. A flor aberta e viva espera pelo fim da história. É preciso ver que sempre haverá piscinas em noites sem lua, onde amantes serão capturadas pelo gelo do mundo. Junto delas, os cachos de bougainville como testemunhas dóceis e versáteis. De um espantado êxtase. E de uma tão úmida morte. Inocente! Diziam todos. A vítima inocente! Uma noite. É possível morrer várias vezes? Dedos em riste. A culpa. O mundo como um lugar de silêncios e vícios. As fêmeas expulsas do paraíso.
O texto continua. A planta escutando tudo. Ficando cada vez maior. É preciso lembrar que é possível morrer várias vezes. A planta já antiga insiste sobre um ponto, sempre o mesmo, sempre em transe. Em uma noite empoeirada, avenidas de silêncio acompanham a partida de Irene. O ônibus azul rasga o espaço em direção a outro mundo, mas não comove meu coração. O ódio surdo dos que perderam tudo. Até o amor? Até o amor. Sim, porque é preciso dizer que há situações de risco. Que há ativos e passivos. Que o mundo é dos homens e suas mulheres. Que o mundo é normal e festivo. Enquanto isso, bebemos e sorrimos. Os dedos nos narizes dos outros. Juízes e condenados almoçando a mesma carne vermelha e suave. Cientistas audazes descobrindo pílulas. Lâminas leves ajustando veias. Filhas desviadas deportadas para o sul. Enquanto isso, o mundo e suas verdades. Irene indo embora para longe. Eu ficando. Cada vez menor. Não há espaço para nós, Irene. Não há espaço em mim pra você.
O mundo esvoaça e plange. Ao longe, vejo pela janela senzalas de fulgor decrépito. Torres desencantadas de alumínio, vidro e tijolos. Uma cidade que não é aquela. Uma cidade em que Irene não cabe. O passado passou passando. O vaso agora é pequeno para o crescimento da dor. Não falo mais palavra alguma. A planta me consome. Sim, é preciso quebrar o vaso, espalhar a terra vigorosa, encher de fertilizantes o ar sedento. E admitir que de manhã tudo caminha para longas filas. Também o mundo é empurrado para frente, sua urgência, sua fome, seu estribilho. É preciso não varrer a casa. Deixar a terra tomar conta de tudo. Realizar minha vigília de expulsa: não dormir e secretamente escrever. Flores luminosas contaminam as extremidades da árvore violácea. Na ponta da palavra, o acento. No íntimo do verbo, o delírio. No meio do mundo, a explosão da planta. O texto cheio de frases.
É preciso acordar a tempo de ver seu crescimento, escutar suas raízes furando as paredes macias, reverberando pela casa como quem teima. Os ramos nodosos, insistentes, soberbos. Tomando conta de tudo. Os galhos perfurando o espaço exíguo, voando para debaixo dos móveis, contaminando os talheres, povoando de folhas o banheiro. Flores incansáveis e periféricas tremeluzindo de luzes a louça da noite. Raízes terrosas e violentas abrindo espaço no texto. Estradas cortando a vida. Frases que voltam ao mesmo ponto. Repetindo, repetindo, repetindo. Nunca mais, as colinas de camurça. Nunca mais, aquelas pernas aéreas. Nunca mais os beijos de tamarindo. Meu texto é uma porta que se fecha. A garganta trancada pela sede. Crua e rútila sede.
Escrever é criar urgências. É sem pestanejar. Escrever é criar raízes de ferro para sufocar meu grito. É romper meu corpo de fêmea com galhos fervorosos, dispostos a convencer o mundo de que não somos secas. Nem assassinas. Fiz viver a planta para enfeitar de cores minha morte inútil e delicada. Estou muda há 28 anos. Mas quis gritar em folhas minha história iridescente. E já quase antiga.

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