Pular para o conteúdo principal

Depoismente do fim

Aceita. Tudo acaba, escritor. O que é bom dura pouco. Mas não se desespere. As coisas te farão companhia.
As memórias, ainda que dispersas ou já dispensadas, podem te perseguir docemente no escuro, amargadas de terem partido. Subrepticiamente.
A faca e o queijo. Cá estão. Faça deles e com eles o possível para não sofrer. Não rompa em soluços, não arranque os cabelos. O livro acabou. Não há mais palavras. Mas faça o possível para esquecer isso.
É fácil. É só pensar que tudo é feito de água. Tudo mesmo. Água escoante, vibrante suave, contornando os perigos, amolecendo pedras.
Águas torrenciais descem do céu. É tarde. Você fracassou, mas as pernas estão inteiras. Andam, adormecem, se estendem. Muito brancas.
É cedo para sofrer. É tarde para partir. É hora de desistir. De golpear o ar.
...
Mas depois. Ah! Depois você pisca o olho e sorri.
O mundo está todo inteiro de novo.
A chuva se foi. O cansaço também. É domingo.
E a literatura continua.

Comentários

tainah disse…
Chove por aqui.

E graças a você, ainda bem, a literatura continua...
Débora Cecília disse…
simplesmente acho que você escreveu pra mim. obrigada!
Unknown disse…
Tainah,

a chuva aqui não sabe mais parar... acho que minha tristeza também não... mas vamos levando...

Débora-Borboleta, eu que agradeço você por aqui... lembro de uma frase da Clarice... "borboleta é uma pétala que voa"... quem sabe essa delicadeza não espanta nossas lágrimas? seria bom, né?
bjos!
Débora Cecília disse…
veja so a nossa ligacao. fazemos parte do mesmo rio. e eh epoca de enchente! por isso tantas lagrimas pra nos inundar...
Unknown disse…
por isso tantas lágrimas...

Postagens mais visitadas deste blog

Fazendo o balanço...

Em 2007, eu... Fiz novos amigos. Fiz o que pude pra guardar um tempinho para os velhos amigos, tão queridos... mas nem sempre consegui. Trabalhei bastante, mas sonhei ainda mais... Talvez demais. Tive pesadelos, mas acordei com alguém do meu lado... Senti muita falta da minha mãe. E mais ainda do meu pai. Falei a verdade. E me arrependi. Às vezes menti... Redescobri a Edith Piaf... e aprendi mais sobre arrependimentos. Tive muito medo, mas me socorreram a tempo... Saí da natação (mas pretendo voltar, juro!)... E engordei um pouco (eufemismos sempre são úteis). Vi dezenas (ou seriam centenas?) de filmes ótimos... E outros nem tanto... Vi duas peças magníficas! Rubros ... e Atrás dos Olhos das Meninas Sérias (se elas aparecerem em cartaz, corram pra lá!). Perdi a paciência... inúmeras vezes... Chorei de desespero... Mas me acalmei depois. Chorei de alegria - algumas vezes. Descobri o maravilhoso mundo encantado dos blogs... Descobri que toda vez que eu descubro algo novo, eu fico deslu...

Narcisistic home

O negócio é o seguinte: talvez a escrita nem comece. Estou em casa. Ou mesmo na rua. A casa é o intervalo para a rua. A casa é o começo da conversa. Daqui, ouço gritos. Moro no centro. O centro da cidade é um estampido. Rumores de todos os tipos. Sonoros, roucos, mudos. Viscosos. Gritos. O tempo todo. É como uma espécie de fábrica. De mugidos e cisternas. De gargalhadas. É como uma espécie de mercado. De fim de sexta-feira. Assovios, apitos, estalos, arranhões. Todo mundo. Algo vibra o tempo todo. Não faço idéia do quê. Bom, está chovendo. Mas não é o barulho da chuva. É atrás da chuva. É atrás do som. Algo que não se escuta nunca. Só agora. Depois do silêncio dos tacos. Antes do elevador. A casa é engraçada . Toda em portas. Um corredor. Algo que se estica. Uma varanda. Portas encardidas. Pedaços de fios. Conexões. Rios antenados espumando ligando controlando. Confirmando. Somos todos muito sozinhos. O lugar do telefone é importante. O espaço da tv. O espaço da fome. Eu não tenho ...

Da educação

Quando encontramos uma pessoal “mal educada” por aí, normalmente pensamos na falta de educação familiar (também conhecida popularmente como “pai e mãe”). Também é comum, quando conhecemos a família da pessoa em questão (e reconhecemos que a falta não vem dali), que pensemos na educação escolar propriamente dita, e nas possíveis lacunas que essa (má) educação possa ter infligido ao indivíduo mal educado em questão. Às vezes pensamos nas duas coisas, mas raramente pensamos em um “terceiro” fator, que é, do tripé educacional, o mais complexo: o fator cultural. Todos nós conhecemos, afinal, pessoas muito (ou bastante) letradas, educadas em escolas reconhecidas, ou de referência, com famílias também educadas e pais igualmente bem “formados”, que são, sabe lá Deus por que, verdadeiros colossos de ignorância, falta de sensibilidade para com o próximo e civilidade tacanha, se não inexistente. Também não é difícil encontrar o contrário, pessoas que, mesmo sem ter recebido da es...