27.7.08

Você

Entre uma coisa e outra. Você. Entre a escova de dentes e a cama. Entre o sorriso meio forçado e o momento de desespero. Entre a notícia na internet e o e-mail esperado. Entre o susto e o grito. No meio da rua.
Entre os lençóis. No lento desdobrar das minhas pernas. No gole de água à noite. No sono em vôo. No suspiro. No tédio. No gozo solitário. Na fuga.
Entre o segredo e a confissão. Você. Entre um almoço e outro. E na hora longa do jantar. Entre meias de seda e de algodão. Nas dobras do meu pijama. Em cada uma das minhas camisas. Nos tecidos suaves e duros. Na pele que vai ficando cansada. Nos meus olhos. Nos meus trejeitos de corpo e voz e gestos. Na sala escura do cinema. Em cada um dos meus trinta e quase cinco anos. Entre as pessoas que se foram e as que virão.
Entre sua boca e a minha. Você. Entre uma delícia e outra. Nossa fome. Entre seus olhos e os meus. Um lapso. Entre rios e mares e tempestades. Somente você.
Entre uma coisa e outra. Sua presença. Fortíssima, indócil, indelével, inapreensível. Nas linhas dos livros. E em seus silêncios. Nas mulheres imaginárias que sonho tocar e ter. Nas suspensões poéticas, nas músicas de Chico Buarque. E de Cartola.
Entre Dolores Duran e Dercy Gonçalves, você está. Entre Fernanda Montenegro e Ava Gardner. Entre as Amélies. A Nothomb e a Poulain. Entre Maria Betânia e Adriana Calcanhoto.
Entre um verso e outro. Muitas de você. Entre um pátio e uma fonte. No meio de meus passos aflitos, hesitantes. E nos passos seguros. Na frase que se forma. Nas palavras futuras e novas. E nas perdidas.
Entre um acordar e outro. Você. Entre um adormecer e outro. Só você. Entre mulheres aladas e o filtro que transborda. Na limpeza da casa que era nossa. E no interminável fim de semana. Na teoria derridiana e nas precisas imagens de Proust. E muito além das infinitas portas de Kafka. Você de novo. Corredor atrás de corredor. Processo atrás de processo. Castelo atrás de castelo.
Você está no cartão de crédito. E em todas as minhas senhas. Em todos os meus desatinos. Em todos os meus panoramas. No cabelo desalinhado, na água do banho. Quando estou cansada ou aflita. E quando esqueço o que preciso fazer. Quando vou e quando volto. Quando perco o sono. E quando ele volta.
No meio da minha boca, dentes, dedos, língua, unhas. Vísceras. Ossos. Músculos. Sexo. Entre uma hemácia e outra. Você. Sanguínea.
Entre uma vacina e outra. Entre uma gripe e um resfriado. E quanto volto do trabalho. Entre transeuntes desocupados e ocupantes. Entre o cego e o mendigo. Entre o pôr-do-sol e a manhã de domingo. Entre uma barraca de feira e outra. Entre uma taça de vinho e a próxima. Entre uma carta e uma conta de banco. Entre um bilhete de loteria e a sua esperança. Entre um amigo que parte e uma saudade. Entre uns olhos azuis e uns morenos. Entre todas as cores. E no inteiro branco vazio.
Entre depois e agora. Você. Entre o futuro e o passado. Só você. Entre medos e lamentos e marcas de infância. Entre a mãe que nunca foi embora e o pai que simplesmente não aceita. Entre as folhas das árvores e nas tímidas pétalas das flores. Em cada um dos ipês. Em seu colorido escandaloso. Entre os bichos que não tenho e os peixes todos do mar. Entre a linha matemática e o ponto de partida. Entre a viagem que não fiz e o medo da morte.
Entre o quase e o nunca. Entre o possível e o esperado. Entre o talvez e o para sempre.
Você.

5 comentários:

Anônimo disse...

A paixão está mesmo neste ínterim das coisas.
Bjs.

Clau

Val Prochnow disse...

você: puro desejo de escorrer do coração aquilo que pulsa. com maestria, entre umas e outras e em meio a essa rotina que emudece alguns, cega outros mas dá sobretudo a necessária coragem pra arriscar. (e não é assim a vida?)
beijos, querida! (meu dia fica mais feliz quando passo por aqui...!)

Anônimo disse...

Oi novamente, Rebecca. Eu sou aquela do "pesadelo", lembra? Venho te lendo/Tenho te lido(isso é mais legal falado do que escrito, é musical, parece verso, experimenta falar)
Aqui, menina, é impressionante(irritante?) essa capacidade que um certo outro - que pode ser uma pessoa, lembrança ou idéia fixa - tem de permear, tocar, interferir, enfim, de se fazer infernalmente presente em absolutamente todos os segundos da nossa existência, né?! Mas às vezes nem é capacidade/culpa do outro, é o que esse outro provoca na gente, é a maneira como a gente permite esse outro na nossa história. Às vezes nossa personalidade (ou os desvios dela) fazem desse outro quase um instrumento de auto-flagelação. Ai, pesado isso. Credo.
Não sei se interpretei errado o que vc quis dizer, mas interpretei assim. Pq comigo acontece assim. Já coloquei, mais de uma vez, gente de fora pra cantar de galo no meu terreiro, pra protagonizar a MINHA história...
Nem sei mais o que tô dizendo..hahahahahahahaha! Será que suas "umas e outras" estão me embriagando? Eu nem bebo, pôxa!
Ps: Ah, aqui, aí foi assim, né, eu leio o "Para Francisco" da Cris e foi por lá que eu cheguei aqui... Só pro caso de vc ter curiosidade. se eu tivesse um blog, eu teria. Me interessaria loucamente por todos os meus leitores.

Rebecca P. disse...

Clau, a paixão, o amor... ambos efêmeros e intervalares...

Val, meu dia é que fica mais feliz com seus comentários... que excedem meu texto sempre de um jeito tão bonito... minha rotina não me cega, mas acho que me emudece... esse espaço é meu grito contra isso. Eu acho...

Anônima, eu me interesso, sim, por todos os meus leitores... se há uma relação onde os "encontros" que acontecem são absolutamente intensos e indescritíveis, essa relação é a do autor-leitor... rsrsrs! Não é por outro motivo que escrevo, senão o de me encontrar com esse mistério...
Enfim, vc não só interpretou muito bem como, de algum modo, me ajudou a "perceber" minha obsessão de um outro modo... obrigada por isso.

Elisa disse...

você.