15.2.08

A fada e a ponte.

Eu me transformo. Eu me transformo. Há muitos anos que não existo. Mas isso não chega a ser um problema. É um problema pra você? Espero que não.

Ainda agora cheguei da missa. Rezei muito e orei pelos que me afligiram. Como Jesus. Como Jesus. Deixei por lá meu sangue, meu corpo, minhas roupas vulgares, minha mensagem de fé. Mas não, não tenho fé. Só desprezo e perdão. Eles não sabem o que fazem, mas eu os desprezo mesmo assim. Tenho marcas, tenho lanças, tenho sede, tenho chagas. Como Jesus. Mas eu me transformo e agüento. Dura, firme, espessa. Apenas a cabeça pendente. As mãos amarradas na ponte. As pernas ostensivamente abertas. Como um Deus de saias. Como um deus que fosse só medo e horror. Isso é um problema pra você? Espero que não.

Cristo é bonito. Só ele me olha direito. Sem desejo, sem poder. Eu me transformo aos poucos nessa doçura que espanta, nesse ingênuo esboço de homem. Cristo nunca foi homem completo, isso só eu é que sei. Se fosse, andava por aí desprezando os outros, pisando nos outros, comendo as mulheres ainda crianças, fodendo com todo mundo. O homem é assim. Jesus nunca foi homem, eu sei. Talvez tenha sido mulher. Talvez nem tenha sido nada, talvez nem tenha existido. Não posso imaginar que alguém assim exista. Deve ter sido inventado. Mas eu não ligo, nunca liguei. Ele é melhor inventado. Mais puro. E ainda mais suave.

Como eu. Eu vou me transformando em criança de novo. Mas não naquela que foi marcada. Em outra. Antes. Fada, bailarina, professora de piano, borboleta.

Antes de tudo aquilo, muito antes, eu andava pelo céu. E esperava o tempo passar. Eu tinha fome e sono. Eu existia. Eu era uma estrela toda pronta. Uma espécie de silêncio. E ainda tinha asas.

Mas agora é verdade. Eu me transformo. Mas sem apagar os vestígios. Perdão não é esquecimento, é ferocidade. Fui apagada do mundo. Só posso existir como vento, como neblina, como suspiro, como saudade. Tudo o que não existe sou eu. Tudo o que se esconde sou eu. Tudo o que vomita e é violado sou eu. Tudo o que chora sou eu. Tudo o que espirra, tudo que sangra, tudo que verte. Tudo. Tudo o que vem depois do abismo sou eu.

A crucificada.

Depois de morta, esperei três dias amarrada na ponte, até ser encontrada. Ali, tudo já estava começando. A transformação.

A mulher que me encontrou era forte e boa. E trabalhava em uma das casas de prazeres da região. Ela me disse para agüentar. Ela me soprou seu nome. Sua vertigem. As mãos dela de fada. Ela me disse pra deixar de existir. Disse que era melhor assim. Não existir. Não chamar a atenção. Não sofrer, não sorrir, não olhar demais. Era assim. Pra nós, era assim.

Eu tinha seis anos. Desde então, vou com ela à missa, todos os dias. E arrumo a casa de prazeres. Todos os dias. Lavo e passo as toalhas. As roupas de cama. Os vasos de louça branca. As pias.

Há muitos anos que não existo. Só as putas me vêem. Eu vivo de merda e mijo alheio. De fomes diversas escancaradas. E vou existindo cada vez menos. Sumindo. Os homens que vêm por aqui me confundem com a louça da pia, com o barulho da chuva, com as bacias de roupa no quintal. Me confundem com as paredes, com os espelhos, com os penduricalhos do teto.

Eles não me vêem mais. Mas eu os vejo. Eles não sabem o que fazem, mas eu os desprezo mesmo assim. Eu limpo sua urina. Seu esperma. Seu susto. Vejo-os gritar, escondida por detrás das camas, através das janelas, dentro dos armários. Vou analisando os rostos, os gritos, as barbas, os cheiros.

Um dia, eu sei, eles virão. Os que me violaram. E eu os reconhecerei. Sei quantos foram. Eu já sabia contar. Sei como eram, como gritavam, como suavam ferozes.

Eu os reconhecerei. Um a um. Ou todos juntos. Eles virão. E eu os matarei.

Só então a transformação se completará. E eu poderei ser criança de novo.

Isso é um problema pra você?

8 comentários:

Vivi disse...

Pungente.Cortante. Parabéns, Rebecca!

Tainah disse...

Tua escrita me parece sair dançando levemente... saudade de te ler.


esses dias lendo muito manoel barros.. temos que falar disso.rs

paulo andré disse...

não tem problema não

Anônimo disse...

Você sabe o que faz, e eu admiro! E digo mais, isso não é problema pra mim. É pra você?

Beijos eutanásticos,

Daniel.

Rebs disse...

Daniel, que saudades, sumido! Bom te ver de volta. Obrigada!

Vivi e Tainah, que delícia de elogios...

E já que não tem "problema"(rsrsrs!),Paulo, vou colocar outros textos desse "tipo" por aqui. Vc acredita que, no Brasil, de 2006 pra 2007, o número de casos de abusos contra crianças (que já era alto) simplesmente dobrou?! Não é o cúmulo? Eu queria uma escrita mais forte, mais dura, mais fatal... se tudo isso pudesse fazer alguma diferença...

Beijos a todos!

paulo andré disse...

se faz diferença pra você, faz pra nós também

Anônimo disse...

...!

Beijos,
Dani Gusmão.

martina disse...

bah.
que bom isso...