7.5.07

Todos os meses

Todos os meses ela vem. Uma vez por mês. Ela vem para pagar o aluguel dela. Todo dia 07, dia 08, ela aparece.

E eu fico esperando. Todos os meses. Fico esperando ela entrar pela porta, ágil, mas delicada. Ela entra. Entre um velho de barba rala e calça de moleton e uma senhora maquiada de rosa e vestida de preto. Entre a turma de adolescentes do interior e a velha de bigodes. Entre um ou outro cliente, ela aparece. Um lampejo bonito no meio dessa baderna que é a minha imobiliária. Quer dizer, minha não, que eu não sou o dono. Minha é modo de dizer.

Mas às vezes ela vem em horários mais vazios, e posso olhá-la mais demoradamente. Não faço atendimento no balcão, fico só na contabilidade. Mas a imobiliária é toda aberta, ela toda é atravessada pelo grande balcão de atendimento, as mesas dos funcionários ficam atrás desse balcão, como se fosse atrás de um biombo, só que mais baixo. Então, da minha mesa, posso olhar quando ela entra e quando sai. Quando está triste, quando está entediada, quando está brava, quando está feliz. Eu sei de tudo só de olhar para ela.

Ela vem todo mês. Eu só tenho um dia por mês e alguns minutos desse dia pra observá-la. Então, eu aproveito o máximo que posso desses breves momentos de alegria. De alegria não, de êxtase. Êxtase é mais o que eu sinto. Sabe aquela música, "ela vem toda de branco... molhada, despenteada..."? Pois é, é como nessa música. Claro que ela não vem molhada, nem despenteada... Mas é linda do mesmo jeito. Você entende, né? É como uma coisa assim, toda branca, toda limpa, toda leve, parece que vai, assim, ventar dentro da loja, entende? Ai, é meio difícil de descrever, mas eu lembro da música quando vejo que ela está chegando. É algo assim meio mágico, meio uma cena de filme.

Bom, mas o importante mesmo é que eu sempre sei como ela está, só de olhar. Ela é assim simples, nítida. Não tem neblina nenhuma, não tem ressaca. Ela é toda transparente. Eu olho e vejo. Só isso. Nesse único dia eu vejo todos os outros, inteiros, como se eu mesmo os tivesse vivido. Como se eu mesmo os tivesse tocado.
Nem sempre ela me vê. Eu fico escondido atrás do computador. Mas às vezes eu levanto e passeio pela área das mesas atrás do balcão, assim posso ver mais dela. Às vezes eu até invento de fazer alguma coisa lá fora, tipo ir fumar ou algo assim, e saio da área de atendimento e passo por trás dela, pra sair. Eu confesso que faço isso só pra ver ela por trás. Mas não é a mesma coisa de quando eu viro pra ver a bunda da mulherada na rua, não. É muito diferente.

Ela agora já até me cumprimenta. Me conhece. Eu fico mesmo muito feliz com isso. Nem posso querer mais do que isso, vê lá se ela ia querer um pirralho pobre feito eu, nem pensar. Não acho que ela seja rica, nem remediada, pois o apartamento que ela aluga é meio ruinzinho, longe do centro, mas ela é tão linda, tão linda, que não dá pra explicar. É impossível que ela fosse querer alguém assim feito eu, um contador assistente, meio office-boy, meio faz-tudo, meio feio, meio burro, meio triste. Eu vejo isso nos olhos dela quando ela me vê. Mas não acho isso ruim não, é assim mesmo. O importante é que ela sempre vem, e eu a observo de longe, num ritual dedicado.

Eu fico esperando por ela. Todos os meses. Nos dias em que ela vem, como os horários são variados, eu fico esperando durante cada segundo do dia. O dia todo. Às vezes ela não vem no dia 07, só no dia 08. Então são dois dias de espera. Quando esses dias caem no sábado e domingo, ela pode vir na sexta anterior ou na segunda depois. Se ela vem na segunda, fico o final de semana todo meio inquieto, esperando a segunda chegar. Acho que eu sou o único trabalhador do mundo que fica doido pra chegar segunda-feira. Mas não são todas, lógico, só essas em que eu sei que ela vai aparecer.

Já me disseram que isso é amor platônico, que não leva a nada, que eu deveria convidar ela pra sair e tal e coisa e ganhar um não e me livrar dessa obsessão ou ganhar um sim e arrumar uma namorada. Mas não é bem assim. Nos outros dias é tudo normal, às vezes eu nem lembro dela, vivo a minha vida. É só no dia em que ela vem pagar o aluguel que eu fico assim, agitado, esperando, quase louco. É como se só naquele dia imenso, cheio de horas e minutos e segundos de pura expectativa, eu fosse capaz de entender. E de profundamente escutar.

Eu não queria ser namorado dela, nem amante, nem amigo. Não é isso. Ou melhor, não é só isso. É outra coisa. Talvez essa coisa tenha mesmo um nome, mas eu não sei qual é.

A única coisa que eu sei é que ela vem todos os meses. Religiosamente.

8 comentários:

Madame Vivi disse...

Que fofo...sendo namorado dela ele deixaria de sentir esse êxtase, próprio da espera. Me lembrou muitíssimo o conto Felicidade Clandestina, de Clarice. E eu diria que isso não é amor platônico não, é amor amor, sem necessidade de adjetivo nenhum pra especificar. Porque dizem os entendidos que o amor é a falta, não é? E quem já amou sabe que trata-se uma falta intermitente, ou uma completude mal preenchida. Grande Abraço, Rebecca!

Adriana disse...

Também achei fofo!
Beijos!!

lu disse...

rebs. otimo voce mandar emails pra gente ler . sabe por quê?
eu li!!
e adorei...
lu

lu disse...

narração, descrição ou o outro?
que não me lembro mais....

lu disse...

próóóóximo

Dani Gusmão disse...

Gracinha de história...

acasoacontece disse...

Olá,
por um instante achei que era uma mulher esperando o seu ciclo.
Só quando ele fala do lugar, a contabilidade, é que percebi ser um homem, encantado com uma mulher, desejando, mas com medo...
Muito ótimo!
bjo,
Fidel

Rebecca P. disse...

Obrigada, Fidel!

Que bom que gostou!