17.5.07

Meu nome é legião...

Meu Prezado Amigo,


Escrevo-lhe esperando que você me avalie tão severamente quanto o faria se não me conhecesse tão intimamente. Procuro-o menos como amigo e mais como o profissional que é, médico e pesquisador respeitado, conhecido em sua comunidade e fora dela como um dos altos nomes da psiquiatria.

Pensei em mandar um e-mail, mas tive medo de que as informações ali colocadas se extraviassem ou caíssem em mãos inescrupulosas (já me avisaram que e-mail´s são como cartas abertas vagando por universos confusos e perigosos, sujeitas a assaltantes, saqueadores e curiosos de toda ordem). Enfim, como as informações que se seguem são confidenciais e bastante perturbadoras, imaginei que o melhor mensageiro seria de fato o Correio Nacional, com sua variante registrada. Sei que a preocupação é um tanto quanto paranóica, admito, mas a minha posição e fama assim o exigem.

O fato em si é simples, mas terrível. Não o comuniquei antes porque não vi logo o perigo. No início, senti-me apenas perturbado, se não curioso e até mesmo divertido, mas logo a coisa toda tomou um rumo inesperado e cada vez mais aterrador. Nesse exato momento, sinto-me imensamente acuado, nervoso e totalmente perdido. É, portanto, do mais profundo fundo da minha miséria - inclusive física, pois não durmo nem como nada há quase quatro dias - que escrevo essas desarvoradas linhas.

Como eu disse, o fato em si é muito simples, embora de cunho fantástico. Há quatro semanas, apareceu-me em casa um homem estranho, bastante assustado e de aparência duvidosa. Ele falava muito e gesticulava generosamente. Tanto que só com muito custo eu o reconheci. Era eu mesmo.

Depois do susto inicial, percebi que se tratava de algo inédito e resolvi deixá-lo conviver comigo por uns tempos. Ele afirmava não ter para onde ir e, como meu namorado me visita muito pouco e a situação se oferecia bastante fecunda, pelo menos em termos, digamos, artísticos (eu logo pensei em uma nova peça), eu aceitei sua presença.

Com o passar dos dias, percebi que aquele eu não era totalmente eu mesmo, mas sim uma parte de mim que me era bastante desconhecida, embora, sem dúvida alguma, fosse mesmo de mim que se tratasse.

Se eu tivesse outra profissão que não a de ator, e se não estivesse tão seguro de que temos tantos eus quantos nos é possível reconhecer ou lembrar, eu poderia até mesmo me referir a ele como o meu “verdadeiro Eu”, como diz o senso comum. Tenho plena consciência de que dizem “verdadeiro” porque não podem dizer “um dos mais antigos”, ou “sujeito a correções posteriores”, ou “versão 2.7.4.1”, ou ainda “traçado-com-vigor-em-folha-de-papel-por-mãos-infantis-e-inexperientes”.

De tão antigo, de tão arraigado, ou de tão fortemente riscado na superfície frágil da psique, é do tipo de eu que não pode ser totalmente apagado ou esquecido. Ao longo dos anos, ele muda pouco, resiste duramente sob as camadas de eus mais sutis que se lhe sucedem e superam, mas acaba por ficar meio na coxia, o que, no meu caso, acabou por me trazer um enorme problema, dado que a falta de lugar “interno” acabou por trazê-lo para fora. E de uma maneira que, para dizer o mínimo, é bastante curiosa.

Depois de uma semana, eu e meus gatos já estávamos totalmente adaptados ao novo morador e eu já até pensava em inventar uma história para que meu namorado não estranhasse sua presença ali. Ele era quieto, surpreendia-se com tudo e a tudo adorava com um ardor e uma paixão que me eram quase desconhecidas. Se eu ficava triste, chorava desesperado por horas inteiras, torcendo as mãos e enrodilhando-se no tapete, deixando os gatos assustados e ansiosos. Passei, portanto, a evitar contratempos que me pudessem agitar ou entristecer e cerquei-me de toda sorte de prazeres e delícias. Pedi ao diretor uma “licença” dos ensaios, com a desculpa de ter que viajar para resolver problemas familiares e mergulhei completamente na contemplação entusiasmada daquele ser vibrante, cuja intensidade e luminosidade me seduziam por completo.

No entanto, no meio da segunda semana, apareceu-me um novo indivíduo à porta, que logo reconheci, embora muito a contragosto. Quis evitar que entrasse, mas ele forçou a porta e logo impunha sua presença odiosa por toda parte.

Desde então, meu caro, eu não tive mais sossego. Esse indivíduo, que você já deve ter adivinhado ser uma das minhas muitas outras versões “esquecidas”, para não dizer “recalcadas”, como vocês, psiquiatras, gostam de dizer, é de uma agressividade impulsiva e devastadora, o que acabou por deixar o PedroDois (como eu carinhosamente passei a chamar o primeiro eu que veio me visitar) em permanente e sufocado constrangimento, tomado pela melancolia e pelo desespero. O outro, esse filho da puta, com o perdão da má palavra, não dorme nunca, grita e resmunga o tempo todo e já destruiu quase todos os meus móveis (Deus me ajude!), sem falar que os vizinhos não param de reclamar da baderna que ele faz.

Ele me acusa das mais diversas coisas, ameaça ferir tudo o que eu amo e considero e já ligou para boa parte da minha agenda dizendo desaforos de toda espécie. A sorte é que eu cheguei quando ele estava na letra B, o que me poupou de alguns inconvenientes, principalmente com meu diretor e com os produtores da nova peça, muito embora eu não tenha mais muita esperança de retomar minha vida normal. Tomar a agenda, no entanto, custou-me dois dentes e uma costela, além de um ultimato do síndico graças à barulheira da briga, enfim, você pode imaginar meu estado de nervos...
Mas isso não é tudo, meu caro. Há três dias, tenho vivido no meio mesmo do inferno.

Inferno, meu querido amigo, porque a campainha não pára de tocar. Já não atendo mais, agora, porque a sala está cheia de almas, cheia de Pedros de todos os tipos, inimagináveis até mesmo para mim, que julgava conhecer-me razoavelmente bem. A maioria deles é até divertida, parecendo-se bastante com a minha figura pública, de bon vivant. No entanto, há versões de mim que eu não conhecia e nem sequer imaginava, o que não é, acredite-me, uma experiência exatamente agradável.

Há Pedros cheios de vícios terríveis, que ostentam uma perversidade tão chocante que até eu, que já fiz tantos personagens odiosos, não os posso suportar. Há até, pasme, alguns que parecem preferir as mulheres (não é incrível?) e outros que desejam a morte com tanta veemência que deixam transtornado esse seu amigo que tanto gostava da vida. Há os cínicos e os muito tímidos, há os que fazem piadas de mau gosto e os canalhas de plantão, há os extenuados pela vida e até os ingenuamente felizes, coitados. Sem falar nos muitos deles que são o retrato expresso de meu pai... Descobri versões de mim tão vergonhosas que me é impossível descrevê-las aqui sem deixá-lo enojado. No entanto, devo reconhecer que há muitos de mim que têm me seduzido por completo, de tão generosamente delicados, de tão suaves, de tão sofisticados. Alguns conhecem até mais do que eu em termos de arte dramática e parecem já ter percorrido todo o mundo, de onde suspeito que há, aqui na sala, alguns de mim que ainda estão por vir.

Bom, o resumo da ópera é o seguinte: não saio mais, não vejo mais ninguém. Terminei com o Léo por telefone mesmo, sem dar nenhuma explicação. Muitos de mim ficaram exultantes, inclusive, mas a maioria ficou absolutamente consternada e profundamente infeliz. O que, aliás, me fez imaginar que ele talvez seja mesmo a minha alma gêmea. Mas não tenho tempo para isso agora, preciso pensar em coisas mais práticas. A comida está quase acabando e só me restam dois sacos de comida para gatos, que estão presos aqui comigo para esses imbecis não os machucarem mais. Fico a maior parte do tempo no quarto, só saindo para me certificar de que eles não foram embora, apesar de saber, pelos gritos terríveis e pela balbúrdia constante, que definitivamente não estou só.

Meu caríssimo amigo, estou verdadeiramente desesperado. Peço fervorosamente a sua ajuda! Seja para recolher-me a alguma instituição, se você achar que é o caso, seja para correr com esse pessoal daqui, se eles forem verdadeiros, seja para matar-me, se não for possível espantá-los. Na verdade, meu querido, eu não tenho mais certeza de nada, tal é o estado de alheamento em que me encontro.

Talvez.... Talvez eu esteja até mesmo morto dentro do apartamento, com meus gatos me comendo as vísceras enquanto o Léo não aparece para descobrir a dolorosa cena. Não, não pense que estou capitulando, mas essa alternativa não é tão horrível quanto parece. Afinal, quando alguém se vê com esse grau de crueza e arrebatamento, não é mais possível continuar. Não, não é mais possível continuar...

Se eu estiver mesmo morto, se isso for mesmo verdade – quão doce e generosa me parece agora essa macabra fantasia!–, talvez com um bom par de missas e com algumas generosas orações por parte dos amigos mais queridos, talvez com alguma sorte e muita esperança eu possa finalmente me livrar desses cruéis personagens e dessa tão humilhante e devastadora situação. Isso, confesso-lhe, seria minha mais profunda salvação, minha mais pungente vitória, minha única alegria.

Por isso reze, meu amigo, reze por mim.
Ou melhor, reze por todos nós.
Para os meus amigos atores. E atrizes.

10 comentários:

EUTANÁSIA disse...

Ei Rebeca,

adorei o texto. Lembrei-me do filme "Clube da Luta", só que ainda mais doido.

Sou apaixonado pela sua página e entro todos os dias para ver se você colocou coisinhas novas.

No mais, continuo aguardando por outras escrivinhanças. Beijos,

Daniel.

EUTANÁSIA disse...

Ei Rebeca,

adorei o texto. Lembrei-me do filme "Clube da Luta", só que ainda mais doido.

Sou apaixonado pela sua página e entro todos os dias para ver se você colocou coisinhas novas.

No mais, continuo aguardando por outras escrivinhanças. Beijos,

Daniel.

Daniela Gusmão disse...

Oi Rebequita!
Adorei o texto dos "multi-eus".
Divetido e catastrófico...
rezemos por nós,
beijos,
Dani.

Vivi disse...

"No entanto, há versões de mim que eu não conhecia e nem sequer imaginava, o que não é, acredite-me, uma experiência exatamente agradável." Puxa, quantas vezes eu já tive esse pensamento! É que a todo momento topamos com esses nossos eus, que nem sempre são o que gostaríamos. Nos assustamos, assumimos alguns como o personagem fez com o primeiro, e lutamos contra outros, às vezes em vão. Rebs, maravilhoso texto, riquíssimo! Não sei se pelos gatos e a sensação da morte, mas achei que tinha algo de Allan Poe no ar... hehe

Val disse...

Olá, Rebeca. Cheguei até pelo Dani, do Eutanásia, amigo de boêmia, poesia e amabilidades. Que ótimo presente! Adorei os 3 primeiros (últimos, por ordem de escrita) que li! Te adicionei no meu bloguinho, que, ainda bebê, transita por por fases, indefinido e cambaio. Lindas, intensas e fortes suas umas e outras!
Parabéns!
beijo
Val

Rebs disse...

Obrigada, Val!

Ter vc por aqui também é um presente!

Agora, vc não me mandou o nome do seu blog para que eu possa visitá-lo... Estou curiosa!

Beijo,

Rebecca

Val disse...

Ei, Rebecca!

Tá cá meu inicinho de blog... www.myhumps.wordpress.com

comecei com um propósito, mas logo ele desbancou pra outros vários... ainda muito neném...
quero mais 'umas e outras', vida longa!
beijo
Val

Anônimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado

Rebecca P. disse...

Que bom, anônimo... rsrsrs!

Pode-se saber o que é que vc estava procurando?! Fiquei curiosa...

Raskólhnikov disse...

bom