1.4.10

Quase assim...

Fonte da foto: http://inafractionofasecond.blogspot.com/2010/01/irish-blessing.html

Há muito tempo que não escrevo. Há muito tempo que não salto, não ganho, não perco. Estou atada numa espécie de silêncio complacente e revoltado, diante do mundo, diante das coisas. Tenho pouco a dizer, porque as palavras quase sempre me cansam. São demasiado impuras, demasiado invasivas. Mentirosas mesmo. Infames. O que tenho a dizer não é íntimo nem grave, não é passado nem futuro, simplesmente não existe. Não quero falar nada, nem nada compartilhar. Quero apenas estar aqui.

Quero apenas, num espasmo antes de tudo egoísta, mas profundamente humano, me apagar num gozo flácido de mim mesma, vouyer alheada da comédia social, sempre tão mesquinha e quase ridícula. Esse apagamento, no entanto, só pode acontecer sob a égide de uma participação meticulosa, coordenada, estratégica. Não basta ser, tem que participar, já dizia um comercial de remédio para contusões. Muito apropriado, aliás.

Participar. É um jogo talvez fácil, mas consistente. Todos me vêem e ninguém me vê. Todos me escutam, mas eu digo apenas o que querem ouvir. Eu a todos agrado, e a quase todos conservo e delicio, simplesmente porque quero desaparecer em seu amor. Quero tornar-me antes deles que de mim mesma, falar a sua língua, dizer a sua voz. Comparecer à cena para, dentro dela, poder fugir de tudo e de todos. Mas não de mim.

É simples desse jeito. E é fácil demais. Basta dizer palavras comedidas. Basta dançar conforme a música, participar das festas, atender telefonemas. Basta ser cordial, cordata, referencial, batuta. Basta corresponder ao sorriso, pagar as contas, dizer obrigado e chorar no escuro. Basta não gritar. Basta não usar palavras em desuso. Basta cantar afinado, olhar direto e firme, usar roupas apropriadas, falar baixo e objetivamente, dar o cu para o chefe, nunca chegar atrasado. Basta sorrir simpático e ser engraçado. Basta mentir. Basta nunca falar de coisas importantes ou difíceis. Basta odiar e ter inveja. Desprezar os que não sabem se comportar. Basta se comportar. Há manuais para tudo, é só saber ler.

É por essas e outras que em verdade vos digo: tenho medo.

Medo porque é fácil demais.

7 comentários:

Tainah Negreiros disse...

nossa becca, é isso, isso mesmo. assustador por ser fácil demais.
sempre bom demais vir aqui...

Rebecca P. disse...

Pois eu adoro quando você vem...

Em breve poderei escrever mais... as coisas vão se ajustando por aqui.

marcelo disse...

visitei umas e outras depois de muito tempo...
"dúvida" me suscitou essa renovada vontade de ler e vaguei pelo seu blog. mas" quase assim" me trouxe uma clareza assustadora de minha percepção e do meu incômodo com a tal 'comédia social". rebeca mais do que "gosto disso" (adorei essa do fb no português de Portugal Susana) adoro o que vc escreveu.

cau disse...

Doce Rebeca, o ácido também lhe cai bem, mas quando amargas é que uivo!

sêfer disse...

putaquepariu, Rebecca!
ai
ai
ai

Beijo,
Glauber.

rootsonE disse...

Minha primeira vez aqui. Gostei demais, me identifiquei muito e percebi logo nas primeiras linhas que alguém conseguiu traduzir o que tão profundo eu sinto. As palavras parecem tão tolas, e as emoções são tão subversivas que a tarefa de expressá-las, apesar de ridiculamente fácil, torna-se desgastante. Escrever é a minha vida, mas confesso ser torturante a tarefa de encontrar sentido no que já me parece morto.
Sigamos nossas trilhas tortuosas, afinal, o poeta é um fingidor.
Parabéns pelo blog, fiquei encantada.

Rebecca P. disse...

RootsonE,

Obrigada pelo carinho. Faço minhas as suas palavras... A tarefa de encontrar sentido no que parece morto é, de fato, tortuosa e torturante... mas enfim, é nessa trilha instável que nos des-encontramos, não é?

Volte sempre. Beijo!