30.5.09

Da fabulosa altura assimétrica do oposto

Há coisas que a gente não nota porque
são muito pequenas para serem vistas.
Mas há outras que a gente não vê
porque são imensas.
Robert Pirsig
É disso que se trata. De grandezas. De grandes e pequenos. É disso que se trata. De intensidades. De potências. De fúrias e tempestades. De atos. E de potências atuantes. De autuações. De atuações.
É sempre disso que se trata. De ser maior ou menor. Ou de parecer ser. Ou de obrigar a ser.
E também de transgressões. Se trata de transgressões. Ao ser maior, sendo menor. Ao dever ser pequeno, sendo grande. Se trata também de enormidades. De pequeninescências. De transgredir pelo exagero. Ou pela circunstância.
De coisas que, de tão grandes, são silenciosas. E vice-versa. Sempre há vice-versas. Pra dizer de uma troca, de uma transgressão. Ou de mais do mesmo.
Pra mim, sempre foi esse o problema. O problema do pequeno. Do pequeno pedindo desculpas. Por ser pequeno. Ou tendo vergonha. Ou ficando em silêncio. O tamanho como marca. Registro. Definição. O tamanho como necessidade. Como nome. Imposição.
De não poder ser maior. Por ser pequena. E de não poder ser pequena. Por ser maior. E de poder vir a ser, crescendo ou diminuindo, sempre de um outro tamanho. Como Alice. Mas não em qualquer direção.
Sempre foi isso. Direções. Crescimentos. Decréscimos. Retiradas.
Depois de algum tempo, cresceram os seios. Os pêlos. Mas não o desejo certo. Não na direção certa. O desejo. E as exigências mudando.
Não era só de grandezas que se tratava, mas de direções. Era de certo e errado que se tratava. Não de disposições. Era de sujo e limpo. De pecado e salvação. Era disso que se tratava.
No fundo, o problema era o mesmo. Grandezas, intensidades. Ou o que se dizia delas. Não poder ser grande. Por ser pequeno. Não poder ser certo. Por estar errado. Não poder ser limpo. Por viver impuro.
O tema era o mesmo tema. Só que travestido. E não se podia ir, como Alice, em duas direções. Só na direção certa. Que era a grande, a limpa, a exata, a útil, a branca, alta, altiva, restrita ao sexo que veio, ao país, à pele, restrita à superfície do nome, da direção, da falta de sentido do sentido.
Ou do excesso de sentidos do sentido.
Restrita, enfim, ao sentido, às sentinelas, ao sempiterno corte, ao traço aberto pela língua.
Ao caminho aberto pelos outros. Era disso que se tratava. Não abrir novas veredas. Não fugir da reta. Não derrapar na curva. Sempre o mesmo caminho. Nomeado. Sedento de grandezas. De coordenadas. Sempre o mesmo e grandioso caminho. Palavras grandes. Astros, noites, tempestades.
Mas o viver no meio mesmo do pequeno. É disso que se trata. Viver no violento meio. No pequeno. No violento sujo. No feminino, no avesso, no oposto, no espanto. O viver pelo lado de fora. No negro, no fuliginoso pardo, no inferno dos outros, sendo outro.
Sendo outra.
De outra forma, de outra cidade, de outro tamanho. Vivendo em outra velocidade, em um país onde o tempo se expande, onde o clips esquecido na calçada pode ser salvo e entregue a outras sortes, onde o que é pequeno pode violentamente crescer e continuar pequeno.
Pequeno e nunca visto, inexistente, esquecido, transparente, opaco ou luminoso, não importa, desde que invisível, grande ou pequeno, mas invisível, intocável, intangível. Expulso.
Porque é disso que se trata, no fundo. Ou na superfície da língua e da pele. De tocar e de ver.
De tocar pra ver. Se existe. Como Tomé. Como outros tantos duvidando. Duvidando do sentido e da falta de sentido. Duvidando da fome disforme do desejo. Duvidando da página nunca escrita. Da língua dilacerada pela história que sempre existiu. Da pele inflamada pela trégua que nunca veio. Dos sonhos no deserto. Da desaparição do mundo e do tempo sob o mistério da palavra. A divina, não. A humana mesmo. Pequenina e alta palavra. Sensível ao toque. Escancaradamente cruel. Ferina e feliz. Nomen clatura. Fiel e tangível ossatura de espantos. De surpreendentes proezas. De vazios.
De uma sede que nunca passa. De uma vontade escura de encontrar você. Tocá-lo com dedos de louça e amor.
Porque é de tocar e sentir. É disso que se trata.
De fomes. Não de nomes.

9 comentários:

JULIA GARIM disse...

me deixou sem palavras, sem ar. PARABÉNS

Andy disse...

Depois do "Ovo e a galinha", esse é mais um desses "contos" que eu sinto tudo e não entendo nada. Pior, ou melhor, não sei, é não ser pequeno e crescer desregradamente. É um erro menosprezar o pequeno. Os vírus são menores que muitos outros seres microscópicos e causam "estragos" enormes em seres que vemos a olho nu. E o nu é outra coisa perigosa.

Glauce Guima disse...

Rebs, como saber o tamanho das coisas?... Beijos, saudades, gg.

Denise disse...

Uma sede que nunca passa...

Lindo!

afagos meus

Denise

Anônimo disse...

Será que querer ser grandes só nos mostra que somos pequenos? Principalmente porque não conseguimos entender o que acontece. Ou achamos que entendemos perfeitamente o que acontece. Mil pensamentos passam por nossa cabeça, e eles fazem-nos tomar caminhos que nem sempre são na mesma direção, porque enquanto um tem coragem o outro tem medo. Enquanto um transgride o outro retrocede. Porque temos cabeças diferentes e não nos entendemos.

A menina do show da Rita Lee

Rebecca P. disse...

Júlia,obrigada! Tb fiquei sem palavras com seu elogio!

Dedé, vc é muito imenso em meu coração, sabia?!

Glauce, que bom te ver aqui de novo! Saudades também... Dia desses te incomodo aí no rio, tá?
Eu tb não sei dizer o tamanho das coisas... talvez a sua desmedida...

Denise, obrigada pelo elogio. E pelos afagos...

Menina do show da Rita Lee... é de caminhos malucos que se trata mesmo... rsrsrs! cada um indo em uma louca desarvorada direção... Gostei de te ver por aqui. Volte mais, sim?!
Beijo meu!

helena leão disse...

muito bonito!!!

GÖTZ jóias disse...

Minha amigona!!!
Vc me emociona!!
Lindo texto...
Beijos

Rebecca P. disse...

Helena e Cris, OBRIGADÌSSIMA!!!