14.2.09

Um nome para Deus [Parte I]

Foi quando ouviu o nome de Deus pela primeira vez.

Primeiro dia de aula, escola nova, uniforme novo. Outras coleguinhas. O coração batendo grande e urgente. No meio da primeira aula, ela apareceu. Era uma moça bonita, mas vestida de um jeito esquisito. E prometeu que depois do recreio as pequeninas novatas iriam se encontrar com Deus na capela principal. Deus?

A voz da moça era grave e firme. E parecia emocionada. Não podia ver seus cabelos, escondidos embaixo da touca, mas os lábios finos, suavemente expostos num sorriso, além daqueles olhos tão brilhantes, rapidamente a convenceram da importância do encontro. A simplicidade do nome a emocionava, e uma vaga lembrança de que já o havia escutado antes dava-lhe a certeza de que, finalmente, alguma coisa iria conhecer do mundo distante dos adultos.

O recreio foi longo pra tanta expectativa. Com o lanche esquecido no colo, a toda hora pensava naquele nome, e no que ele tinha de lindamente simples. Deus, deus, deus, deus. Estava eufórica, e nada lhe pareceu mais estranho do que o modo como todas as outras garotas se comportavam diante daquela notícia. Brincavam ou conversavam animadamente, e mal pareciam se lembrar do que estava prestes a acontecer. Vai ver já o conheciam, pensava, e isso a deixava um pouco triste. Talvez não soubesse se comportar direito em sua presença. Era sempre tão tímida. Tão arisca. Talvez ele, como o pai e a mãe, quisesse muito abraçá-la, e ela não deixaria, de pura falta de coragem. E ficaria depois tão frustrada, com o desejo do abraço pendendo frouxo das mãos. Mas talvez ele fosse mais fácil, como alguns adultos o eram, quando não se importavam tanto com abraços e beijos melados, deixando que ela ficasse ali, quietinha, só ouvindo, e pudesse aos poucos, nervosamente, chamar a coragem necessária para enfim se aproximar, tocando-lhes de leve o braço.

Deus, deus, deus, deus. Como seria ele? Seria bonito como o pai? Teria olhos azuis tão lindos como os da mãe? Seria gordo? Seria velho? Seria pequeno? Vai ver era um gigante, por isso a tal capela principal era tão alta. A mãe já tinha mostrado. Mas podia ser um menino gigante. Ou talvez fosse uma moça bonita como aquela da roupa estranha, só que ainda maior, mais alta. Talvez fosse uma princesa como as das histórias, por isso tanta importância. Talvez tivesse que fazer mesuras e se ajoelhar, como a mãe explicava que se devia fazer nos palácios. Tinha medo de perguntar. Como ninguém parecia ter dúvidas, era melhor não falar nada, imitar tudo o que elas fizessem.

E assim fez. Depois de um recreio interminável, a hora finalmente chegou. As garotas todas, muito espertas, correram logo para a fila, ao chamado da moça de vestido preto. Ela seguiu rapidamente uma das meninas, e imitou seu modo estranho de ficar, cabeça baixa, passos lentos. Que coisa mais esquisita. Deve ser para ver melhor depois, pensava, atônita.

Na imensa capela, cheia de luzes brilhantes, a fila de meninas foi devagarzinho se enviando nas fileiras de cadeiras, sempre em silêncio, com a cabeça baixa. Todas se ajoelharam logo, e puseram as mãos juntas uma da outra, fechando logo os olhos, com convicção.

Ela olhava tudo aquilo muito surpreendida, mas imitava com cuidado os gestos todos. Não fossem pegá-la no flagra, na dúvida do que fazer. Deus, deus, deus, deus. E agora?

Agora a moça falava: “vamos rezar!”

Rezar? Rezar? O que será isso? Desesperada, olhava para os dois lados, as duas meninas ajoelhadas, tal como ela, mas plenamente conscientes do que fazer. Murmuravam alguma coisa, inaudível, com os lábios quase fechados. Era um zumbido bem estranho, e não parecia dizer nada. Mas as mãos apertadinhas, os olhos tão concentradamente fechados, aquilo devia fazer parte da recepção. Estava sendo mais difícil do que pensava, mas tudo bem. Fechou os olhos bem fechados, e apertou as mãos com força uma contra a outra. Dedos entrelaçados. Murmurava barulhinhos estranhos e incoerentes, parecidos com os que faziam as outras meninas. E quase nem sentia a dor nos joelhos, tão concentrada estava na imitação. Shh... fiiii… ai oss que estshhh ssss... san... ch... shhh... oss... nomb... ass...te.... comb.... ce...

Que horas Deus iria aparecer? Como deveria se comportar? O zumbido geral era acolhedor, mas muito estranho. Levantava os olhos às vezes, e via que uma ou outra menina fazia o mesmo, para rapidamente voltar à posição inicial. Ela deve estar confusa também, pensava. Talvez seja de fora, como eu. Iria hoje mesmo perguntar à mãe o que era aquilo, não podia ficar tão abandonada assim. Talvez ela soubesse. Ou então o pai. Se não, teria que passar pela suprema vergonha de perguntar pra moça de preto quem afinal era Deus, e o que devia murmurar para que ele aparecesse. Pensando melhor, era melhor não. Ela parecia tão certa de que todos o conheciam. Não podia falar nada. Não podia.

Shh... fiiii… ai oss que estshhh ssss... san... ch... shhh... oss... nomb... ass...te.... comb.... ce... Shh... fiiii… ai oss que estshhh ssss... san... ch... shhh... oss... nomb... ass...te.... comb.... ce... Shh... fiiii… ai oss que estshhh ssss... san... ch... shhh... oss... nomb... ass...te.... comb.... ce...

Deus. Deus. Deus. Deus. Onde estaria? Já começava a ficar cansada. E nada de nada. Que coisa mais estranha. Shh... fiiii… ai oss que estshhh ssss... san... ch... shhh... oss... nomb... ass...te.... comb.... ce... Shh... fiiii que estshhh ssss... san... que estshhh ssss... san... ai ai ai. Deus. Deus!!!! Será que só eu não estou vendo? Talvez seja como no circo. Mamãe já me levou lá. Algumas coisas somem e outras aparecem. Vai ver só vê quem sabe rezar. O que será rezar? Preciso perguntar logo isso pra mamãe. Tenho que me lembrar disso hoje ainda. Deus só não aparece pra mim. Por quê? Tudo isso é muito chato, e bem esquisito. Porque estão todos de olhos fechados? Será que ele só aparece no escuro? Será que é só um som? Uma voz? Um sonho? O que será? O que será?

Finalmente, a moça de preto, que também estava ajoelhada, se levantou, fez muitos gestos estranhos, de costas para elas, mas de frente para umas estátuas e uma grande mesa que estavam no final do corredor de cadeiras, e fez sinal para que a seguissem. As meninas todas, mais do que depressa, correram para a fila e voltaram à posição inicial, concentrada e de olhos baixos. Ela fez o mesmo, ainda mais pasma do que antes, mas fingindo profundo conhecimento de causa.

De volta à sala de aula, a moça de touca fez um sinal para a professora, mas não disse mais nada. As alunas, todas elas, rapidamente, voltaram à animação de costume, como se nada tivesse acontecido.

Tomada de profunda vergonha, ela se sentou bem quieta, esperando os próximos passos. Procurava entre as cabeças agitadas aquela menina que parecia ter levantado os olhos fora de hora, tal como ela, mas não tinha mais certeza se poderia reconhecê-la. Estavam tão diferentes agora. Tudo estava tão diferente agora. Deus não aparecera pra ela, fosse quem fosse, fosse como fosse. E pelo modo como todos pareciam estar felizes, isso começou a lhe parecer muito grave. Talvez a mãe pudesse ajudá-la, ou o pai. Mas não tinha mais certeza. Não tinha certeza de quase nada.

Mas de uma coisa teve certeza. As coisas estavam mais complicadas agora.

9 comentários:

Andy disse...

Deus aparece de diversas formas aos seres terrenos. Em algumas situações eu posso até senti-lo. Eu outras situações eu acho que ele é apenas o ópio do povo. Mas eu continuo minhas rezas...com os ssshhh...e sansst...Amém. Ele existe sim! Sua forma e intenções é que me escapam o conhecimento. André...o americanófilo. (Até hoje não consegui me registrar no seu blog!)

helena leão disse...

Me sinto como a menina...perdida neste mundão de deus!!!

Fernanda Cozendey disse...

'Deus. Deus. Deus. Deus. Onde estaria?'

muitas pessoas ainda perguntam isso.

ps: e a maioria já não é mais criança.

um otimo post

Livia Queiroz disse...

Deus...
Kd Ele?

Em meio a tanta coisa no mundo, a gente sempre se pergunta: cadê Ele, e como a menina, muitas vezes fechamos os olhos e tentamos, mas...
Cadê???



Adorei o post...

Posso linkar??

Rebecca P. disse...

Andy, se ele existe ou não eu não sei, mas algo me diz que, apesar de inapreensível (pelos sentidos ou pela razão), ele é sensível, pode ser sentido... aguarde os próximos capítulos... rsrsrs!

Helena, totalmente idem!

Fernanda e Lívia, tal como a menina, eu tb não sei onde ele está, mas é muito fácil saber onde ele NÂO está... é o caso de muitas igrejas, inclusive...

Lívia, fique à vontade pra linkar. Sinto-me honrada!

bruno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
bruno disse...

Nossa, cara... lindão isso...
Nunca vi alguém falar de Deus assim.
Fiquei ansioso por mais assim que vi o "[Parte I]"

marina maria disse...

faz tempo que não deixo uma pegada por aqui... tenho andado meio distante da poesia das coisas e das pessoas... mas gostei muito do post!

Rebecca P. disse...

Bruno, muito obrigada!
Estou com a parte 2 quase pronta, mas andei muito sem tempo...
Daqui a uns dias eu posto!

E Marina, eu tb andei meio distante... muito trabalho... mas vou escrever mais, e espero que vc também venha mais!