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Sem máculas

Depois dos dias vencidos, a longa maratona de erros, calou-se, só e atenta, diante das grandes conquistas.

Se havia sido difícil, nunca soube, sempre preocupada com a conduta alheia, com a correção dos gestos, com a manutenção das fórmulas. A máquina funcionando. Azeitada, constante, ferrenha. Os cabelos negros aprumados, a saia ajustada e sem vincos, o rosto impassível, o olhar austero. As longas mãos, no colo profundo, pousadas como águias em repouso, depois do ataque urgente. Prestes a.

A vasta família, impecável. Os filhos todos prontos e sábios. As filhas todas casadas, com homens de bem e saudáveis, mantenedores úteis e ferozes, mas não muito inteligentes. Graças a Deus. A maioria dos netos ainda na delicadeza da infância, alguns já sendo apresentados às mordaças da espécie e alguns poucos já domesticados e circunspectos, esperando a boa hora do vôo em direção ao altar ou ao mercado, como bem conviesse.

A vasta família, impecável. Os olhos ávidos por dinheiro e espaço. Por uma posição no mundo terrível. A guerra constante. Interminável. As filhas negociando notícias de festas e batizados, casamentos, noivados importantes, recepções, vernissages. As prateleiras entulhadas de revistas, as tv´s sempre ligadas. Os filhos nas melhores escolas. As casas crescendo, as piscinas cada vez mais limpas e redondas, terraços múltiplos, imensas varandas de vidro. Os maridos voltando cada vez mais tarde, os negócios atingindo novos patamares, exigindo mãos mais firmes e duras. Implacáveis. Impecáveis. Gravatas de seda italiana, amantes caras, eleições ganhas.

Em 48 anos, nenhuma sujeira. Nada nos jornais, nem nas conversas de corredor. Nada de que pudesse se envergonhar. Nada que a fizesse mentir. Desde os 20 anos, quando se casara, construíra um império, vasto e perfeito. Tão sólido que se desdobrava em outros, cada vez mais límpidos, mais serenos, satisfeitos de si. Os cabelos negros, intocáveis, estavam agora muito grisalhos, mas isso era como uma coroação delicada, como uma digna recompensa pelos anos de entrega absoluta.

Depois dos dias vencidos: a vitória na mesa, impalpável. A toalha branca e brilhante. Os cabelos escovados e perfumados. Sem vincos na saia, os netos crescidos e multiplicados, os olhos, muito azuis, secos e duros por trás dos óculos sem aro. O vestido de seda arroxeado, os cristais dispostos na cristaleira. Tudo ao ponto e ao certo. Tudo.

Em volta, a grande casa crescia, cheia de retratos e lençóis de linho dobrados, entulhada de quadros e peças de arte sacra, comprados em viagens a mais de 17 países. Em torno, o jardim florescia, era uma primavera intensa e vigorosa, cheia de cheiros vaporosos e intumescentes. Era um jardim com muitas entradas, desenhado sob um pendor romântico, onde casais poderiam entreter-se eternamente, a contemplar o mundo sem sofrer muito. Lá fora, era a grande noite que crescia, uma noite de urgência, infantil e vaporosa. Uma noite noturna e grave. Como a noite dos mortos.

Depois dos dias completos, abarrotados de trabalho e quedas consoladas, de dias purificados com o ardor de celebrações pacíficas em torno de árvores pontudas e brilhantes, de dias adocicados com xaropes caseiros e perfumados de camomila e melissa, de dias celebrados em nome do pai, dos filhos e de todos os espíritos nem tão santos assim, depois, então, de todos esses milhares de dias esféricos e coloridos, o tempo finalmente parou.

Na mesa, a faca de prata e a taça de cristal. Embaixo dela, o linho egípcio que havia batizado todos os seus filhos e netos. Ao lado dela, um pequeno conjunto de cartões postais amarelados, amarrados por uma fita puída de cetim, que havia sido púrpura, um dia. À esquerda, uma grande vasilha de prata e um dos isqueiros da coleção do marido.

Então, com a mesma meticulosa e perfeita coreografia com que sabia reger seu mundo, foi queimando, um a um, aqueles cartões antigos. Palavras de amor e saudade foram estalando no ar, consumidas por um calor pungente e sólido. Ardor de mártir. Amor de mártir.

Os anos foram, aos poucos, sendo docemente apagados. As paisagens sucumbiam às chamas, e tombavam, derrotadas, no fundo grisalho da vasilha. Naquela cálida consumição dos pecados, estalavam, vez ou outra, os suspiros cansados e nervosos que ela não havia podido dar. A outra voz expressara, nos cartões, o que ela nunca pudera expressar, senão por meio de uma ainda mais profunda e forte dedicação à lavoura dos filhos, ao cultivo ardoroso e terrível de uma história inatacável, de uma memória sublime.

Finalmente, só restou um cartão sobre a toalha, e a pálida fita de cetim. O cartão, muito mais antigo do que todos os outros, trazia a paisagem da sua própria cidade, e uma caligrafia feminina que ainda tinha muito de infantil. Misturadas às manchas pardacentas e escuras, tão parecidas com as que agora povoavam sua pele, liam-se, já quase apagadas, duas frases apenas: “Eu a amo!” e “Você será minha, eu sei.” Não havia assinatura, mas havia uma data: primavera de 1959.

Então, depois de se certificar de que o último cartão estava devidamente decomposto, e de que toda a fumaça negra havia se esvaído pelas janelas abertas para a noite, ela tomou a taça em suas mãos, bebeu todo o líquido que ali estava e colocou a vasilha de prata, ainda com as cinzas, no chão, ao seu lado. No ritual grave e puro dos que nunca deixaram de amar. E logo, com a placidez dos convictos, cortou secamente, com a prata faminta, seu pulso esquerdo, previamente posicionado sobre a vasilha antiga.

Aos poucos, um sangue muito vermelho misturava-se à poeira grisalha, enquanto ela, com a mão direita no colo, segurava a tímida fita de cetim com violenta ternura. Quando sentiu que a consciência finalmente lhe abandonava, ainda teve vontade de dizer alguma coisa, mas os lábios já estavam muito rígidos, então desistiu.

Quando a encontraram, algumas horas depois, a grande vasilha de prata estava quase repleta, mas não havia uma única gota de sangue no chão.

Era uma vencedora. Morrera com 68 anos. E nenhuma sujeira.

No entanto, os olhos muito abertos, pareciam olhar em susto para alguma coisa sobre o colo. Na velha fita, que a mão direita prendia, havia um tênue e muito delicado bordado, cuja inscrição não deixava dúvidas: Ester & Rachel: para toda a vida.

Mas a fita era velha. Como ela o era. E ninguém reparou em nada. Loucos que estavam para dividir os lucros. E as fazendas.

Comentários

sdreF disse…
Bom, vou fazer 2 comentários.. Primeiro a resposta ao seu no meu blog... Bom, balada pra mim é mesmo só rir, dançar e essas coisas... Eu nunca procurei ninguém em balada (até pq eu sou chata demais pra beijar, ou seja, eu nunca beijo em balada pq eu não beijo qualquer uma) e tb nunca achei. Todas as pessoas que entraram na minha vida entraram de outra forma, amigos em comum, internet mesmo, shows (da Zélia pq eu sou fã) e afins. E eu vivo bem sem baladas... Vivi quase 3 anos mto bem sem elas. rs! Mas tem hs que faz bem. Sair pra dançar e encontrar os amigos pra rirmos e nos divertirmos...
E eu tb não estou exatamente procurando alguém, entende? Gosto das coisas que acontecem naturalmente... Eu sou muito tranquila pra essas coisas. rs!
Bom, agora vou deixar outro comentário, só que sobre o que vc escreveu. rsss
Bjssss
sdreF disse…
Adorei!!!














Lindo!! Até a última frase foi perfeito!!! Ai, de verdade... ADOREI!!! MUITO MUITO MUITO ÓTIMO (pq bom é pouco. rsss)
Eu nem esperava o final... E eu adoro as coisas que me surpreendem...
Bjssss
O Amor disse…
Texto maravilhoso. Lirismo e riqueza de detalhes (em narrativa impecável), permitindo a completa formação da imagem do texto. Adorei. Grande abraço!

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