25.4.08

A menina e o cego que não mascava chicletes

Pessoas passavam por mim com suas bundas bolsas bocas encomendas pastéis embrulhos artífícios nuances.
A cidade passava por mim com suas bancas bolhas bancos bicicletas árvores borboletas linhas de tráfego sinais de trânsito placas de pare e pense e conversas pela metade.
Tudo era igualmente diferente na mesma rua (quase) mesma hora mesmo trânsito mesmos ônibus de idênticas cores e números e trajetórias.
Pombos passavam por mim e árvores e pedaços de sombrinhas e malas e até carrinhos de bebês e canteiros.
Tudo ia e voltava e vingava e sofria e partia e repetia e rebolava e suspirava e voava e se voltava para si mesmo como se nada fizesse sentido.
Ou era eu que estava triste pra caralho?
E o cego com sua bengala também ia passando passando passando, se não tivesse, de leve, trombado, e hesitado um pouco, na caixa de correios que amarelava a calçada.
E o cego, com sua bengala, também ia sendo rapidamente esquecido, se não tivesse, de leve, levantado seus olhos para o céu.
E os olhos do cego, com seu globo sulfurado e pastoso, tão impossivelmente pálido e suave, tão povoado de nuances vítreas e longas, violentamente dóceis em sua espessura algodoada e levemente azulada de nuvem, tão espantosamente dizendo de um assombroso espetáculo mudo que ninguém via, e esses olhos então, cuja cor nunca foi vista em algo que não fosse vidro, porque é a sombra móvel do que não está lá mas existe, esses olhos então me ofuscaram de um modo tão insuportavelmente belo
que eu parei imediatamente de chorar,
e me pus a caminho.

18.4.08

Coisas lindas...


Adoro coisas lindas. Adoro tanto que vivo cercada de.
De coisas lindas. De objetos, às vezes. De pessoas. De livros delicados. E músicas de arrepiar. E filmes doídos de morrer. Pedaços de paisagem que eu guardo coleciono monto, fazendo um novo país. Rabiscos também como poesia. Versos cheio de paixão toda prosa. Um céu de outono. Uma prece. Um violão tocando Vinícius ou Ataulfo. Cartola. Um trocado que vira um café. Um beijo, um sorriso, um princípio de festa. Amigos. Vivo cercada de.
E como eles são lindos, os meus amigos. Pele, vozes, bocas, roupas, olhos, permanências. Gente fazendo brisa fresca, fazendo evoluções na beira do mar. Gente fazendo do meu mundo um campo infestado de maravilhas.
E de coisas lindas.
Ah! Como as coisas lindas nos salvam da selvageria do mundo!
Não pra sempre, mas às vezes. Na sua brevidade esvoaçante e pueril. Tal qual as borboletas. Coisa mais linda não há.
Gosto de objetos inúteis. De objetos antigos. De formas ovais e opulentas. De fios dobrados. De cones. Gosto de pedaços de madeira pintados. Gosto de cartões publicitários coloridos. Gosto de roupas coloridas. E antigas. Gosto de brechós e de topa-tudos. Gosto de lojas de quinquilharias variadas, cheias de brilhos multiformes e objetos desengonçados de feios. Tão feios que são lindos.
Gosto de suspiros pequeninos, feitos de saudade e fuga. Gosto de pastéis de maçã. Gosto de biscoitos com leite. E de queijos de todos os amarelos e brancos. E até verdes. Gosto de goiabada com eles. Seu vermelho perigoso e urgente.
Gosto de azulejos brilhantes. Gosto de metais ferrosos. De açúcar e sal em montinhos infinitamente brancos. De mergulhar as mãos no cantante polvilho. De ficar apertando a pretura macia do pó de café, e depois sacudir tudo de novo.
Gosto de embalagens bonitas, cuidadosamente desenhadas para a sedução do outro. Comprar é o de menos. Bom mesmo é olhar e querer. Gosto de vidros. Todos os tipos de vidros. Gosto da sua trasparência, cor, cheiro. E dos seus formatos serpenteantemente aguçados. Ou oblongos.
Gosto de olhos que brilham, de rosto lavado, de rugas. Gosto de mulheres grisalhas, de café com creme, de pêssego em calda... e de quase tudo que tem aquele tipo de amarelo, inclusive roupas.
Amo coletes, calças risca de giz, listras de todos os tipos. E suspensórios. Tenho volúpias secretas quando vejo alguém de xadrez. Ou com galochas de chuva. E homens de bengala.
Sou obcecada por ilustrações e adoro quadrinhos. Adoro o humor refinado e sapeca de alguns amigos. E a tristeza polida de outros. Adoro a forma como cada um deles me chama, como cada um deles me comove e suspende.
Adoro brincar de fechar os olhos e viajar por países de seda, onde cada um escolhe a cor que tem e as opções não são apenas três, mas trezentas vezes três mil. Homens violeta e mulheres cor de chumbo e ouro andam em ruas de vidro, atravessadas por plantas selvagens de todos os sabores e vertigens.
Adoro brincar de lembrar que, quando eu tinha 1 ano, e nem sabia falar direito, eu pedia do berço que meu pai trouxesse pra mim coisas lindas e brilhantes - repetidas vezes.
Adoro brincar de pintar lugares com outros matizes e de cobrir paredes com materiais diversos e imaginários. Como botões de roupa, palitos de fósforo, caixinhas de tic tac, pedras tumulares, escopos de tília e papiros de Tlön e Ukbar. Adoro descobrir desenhos em rachaduras de parede e na poeira sólida dos granitos, dos mármores, dos muros de arrimo. Adoro nuvens.
Definitivamente, adoro nuvens!
Adoro parar no meio do livro da página do verso da cena do filme de tão bonito que está aquilo tudo e ficar brincando de fingir que ainda não vi ou li ou ouvi ou entendi a frase o verso o texto o sorriso o susto e poder ver e ler e ouvir de novo como se fosse a primeira vez tudo aquilo e tendo o quase mesmo espantoso espasmo de beleza e desobrigado prazer que logo ainda agora senti enquanto lia ouvia assistia olhava no meio da rua do cinema do trânsito do passo aquela cena palavra idéia forma. Adoro textos sem pontuação que desencanam de serem sérios e viram brincadeira de criança.
Crianças são a beleza em forma de assombro. Quase tudo nelas é bonito.
Minha vontade recolhida é ter um sofá listrado e uma varanda com muitas redes, uma para cada tipo de preguiça.
E de silêncio.
Mas não tenho vergonha de fazer barulho, porque os barulhos também são bonitos e dizem muito de alguém que tem medo, como eu. Como muitos de nós.
Tudo o que é bonito eu sei que o é só pra mim, ou principalmente pra mim, e eu nem ligo se ninguém acha bonito o que pra mim é pura beleza... porque achar algo bonito é uma forma de contato entre nós e a coisa-objeto-pessoa-cidade, não é da conta de ninguém.
Beleza é algo que se dedica, que se entrega, que se desdobra. Beleza é desdobramento de amor, de fé, de silêncio.
Beleza é da ordem do presente. Alguns entendem isso.
Achar bonito é um modo de amar. E de fazer viver.

12.4.08

Reflexões de ponta cabeça conferem a uma lista com onze itens um valor de inutilidade soberba.

  1. Filmes antigos fazem muito bem para a saúde.
  2. Esvoaçante é um ótimo adjetivo.
  3. A lua só me diz coisas quando estou escura.
  4. O silêncio é povoado de esperas.
  5. Poemas me deixam alucinada e virgem.
  6. Praias são nuas de princípios.
  7. O azul é uma cor que voa.
  8. Listas são objetos cantantes.
  9. A febre é um delírio do corpo.
  10. Bem aventurados são aqueles que nunca, mas nunca mesmo, se sentiram inúteis.
  11. Um sorvete mais um sorvete nem sempre é igual a um sundae.

9.4.08

Outros números e alguma biografia.

Quando eu tinha 12 anos, eu gostava de brincar de "futuro", e ficava me perguntando como seria quando eu tivesse 34... e 56... e 78... e 910 anos... luuuuuuzzzzzzzzzz!
Sim, a megalomania sempre foi meu forte.
As coisas mudaram muito desde então, mas a sombra de alguém que fui ainda anda muito por aqui - às vezes, me deixando mais leve; às vezes, me desobrigando de mentir.
Quando eu tinha 12 anos, eu ainda não tinha lido nenhum livro "grande" da Clarice Lispector. Só alguns contos. Meu pai achava melhor eu esperar um pouco, porque ela era muito "hermética" e eu não ia entender nada. Mal sabia eu que, aos 34 anos, iria defender uma tese toda minha, mobilizada por esse dito cujo hermetismo, e pela exaltada alegria difícil que aqueles contos já me apresentavam.
Quando eu tinha 12 anos, eu ainda não tinha perdido minha mãe, e ainda achava que ela era eterna. Com 12 anos, eu planejava ser médica, e escrever muitos livros também. Como Pedro Nava. Como Guimarães Rosa.
Mentira. Com 12 anos eu não conhecia nem o Pedro nem o João. Mas conhecia o Carlos. E o Vinícius. E a Cecília.
Com 34 anos, não sei se acredito mais na eternidade, mas ganhei muitos outros novos ídolos, e muitas outras novas ilusões - que em nada perdem, seja em fervor, seja em amorosidade, para a idéia de que minha mãe ia viver pra sempre.
Com 12 anos, eu adorava o Ney Matogrosso. Isso em nada mudou.
Com 12 anos, eu morava em Montes Claros. Aos 34, moro em Belo Horizonte, e seu delicioso clima e generosa paisagem me conquistam todos os dias. Com 56, espero ter pelo menos 56 carimbinhos no meu passaporte. NY, Rio, Tóquio e algum outro continente à minha escolha. Com 78, quero ter ido à lua pelo menos uma vez.
Com 12 anos, só bebia coca-cola nos finais de semana. Aos 34, vou ter que me abster... de continuar com esse assunto.
Aos 12 anos, me apaixonei pela primeira vez. Não preciso nem dizer que ela era a minha professora de literatura.
Aos 12 anos, cultivei duas roseiras e um pé de milho. Os três morreram. Com 34, tenho muitas plantas, todas vivas, e a convicção de que vou plantar muitas árvores até os 78. E escrever muitos livros.
Com 12, nem pensava em ter filhos. Com 34, ainda não sei se quero transmitir a alguém o legado da nossa miséria. De qualquer modo, me resta já pouco tempo pra pensar. E muitos projetos pra fazer viver...
Com 12 anos, o tempo me sobrava. Hoje, sobram idéias. O que será que vai sobrar aos 56? E com 78? Alguma melancolia talvez, alguns amores perdidos, alguns desejos frustrados. Mas também não faltarão amigos, por certo. Nem novas ilusões, pra compensar as faltas sem remédio e as quimeras esquecidas. A contabilidade será tão positiva quanto a de hoje, ou pelo menos equânime, isso desejo. Que os Deuses todos me ouçam, que hoje os tenho mais do que aos 12 (deuses e desejos)!
Aos 12 anos, atravessei o deserto. Aos 34, cumpri meus ritos de passagem. Com 56, espero encontrar novas fórmulas para velhas promessas, a fim de manter minha vontade acesa e minha vibração expectante. Com 78, talvez eu não escute mais nada, e terei que conviver todos os dias com o silêncio que hoje me escapa nas noites de sábado.
Com 910, conhecerei finalmente o tamanho do planeta. E ele estará pulsante e vivo sob meus pés.

4.4.08

Números nem tão imaginários...

Eu tenho 141 cm. Conquistados com esforço, sim senhor. Para alguns, não é exatamente fácil crescer.
Já fiz 2 cirurgias, 4.327 miojos, 3 lasanhas, 567 pizzas, 2 monografias, 1 dissertação, 1 tese, 84 sessões de psicoterapia e muita pirraça.
Tenho 731 livros, 1 prótese cardíaca, 3 projetos novos, 7 primos e 21 plantinhas de estimação.
Já morei em 6 casas diferentes fora de bh e em 9 casas dentro.
Já matei 425 baratas, 1.329 formigas (quase sempre sem querer) e 1 aranha (afogada).
Perdi 2 boas chances de ter começado a ser eu mesma bem mais cedo. Perdi as estribeiras umas 3 vezes. A compostura, 211.
Fui "diretora" de 3 peças de teatro, entre os 10 e os 15 anos. Atuei como "noiva" em 4 festas juninas e como "menina que morre na hora da bomba" em 1 peça de teatro do colégio.
Já tive 14.322 idéias. A maioria não teve utilidade alguma.
Perdi a hora 13 vezes. E sem desculpa.
Ganhei 135.368 beijos, 6 fios de cabelos brancos e 4 quilos "extras" ao longo de 34 anos. E nenhuma rifa.
Descobri que não existem 1.000 maneiras de preparar Neston. Só 22.
Inventei que, a essa altura do campeonato, já podia ter um filho de 19 anos, 2 academias de ginástica e 1 ex-marido. Ou 1 carreira na Broadway, 3 filhos jamaicanos adotados e 2 abortos. Ou 1 carro esporte e 1 casa na praia. Ou 4 livros de poemas pagos pelo marido rico. Ou 9 cistos nos ovários. Ou 2 namoradas. Ou 1.436 partos no currículo. Ou 3 passagens pela polícia por desvio da opinião pública.
E percebi que o melhor número não é o que desafia a imaginação. É o que demite o juízo.
Inspiração para esse post: Números contam histórias...