Sentada à beira do sol, como a beira de um riacho, a menina mergulha as pernas na poça escaldante de luz. O resto do corpo esfria na sombra, refrescado em repouso de paz. Do lado de fora, a cidade passa por ela, em lenta progressão anti-cinematográfica. Paquidérmica e grave, escorre em sua modorra de verão. Do lado de dentro, a casa descansa refrigerada. Telhas de barro e louça enxuta. Quem vê, pensa que está tudo parado. Mas não está. Na porta, o polígono luminoso avança pelas pernas da menina, subindo aos poucos em seu erotismo delicado. Os pés já fervem sobre o cimento, joelhos e coxas vão mergulhando devagar na piscina de calor. A essa implacável arremetida da natureza, ela se expande. Cada vez mais lânguida. O corpo amolecido de amor. A febre cada vez mais urgente, ávida, úmida. Entregue. Por fim, já quase exangue, a pele iluminada tem sede - e insiste em fazer sofrer a menina. O suor aumenta seu trabalho, refresca os dedos, o pescoço, a fronte. Os olhos. É tarde, é tarde, ...