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Outros números e alguma biografia.

Quando eu tinha 12 anos, eu gostava de brincar de "futuro", e ficava me perguntando como seria quando eu tivesse 34... e 56... e 78... e 910 anos... luuuuuuzzzzzzzzzz!
Sim, a megalomania sempre foi meu forte.
As coisas mudaram muito desde então, mas a sombra de alguém que fui ainda anda muito por aqui - às vezes, me deixando mais leve; às vezes, me desobrigando de mentir.
Quando eu tinha 12 anos, eu ainda não tinha lido nenhum livro "grande" da Clarice Lispector. Só alguns contos. Meu pai achava melhor eu esperar um pouco, porque ela era muito "hermética" e eu não ia entender nada. Mal sabia eu que, aos 34 anos, iria defender uma tese toda minha, mobilizada por esse dito cujo hermetismo, e pela exaltada alegria difícil que aqueles contos já me apresentavam.
Quando eu tinha 12 anos, eu ainda não tinha perdido minha mãe, e ainda achava que ela era eterna. Com 12 anos, eu planejava ser médica, e escrever muitos livros também. Como Pedro Nava. Como Guimarães Rosa.
Mentira. Com 12 anos eu não conhecia nem o Pedro nem o João. Mas conhecia o Carlos. E o Vinícius. E a Cecília.
Com 34 anos, não sei se acredito mais na eternidade, mas ganhei muitos outros novos ídolos, e muitas outras novas ilusões - que em nada perdem, seja em fervor, seja em amorosidade, para a idéia de que minha mãe ia viver pra sempre.
Com 12 anos, eu adorava o Ney Matogrosso. Isso em nada mudou.
Com 12 anos, eu morava em Montes Claros. Aos 34, moro em Belo Horizonte, e seu delicioso clima e generosa paisagem me conquistam todos os dias. Com 56, espero ter pelo menos 56 carimbinhos no meu passaporte. NY, Rio, Tóquio e algum outro continente à minha escolha. Com 78, quero ter ido à lua pelo menos uma vez.
Com 12 anos, só bebia coca-cola nos finais de semana. Aos 34, vou ter que me abster... de continuar com esse assunto.
Aos 12 anos, me apaixonei pela primeira vez. Não preciso nem dizer que ela era a minha professora de literatura.
Aos 12 anos, cultivei duas roseiras e um pé de milho. Os três morreram. Com 34, tenho muitas plantas, todas vivas, e a convicção de que vou plantar muitas árvores até os 78. E escrever muitos livros.
Com 12, nem pensava em ter filhos. Com 34, ainda não sei se quero transmitir a alguém o legado da nossa miséria. De qualquer modo, me resta já pouco tempo pra pensar. E muitos projetos pra fazer viver...
Com 12 anos, o tempo me sobrava. Hoje, sobram idéias. O que será que vai sobrar aos 56? E com 78? Alguma melancolia talvez, alguns amores perdidos, alguns desejos frustrados. Mas também não faltarão amigos, por certo. Nem novas ilusões, pra compensar as faltas sem remédio e as quimeras esquecidas. A contabilidade será tão positiva quanto a de hoje, ou pelo menos equânime, isso desejo. Que os Deuses todos me ouçam, que hoje os tenho mais do que aos 12 (deuses e desejos)!
Aos 12 anos, atravessei o deserto. Aos 34, cumpri meus ritos de passagem. Com 56, espero encontrar novas fórmulas para velhas promessas, a fim de manter minha vontade acesa e minha vibração expectante. Com 78, talvez eu não escute mais nada, e terei que conviver todos os dias com o silêncio que hoje me escapa nas noites de sábado.
Com 910, conhecerei finalmente o tamanho do planeta. E ele estará pulsante e vivo sob meus pés.

Comentários

Aviva disse…
Rebs, é lindo:
"mas a sombra de alguém que fui ainda anda muito por aqui - às vezes, me deixando mais leve; às vezes, me desobrigando de mentir."

A sombra está em todo o texto.

Bjo grande
Rebs,

simplesmente maravilhoso. Fico emocionado. Amo quase tudo que você escreve. O que não amo, gosto muito. Mas, sem sombra de dúvidas, não há nada ruim, nem mais ou menos. "Umas e outras" é tudo de bom.

Beijos, alegrias e poesias,

Daniel Rubens Prado.
Anônimo disse…
adoro megalômana!
Anônimo disse…
Rebequita,
cada vez que eu leio os seus textos eu me emociono de uma maneira diferente, mas sempre com entusiasmo. Sempre quis conhecer mais da Clarice, mas tinha minhas reservas, pois justo agora que eu acabo de ler um livro dela você a cita neste texto. Fiquei hipnotizada com esta Lispector e sempre fico com seus textos.
Beijos,
Dani Gusmão.
marcela dantés disse…
que lindo.
que linda.
ainda bem que com 22 eu conheço você.
Rebecca M. disse…
Obrigada, Glauce! Acabamos não nos encontrando, né?! Pena...

Daniel, fico mais do que feliz com os elogios... ainda mais pq vc é esse poeta tão sensível... Fico honrada!

Dani, tem festa na casa da aninha no domingo, daí vamos colocar o assunto em dia!!! Saudades... Adoro quando vc passa por aqui! Me conta, qual foi o livro da Clarice que vc leu? Fiquei curiosa...

E Marcela, não preciso nem dizer que eu é que fico toda contente de ter conhecido você!

Obrigada pelo carinho, queridos! Meus amigos e leitores são mesmo os mais lindos do universo (megalomaníaca de novo...rsrsrs)!!!
Minha primeira vez aqui. Vim pelo blog da Cris Guerra.
Que delícia de imaginação.
Que delícia de texto. Parabéns!
Rebecca M. disse…
Obrigada, Balzaquiana!

Venha sempre, viu?!

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