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A menina e o mar

Para meu pai, em seus 71 anos. Como nasci e vivi em Recife até os 4 anos, o mar não era exatamente uma novidade pra mim. Todos os dias, alguém (pai, mãe, babá) me levava bem cedo pra dar uma passeadinha pela praia, seja pra brincar entre as poças d´água que se formavam com a maré baixa, seja pra rodopiar por ali por lá por tudo, tarefa infantil das mais importantes e produtivas, como se sabe. Tudo aquilo era muito bem aprendido com a febre dos meus dois, três anos; um tudo que me faria-faz falta nessa minha vida de montanhas mineiras: areia cantante, ar aberto, barulho de onda e guarda-sol. Como os três anos não são exatamente altos, e como, na maré baixa, os arrecifes de Recife cuidam de proteger a boa viagem dos que por ali andam, eu só sabia do mar como uma espécie de lago dourado e verde, do seu limite de pedras, esponjosas pedras brilhantes de água e sal e luz. Nos finais de semana, a praia demorava mais, com direito a ter meu pai mais tempo por perto, fazendo o nada que os adulto...

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"Por esses longes todos eu passei, com pessoa minha no meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de idéia e saudade de coração... Ah." Guimarães Rosa (GSV)

Sim.

Sim, meu amor, eu estou aqui. Eu estarei sempre aqui. Pro que der e vier. Na saúde e na doença. E em seus intervalos. Na alegria e na tristeza. E quando vierem os amigos. No tédio e no abandono. E quando tudo for insuportável. Na miséria e no repouso. E no meio da rua. Na esquina e no silêncio. E no domingo à tarde. Na hora do almoço. Na hora do banho. Na virada do tempo. No resfriado. Na ressaca e na bebedeira. Na saideira. Nas estréias de cinema. Nas estradas empoeiradas de minas. Nos aeroportos que ainda conheceremos. Na nossa primeira viagem de avião. E de navio. No futuro. No tempo desobrigado do futuro, onde podemos sonhar sem ser vistas. No fio do tempo. No espelho de água. No grito de socorro. Nos nossos sobrinhos. No espanto. Na dor de te perder. E de tentar te reconquistar. Na chuva e no sol e nos labirintos da mente. No outono e nos dias frios de inverno. Em silêncio, te vendo crescer, como uma nuvem que expande seus calafrios pelo céu de outubro. Como uma música leve, que f...

Longe, muito longe...

Corinne Homenagem a Edward Hopper Clark et Pougnaud O que era casa, transforma-se rapidamente em distância. O mundo perde as beiradas. É inverno de novo. E de novo, no caminho, há portas demais. E janelas desencontradas. E alçapões, e escadas, e porões, e trincheiras. Ando cada vez mais sozinha, o riso quebradiço, partido no meio. A espera em forma de espanto, o corpo denso, contando as horas para dormir, afundar em sonhos, em sono, em disforme semeadura, em planta aquosa e verde. Foi preciso voltar sobre os passos. Reencontrar as ruas perdidas. O gelo. A fome. O tempo anda pedregoso. Sólido. Difícil de engolir. Nada mais é o mesmo. E no entanto, eu conheço todas essas praças. Frias paragens. Neblinas. Dizem que, de tempos em tempos, a dor volta, toda inteira. A minha é a mesma e é outra. Toda uma história que finda, que afunda, que afasta. Vai passar, eu sei. Quisera não ter essa sabedoria, não ter sofrido nunca, não ter perdido. E quisera, ainda com mais força, não ter tudo isso de ...

Pas-de-Deux

- Sempre quis escrever um diálogo... - E por que não escreve? - Só consigo conversar comigo mesmo. - E daí?! Escreve isso, então. - Conversar consigo mesmo não é diálogo. - É sim. - Não acho, não. Num diálogo, é bom que se vejam as diferenças entre as pessoas. Os modos de impasse. - Pois é, mas você mesmo não é assim tão coeso que não haja partes de você que não possam brigar umas com as outras. - Não é brigar. - Tá, dialogar. - Mas eu ainda não entendi como eu poderia fazer isso... - Ok, tipo assim, uma parte de você ama, a outra não sabe se é aquilo mesmo, uma parte ode... - Isso é muito manjado. - E qual é o problema? - Eu queria fazer um diálogo mais criativo, sabe? Uma conversa que ninguém teve com ninguém. Uma conversa entre dois seres que jamais poderiam se comunicar. - E você acha que isso não existe em você? - Dois seres que não se comunicam? - É. - Não sei, eu teria que pensar mais a respeito. -Viu?!!! - Vi o quê? - Isso que você falou! - O quê? - Ué, se você vai pensar mais ...

A menina e o cego que não mascava chicletes

Pessoas passavam por mim com suas bundas bolsas bocas encomendas pastéis embrulhos artífícios nuances. A cidade passava por mim com suas bancas bolhas bancos bicicletas árvores borboletas linhas de tráfego sinais de trânsito placas de pare e pense e conversas pela metade. Tudo era igualmente diferente na mesma rua (quase) mesma hora mesmo trânsito mesmos ônibus de idênticas cores e números e trajetórias. Pombos passavam por mim e árvores e pedaços de sombrinhas e malas e até carrinhos de bebês e canteiros. Tudo ia e voltava e vingava e sofria e partia e repetia e rebolava e suspirava e voava e se voltava para si mesmo como se nada fizesse sentido. Ou era eu que estava triste pra caralho? E o cego com sua bengala também ia passando passando passando, se não tivesse, de leve, trombado, e hesitado um pouco, na caixa de correios que amarelava a calçada. E o cego, com sua bengala, também ia sendo rapidamente esquecido, se não tivesse, de leve, levantado seus olhos para o céu. E os o...

Coisas lindas...

Adoro coisas lindas. Adoro tanto que vivo cercada de. De coisas lindas. De objetos, às vezes. De pessoas. De livros delicados. E músicas de arrepiar. E filmes doídos de morrer. Pedaços de paisagem que eu guardo coleciono monto, fazendo um novo país. Rabiscos também como poesia. Versos cheio de paixão toda prosa. Um céu de outono. Uma prece. Um violão tocando Vinícius ou Ataulfo. Cartola. Um trocado que vira um café. Um beijo, um sorriso, um princípio de festa. Amigos. Vivo cercada de. E como eles são lindos, os meus amigos. Pele, vozes, bocas, roupas, olhos, permanências. Gente fazendo brisa fresca, fazendo evoluções na beira do mar. Gente fazendo do meu mundo um campo infestado de maravilhas. E de coisas lindas. Ah! Como as coisas lindas nos salvam da selvageria do mundo! Não pra sempre, mas às vezes. Na sua brevidade esvoaçante e pueril. Tal qual as borboletas. Coisa mais linda não há. Gosto de objetos inúteis. De objetos antigos. De formas ovais e opulentas. De fios dobrados. De con...