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Respondo sempre igual...

É difícil dizer como começam as coisas que nunca começaram, que sempre estiveram lá. Ou aqui, por exemplo. Como aquele modo seu de dizer que gosta de mim, como as roupas secando no varal, como os lugares de cada coisa nas estantes, nas gavetas, nos armários. Há coisas que parecem tão eternas no fim de uma noite de verão quanto um lapso entre um espanto e outro, entre um grito e um plano de viagem. No verão, tudo parece mais estático, até eu mesma, que prossigo entre os cômodos me fingindo de suave, de esplêndida, cantando baixinho ou repetindo que estou viva. Apesar do calor, e das ondas de tédio e asfalto que vêm de fora, estou viva, por enquanto.

É difícil dizer como começou isso, ficar viva. Sentir-se dentro e fora das coisas. Sentir-se apenas. Como as colheres no escorredor, como as paredes que escurecem aos poucos, como os livros cruamente organizados e sólidos. É difícil dizer do tempo em um dia tão quente e áspero. É difícil porque sufoca sem sofrimento. É como esperar, apenas. Que tudo isso passe e seja vulgarmente amanhã.

É difícil entender que logo será amanhã, quando hoje é tão hoje que cansa. No fundo, fingimos que acreditamos no mundo, para que ele possa de fato existir. Inteiramente normal. E por isso mesmo um pouco enviesado, um pouco ao meio. Como quem sabe que falseia, que finge de morto ou cai sentado, como quem salta pela janela gritando, porque cansou de tudo e a noite é quente. Tudo é muito etecétera.

Mesmo assim, vamos à feira amanhã, lançamos livros, escrevemos cartas, compramos passagens, digerimos a carne e esquecemos o sangue. Porque é natal, esquecemos principalmente o sangue.

E fica mais fácil achar tudo difícil. Ou tremendamente normal.


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