Pular para o conteúdo principal

Sobre mulheres, homens e pessoas.

Uma mulher não nasce mulher. Torna-se. Isso disse Simone de Beauvoir. Isso vale também para os homens. Isso vale para as pessoas. Uma pessoa não nasce pessoa. Torna-se. Isso sabia Clarice Lispector, que dizia que “o máximo que se pode dizer de alguém” é que esse alguém é uma pessoa. Isso sabia Guimarães Rosa, que dizia que “as pessoas não estão nunca iguais, afinam e desafinam”.
Uma mulher torna-se uma mulher e uma pessoa quando descobre sua própria desmedida. Maior que muitas. Menor que outras. Um homem também. Um homem torna-se homem e pessoa quando aprende seu próprio tamanho. Maior que alguns. Menor que outros. Uma mulher também.
Um homem torna-se homem e pessoa quando aprende que erra. E que o erro é uma forma de encontrar. Uma mulher também. Uma mulher torna-se uma mulher e uma pessoa quando aprende a ter um rosto e uma fome. E que esse rosto e essa fome nem sempre podem ser mostrados ou compreendidos. Um homem também.
Uma mulher torna-se uma pessoa quando precisa partir para além de si mesma, e encontra no mundo silêncios que não consegue romper. Uma mulher torna-se uma pessoa quando divide o que lhe foi negado e transforma o que lhe foi imposto por valores itinerantes e dívidas persistentes. Uma mulher torna-se uma pessoa quando percebe que fez mais do que conseguiria, e que esse mais nunca será suficiente. Um homem também.
Um homem torna-se uma pessoa quando se olha no espelho e se vê de repente nu e sem idade, pronto para atravessar a rua e não se lembrar mais do próprio nome, das prisões que o sustentam, dos palcos que o transportam. Um homem torna-se uma pessoa quando beija seu filho antes de dormir, pensando que o amou mais do que gostaria, e que precisa enfrentar sozinho o que chamamos de mudança, antes que seja tarde. Uma mulher também.
Homens e mulheres tornam-se pessoas quando aprendem a pertencer. Quando aprendem a pedir ajuda. Quando aprendem que quase tudo o que não admitem ter ou ser eles invariavelmente têm ou são. Quando aprendem a recusar rótulos e a procurar alternativas. Quando aprendem a abdicar. A negociar. E a dizer não.
Homens e mulheres tornam-se pessoas quando aprendem que sua violência existe e é real. E que é preciso aceitá-la para conseguir não exercê-la. Homens e mulheres tornam-se pessoas quando aprendem que sua candura existe e é real. E que é preciso aceitá-la para conseguir exercê-la.
Homens e mulheres tornam-se pessoas quando aprendem a se transformar. A desejar o encontro. E a dizer sim.
Update: Esqueci de dizer que esse texto foi uma espécie de contribuição ao anúncio 2.0 proposto pelo blog da Lápis Raro, em que participo como "comentadora assídua".

Comentários

marcela dantés disse…
assídua e querida, diga-se de passagem.
e mais que bem vinda, sempre.
Juliana Sampaio disse…
Bela colaboração, amiga!

Ó, devolvi seu livro pra Lu ontem, viu? Superobrigada, adorei! Pra retribuir, indico outra autora (também francesa e contemporânea - elas são danadas!)que a Elisa descobriu e me emprestou: Muriel Barbery. O livro se chama "A elegância do ouriço" e é de chapar. Beijo!
Rafaela Abreu disse…
E eu me tornei mais eu qdo li seu post. Gostei muito do blog.


Abraço!
Anônimo disse…
Rebecca, tem convocação pra você hoje lá no blog da Lápis... ;-)
Beijo!
Rebecca M. disse…
Gente, que delícia vê-las por aqui!

Estou toda feliz!

E Menina da Lua, seu comentário me comoveu... E ele veio em tão boa hora, vc nem imagina. Tb estou mais eu agora.

Ju, acabei de ver a convocação. E já estou indo, tá?! E levando mais um "Nothomb" pra vc.

Bjos!
raquel medeiros disse…
Cheguei atrasada mas feliz (por ter chegado aqui).

Passei quase a tarde inteira (o que pude) de trabalho conhecendo suas palavras. Ainda não li tudo (porque fiquei com dó de não deixar nada para amanhã). Mas já me identifiquei demais com algumas coisas tuas.

Sou viciada em listas e adorei as suas!! A paixão por João e pela Clarice (me perdoe a falta de sobrenomes, é que eles me são tão familiares). E as reticências (que às vezes me soam como as três marias, a santíssima trindade ou mesmo a mágica que se esconde no que a gente diz (nas entrelinhas) mas não fala).

O que quero dizer mesmo é que vou voltar (sempre) e você está na lista das pessoas que fazem deste mundo dos blogs um espaço para um pouco de poesia (não só aquela que rima, mas aquela que faz a gente andar na rua com um sorriso no rosto e uma sensação boa no peito, sem saber porquê). Se bem que no fundo a gente sempre sabe. ;)

beijo!
Anônimo disse…
Ei! Levei maior susto quando te vi no vídeo da Lapis Raro! Vc tah linda e o vídeo é lindo. Parabens!
Ciro Guedes disse…
Oi Rebeca,
qual foi minha surpresa ao te ver no vt da Lápis e também como "colaboradora assídua" do blog. Assim que o vt iniciou, gritei em disparada: olha a Rebeca que morou no meu prédio! A "baixinha" que abandonou a arquitetura e foi viver "um caso de amor com as letras"!
Adorei saber de você, do seu blog e das novas investidas. Sucesso. Beijo. Ciro
Rebecca M. disse…
Raquel, você é muito bem vinda! Adorei as reticências-marias... Volte sempre, viu?! Vou lá no seu blog te visitar também.

E Mari, o vídeo está lindo mesmo... Fiquei toda orgulhosa e feliz com a experiência.

Ciro, que surpresa boa! O que anda fazendo da vida?! Vou agora mesmo lá no seu blog descobrir... Bjos!
Anônimo disse…
Olá

Adorei seu blog.

Descobri através do blog do Para Francisco.

Eu fiz um post falando sobre as pessoas e gostaria de saber se poderia colocar esse seu post que acabei de ler com referência ao seu blog e o dia da postagem.

Se você me permitir, agradeço.

Obrigada

Alessandra

Meu blog é:
meninavoadora.blogspot.com
Rebecca M. disse…
Alessandra,

Obrigada pelo carinho!

Fique à vontade pra postar no seu blog, viu? Dps vou lá te fazer uma visitinha...

Bjos!

Postagens mais visitadas deste blog

Fazendo o balanço...

Em 2007, eu... Fiz novos amigos. Fiz o que pude pra guardar um tempinho para os velhos amigos, tão queridos... mas nem sempre consegui. Trabalhei bastante, mas sonhei ainda mais... Talvez demais. Tive pesadelos, mas acordei com alguém do meu lado... Senti muita falta da minha mãe. E mais ainda do meu pai. Falei a verdade. E me arrependi. Às vezes menti... Redescobri a Edith Piaf... e aprendi mais sobre arrependimentos. Tive muito medo, mas me socorreram a tempo... Saí da natação (mas pretendo voltar, juro!)... E engordei um pouco (eufemismos sempre são úteis). Vi dezenas (ou seriam centenas?) de filmes ótimos... E outros nem tanto... Vi duas peças magníficas! Rubros ... e Atrás dos Olhos das Meninas Sérias (se elas aparecerem em cartaz, corram pra lá!). Perdi a paciência... inúmeras vezes... Chorei de desespero... Mas me acalmei depois. Chorei de alegria - algumas vezes. Descobri o maravilhoso mundo encantado dos blogs... Descobri que toda vez que eu descubro algo novo, eu fico deslu

Números nem tão imaginários...

Eu tenho 141 cm. Conquistados com esforço, sim senhor. Para alguns, não é exatamente fácil crescer. Já fiz 2 cirurgias, 4.327 miojos, 3 lasanhas, 567 pizzas, 2 monografias, 1 dissertação, 1 tese, 84 sessões de psicoterapia e muita pirraça. Tenho 731 livros, 1 prótese cardíaca, 3 projetos novos, 7 primos e 21 plantinhas de estimação. Já morei em 6 casas diferentes fora de bh e em 9 casas dentro. Já matei 425 baratas, 1.329 formigas (quase sempre sem querer) e 1 aranha (afogada). Perdi 2 boas chances de ter começado a ser eu mesma bem mais cedo. Perdi as estribeiras umas 3 vezes. A compostura, 211 . Fui "diretora" de 3 peças de teatro, entre os 10 e os 15 anos. Atuei como "noiva" em 4 festas juninas e como "menina que morre na hora da bomba" em 1 peça de teatro do colégio. Já tive 14.322 idéias. A maioria não teve utilidade alguma. Perdi a hora 13 vezes. E sem desculpa. Ganhei 135.368 beijos, 6 fios de cabelos brancos e 4 quilos &qu

Das ofensas nada gratuitas...

Uma das muitas formas de se criticar uma mulher é afastá-la, com maior ou menor sutileza, de tudo o que é considerado como “parte” do universo feminino – delicadeza, beleza, suavidade, elegância, candura, flexibilidade. Notem que usei apenas adjetivos “positivos”, mas ninguém desconhece o que eles representam: se é delicado, não consegue brigar; se é suave e cândido, é fácil de manipular; se é flexível, pode ser perigoso; se é belo, pode desviar a atenção de coisas mais “importantes” ou úteis, geralmente ligadas à racionalidade (posto que a beleza seria da ordem da emoção, da sensibilidade, geralmente relegadas ao plano do superficial, ou do supérfluo). São positivos, mas são negativos também. Para ofender uma mulher, costuma-se tirar dela sua “feminilidade”, chamá-la de “menos mulher”, ou de “mulher pior”, roubar dela tudo que a ela deveria se ajustar como “essência feminina”, dizer a ela, enfim, que ela falhou como fêmea. Em outras palavras, chamá-la de macho. O interessante jogo sim