Pular para o conteúdo principal

Um dia ou dois.

[minha fotógrafa predileta]
No silêncio de domingo, o pai espera o filho no ponto. Na esquina da avenida, a moto desafina e derrapa. Os adultos brindam seus copos, alheios ao cozinheiro que saiu mais cedo. Na padaria acordada, tremem os vidros de geléia. No próximo telefonema, tudo será combinado. No espelho da farmácia, vemos a sombra de um rosto. Um pedaço de céu esquálido acontece em um beiral sem pombos. A tinta nova do prédio seca devagar e amarela. O mendigo segura as pernas, pra não cair na calçada. Os olhos estão enxutos, mas o coração pesa desastres. Há armas debaixo das roupas naquela casa alugada. O filme foi feito às pressas, mas trouxe muito dinheiro. Os canos enferrujados cantam sozinhos no escuro. As plantas crescem redondas, o vestido já está engomado. Há feridos no acidente, mas não se sabe se houve mortos. O chefe se vinga, o padre semeia, o espanto esmorece. Nada parece enrugado.
Mas eu. Eu às vezes me canso - da ferocidade do mundo.

Comentários

martina disse…
ah.... adoro as fotos dela também. e amo teus textos.
vai ser um prazer fazer companhia pra eles aqui!
:D
beijos
ana elisa novais disse…
rebeca, mas que luxo!
o texto é fantástico, adorei!
muito obrigada por essa fina gentileza, adorei...

beijos grandes,
ana
Daniel disse…
também gostei bem do que vi por aqui..
seguimos juntos então!

Postagens mais visitadas deste blog

Fazendo o balanço...

Em 2007, eu... Fiz novos amigos. Fiz o que pude pra guardar um tempinho para os velhos amigos, tão queridos... mas nem sempre consegui. Trabalhei bastante, mas sonhei ainda mais... Talvez demais. Tive pesadelos, mas acordei com alguém do meu lado... Senti muita falta da minha mãe. E mais ainda do meu pai. Falei a verdade. E me arrependi. Às vezes menti... Redescobri a Edith Piaf... e aprendi mais sobre arrependimentos. Tive muito medo, mas me socorreram a tempo... Saí da natação (mas pretendo voltar, juro!)... E engordei um pouco (eufemismos sempre são úteis). Vi dezenas (ou seriam centenas?) de filmes ótimos... E outros nem tanto... Vi duas peças magníficas! Rubros ... e Atrás dos Olhos das Meninas Sérias (se elas aparecerem em cartaz, corram pra lá!). Perdi a paciência... inúmeras vezes... Chorei de desespero... Mas me acalmei depois. Chorei de alegria - algumas vezes. Descobri o maravilhoso mundo encantado dos blogs... Descobri que toda vez que eu descubro algo novo, eu fico deslu...

Narcisistic home

O negócio é o seguinte: talvez a escrita nem comece. Estou em casa. Ou mesmo na rua. A casa é o intervalo para a rua. A casa é o começo da conversa. Daqui, ouço gritos. Moro no centro. O centro da cidade é um estampido. Rumores de todos os tipos. Sonoros, roucos, mudos. Viscosos. Gritos. O tempo todo. É como uma espécie de fábrica. De mugidos e cisternas. De gargalhadas. É como uma espécie de mercado. De fim de sexta-feira. Assovios, apitos, estalos, arranhões. Todo mundo. Algo vibra o tempo todo. Não faço idéia do quê. Bom, está chovendo. Mas não é o barulho da chuva. É atrás da chuva. É atrás do som. Algo que não se escuta nunca. Só agora. Depois do silêncio dos tacos. Antes do elevador. A casa é engraçada . Toda em portas. Um corredor. Algo que se estica. Uma varanda. Portas encardidas. Pedaços de fios. Conexões. Rios antenados espumando ligando controlando. Confirmando. Somos todos muito sozinhos. O lugar do telefone é importante. O espaço da tv. O espaço da fome. Eu não tenho ...

Da educação

Quando encontramos uma pessoal “mal educada” por aí, normalmente pensamos na falta de educação familiar (também conhecida popularmente como “pai e mãe”). Também é comum, quando conhecemos a família da pessoa em questão (e reconhecemos que a falta não vem dali), que pensemos na educação escolar propriamente dita, e nas possíveis lacunas que essa (má) educação possa ter infligido ao indivíduo mal educado em questão. Às vezes pensamos nas duas coisas, mas raramente pensamos em um “terceiro” fator, que é, do tripé educacional, o mais complexo: o fator cultural. Todos nós conhecemos, afinal, pessoas muito (ou bastante) letradas, educadas em escolas reconhecidas, ou de referência, com famílias também educadas e pais igualmente bem “formados”, que são, sabe lá Deus por que, verdadeiros colossos de ignorância, falta de sensibilidade para com o próximo e civilidade tacanha, se não inexistente. Também não é difícil encontrar o contrário, pessoas que, mesmo sem ter recebido da es...