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Babel Inexpugnável

No primeiro piso da torre, há apenas o verbo. A confusão do verbo.

Depois, vão se seguindo as balbúrdias, cada vez mais refinadas, cada vez mais firmes.

Há o piso da confusão das idéias, claro. O piso da confusão dos conceitos. O piso da confusão dos argumentos. O piso da confusão de princípios.

Há o piso da colisão de teoremas. Do embaralhamento das direções. Do teatro circular da dialética. E também, como não, os andares destinados aos erros de cálculo, aos mapas inúteis, às palavras soberbas, às listas de nomes da anatomofisiologia, ao sono ou ao idealismo fútil, enfim, à tudo aquilo que confunde e constrange, aos catalisadores da dispersão e da fuga.
Os andares reservados para as provocações do álcool, dos alucinógenos e dos estimulantes em geral são inúmeros, sofisticados, intercalados por toda sorte de desordens menores e divertidas, salas abertas para o esquecimento e para a alucinação, câmaras delicadas para as viagens imaginárias, quartos propícios para a divagação e o estudo de toda sorte de teorias absurdas, tanto mais divertidas quanto mais incoerentes.
Existe ainda na torre, como não podia deixar de ser, espaço suficiente para as mais vulgares e as mais dignas bibliotecas, cada qual com sua atmosfera específica, empapeladas, entulhadas de manuscritos, plenas de mistérios assombrosos e de conclusões devastadoras e terríveis sobre toda espécie de assunto.
No interior mais fundo dessas catacúmbicas salas de leitura, podem ser encontrados delicados laboratórios de vidro, cuja função é destilar incansavelmente os dogmas produzidos pelas labirínticas prateleiras, alimentando, assim, nobre e bravamente, a obra interminável da torre de confusões.

De fato, a torre nunca caiu. Eleva-se, cada vez mais alta e mais firme, em direção aos Deuses. Que nunca estiveram, de fato, ameaçados por ela.

Afinal, há seguramente um andar onde se forja a confusão de histórias sobre a torre. Em muitas, ouve-se falar de ruínas, de desabamentos augustos, de históricas implosões. Em algumas, há detalhes curiosos, de aviões ou de monstros que se chocam contra ela, guerras que ali começaram, problemas nas estruturas, relatórios lógicos sobre a probabilidade do desastre. Em outras, a torre nunca começou. Seja porque não havia homens capazes de levantá-la, seja porque nunca houve a necessidade de construí-la, já que os seres da terra estavam irmanados sob uma única verdade, sob uma única linguagem, livre de metáforas e de equívocos.
Seja como for, a torre cresce incansável, vertical e oblíqua, circular e horizontal. Expande-se para todos os lados, cada vez mais viva, nítida e iridescente. Seu funcionamento, como o da loteria de Babilônia, é silencioso e ambíguo, provocando conjecturas e especulações de toda ordem e causando polêmicas rigorosas e infinitas. Que só servem, de resto, para protegê-la de qualquer invasão (ou inversão) maliciosa ou cínica, traiçoeira ou viril.
Mas a Grande Invasão nunca acontecerá, decerto, porque nunca se viu ninguém do lado de fora.
Para Borges, claro.

Comentários

Susana disse…
rebs,
delícia de imagem: essa da torre-poder!

os do lado de fora, ninguém nunca os viu. mas oh, quantas imagens se produzem sobre eles!

Eu acredito nos "bárbaros"! Como disse Coetzee, eles estão lá, vivem outros mundos, que desconhecemos.

e fica então a pergunta... os do lado de fora, que imagens terão dessa babel? Será que saberemos um dia? Ou estarão eles fadados à extinção pela sombra dessa torre cada vez mais alta?

beijo,
Su
Rebecca M. disse…
Su,

Gostei da sua interpretação.

Na verdade, quando falei em "nunca se viu", eu pensei mesmo em uma inexistência do fora, na inexistência de humanos "exteriores" à confusão linguístico-cultural...

Talvez do lado de fora só existam "deuses". O Otávio Paz afirma que os deuses não "falam", a fala deles já é ação/criação... Não é uma idéia interessante?
Eles não tem esse "intermediário"...

A sua pergunta sobre a imagem exterior da torre é muito interessnte... É a imagem do impossível, na minha opinião, mas talvez esse seja o nosso maior desejo...
Rebecca M. disse…
Sim. Talvez seja mesmo o próprio homem a torre...

A torre começa quando ele "começa" a ser humano... quando ele cria/inventa a linguagem, quando é aprisionado e liberto por ela...

Enfim, fico feliz que o texto tenha provocado reflexões. Eu mesma já começo a duvidar mais dele... e a gostar mais...

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