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Cordéis avulsos

Vida e literatura são piedosamente imprecisas. O vazio razoável. Necessário. Para o salto. Nunca absoluto. Mas evidente. A literatura encena o que a vida exige. Às vezes fome. Às vezes, consistência. Tudo é sobreposição. Avesso. Incontinência. O rosto exacerbado. Nem grandiloquente nem suntuoso. Apenas colocado. Visto para ser revisitado. Do argumento da sede: a redundância é sempre bem vinda. A forma em seu tempo. Talvez formalize uma fértil ampliação de fronteiras. Talvez.

Um dia desses...

Um dia desses eu conto. O que vem acontecendo. O que anda pegando. Como ando e persisto e calo e me mudo. Como mudo. Como emudeço. Como permaneço ou persigo o que não mereço. Conto como me faço e como me esqueço. Um dia desses eu conto. Como reconheço. Conto também como é grande a fome. E grande o tropeço. Conto se vivi, se sofri, se entrei de férias, se perdi a conta. Se a dividi ou deixei pra lá. Conto e desconto as dívidas. As falências. Conto como me multiplico. Como sangro. Como divago. Conto como venho falindo, falhando, encantando. Conto como venho perseguindo o que nem sei o tamanho. Conto logo logo. Logo me abro. Logo me afogo. Um dia desses. Quem sabe. Conto talvez o milagre. Mas por enquanto. Sei lá. Vou contando a passagem.

Pra sempre...

Não lembro bem quando te vi a primeira vez, nem a segunda, mas um dia devo ter te visto de verdade, porque, na minha memória, é como se você sempre estivesse estado lá. No fundo da sala, com os colegas mais barulhentos, pertencendo a uma turma que eu gostaria que fosse minha, mas não era. Eu ficava na frente da sala, colada nos professores, e tinha por turma outras colegas, menos indóceis que você, um pouco mais responsáveis. Mas nem de longe tão lindas. Você tinha lindos olhos escuros, redondos, e uma pele muito branca, toda pintadinha de micro sardas clarinhas, quase da cor da pele mesmo. Ainda tem. Seu nariz era engraçado (ainda é), e eu me lembro que ele me conquistou. Ele ficava ainda mais engraçado quando você ria, e eu me peguei me esforçando muito pra ver você rir. Eu faço isso até hoje, e sei muito bem porque. De algum modo que não me lembro como foi, começamos a participar de um coral, e por causa dele fiquei mais próxima de você. Por causa desse coral, cantamos juntas, andam...

Passagem das horas...

Então, esse dia, vulgar e já falecido, que provavelmente desaparecerá no mugir inconstante dos outros todos, a menos que, deus-me-livre, seja o último, ou o anterior a algo imenso ou terrível que sempre pode acontecer amanhã, a menos que, portanto, seja o crepúsculo de uma era, ou o arauto dos novos tempos, esse dia, opaco e tímido, nunca terá existido, nunca terá feito diferença, nunca terá salvado o mundo ou nascido para brilhar. Esse dia, como nós mesmos todos, um dia, nada mais terá sido. Além dele próprio. Por isso, o deixo aqui. De castigo. Cumprindo pena de semi-eternidade.

Falando nisso...

O que eu tenho a dizer é da máxima importância. Mas não sei como dizer, ou como começar. Só tenho uma dúvida, entre muitas, e ela me diz o seguinte: por que, entre tantas vidas ritmadas, minha voz se quer fazer ouvir? Por que só eu, entre outros tantos que dizem e falam, se acha no direito de se fazer mais audível, ou mais temível, ou mesmo mais relevante? O que eu tenho a dizer não tem nenhuma importância. Na verdade, é a importância mesma que se cala quando alguém diz o que é dizível, e o que não é. A importância, com sua gravidade encorpada e luminosa, é atulhada de coisas sem nenhuma ferocidade, sem nenhuma espécie de inutilidade, sem qualquer traço de tímida volúpia. Por isso mesmo se esquiva de importar, e só aos tolos importa, só aos parvos assusta, só aos cegos se impõe. Eu ali vou incluída, evidentemente. Porque sou tola, parva e cega. E só outros que também assim são com isso não concordariam. Sim, o que tenho a dizer não é importante. Mas nesse mesmo instante existe. E por s...