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Dúvida

Se cada discurso pode ser um começo, e cada percurso um tropeço, vale dizer que qualquer postura é um avanço, sem deixar de ser retrocesso? Se cada movimento pode ser um princípio, ou um processo, e cada ternura um alívio, ou um deserto, não convém admitir, finalmente, que toda leitura tem seu preço? E o resto é resto?

Quase assim...

Fonte da foto: http://inafractionofasecond.blogspot.com/2010/01/irish-blessing.html Há muito tempo que não escrevo. Há muito tempo que não salto, não ganho, não perco. Estou atada numa espécie de silêncio complacente e revoltado, diante do mundo, diante das coisas. Tenho pouco a dizer, porque as palavras quase sempre me cansam. São demasiado impuras, demasiado invasivas. Mentirosas mesmo. Infames. O que tenho a dizer não é íntimo nem grave, não é passado nem futuro, simplesmente não existe. Não quero falar nada, nem nada compartilhar. Quero apenas estar aqui. Quero apenas, num espasmo antes de tudo egoísta, mas profundamente humano, me apagar num gozo flácido de mim mesma, vouyer alheada da comédia social, sempre tão mesquinha e quase ridícula. Esse apagamento, no entanto, só pode acontecer sob a égide de uma participação meticulosa, coordenada, estratégica. Não basta ser, tem que participar, já dizia um comercial de remédio para contusões. Muito apropriado, aliás. Participar...

Nem assim tão noite

Foto: Yosigo Como começou esse poema? Ele começou em uma noite de insônia. Terminou agora. Terminou a medo. Porque é preciso ter medo para sobreviver. Começou com o medo e terminou depois. Depois do medo é o sonho. De não ter mais medo. Mas aí, nada. O nada também vem depois do medo. Tudo são palavras e é preciso nascer muito para entender. Que é tudo vazio e de noite, mas de vez em quando se canta. Seja porque o instante existe, seja porque se tem medo e é agora. Eu canto a noite, de noite, no escuro. É bem tedioso, mas funciona. Eu canto a noite e suas dádivas porque tenho insônia e medo e escuros. Se tivesse outras coisas, outras coisas faria, mas isso é só o que tenho. Contentem-se. É pouco. Mas é quase azul.

...

No meio do verso, o susto, Seja ao meio, expectante. No meio do verbo, o meio, Seja em morte, exultante. No meio de tudo, um pouco, Quase nada, quase antes. No meio de mim, eu mesmo, Quase verbo, Tremulante.

Não por acaso

Imagem: Margaret Durow O caso sobretudo era o de estar presente. De calcular a hora certa. Agir precipitadamente não era pra ele. Tudo precisava ser desenhado com muito gosto. E precisão. Ele era um homem de sobreavisos. Não podia falhar. Estar ali, no instante exato. Executar o gesto, coisa tão simples. Evitar desvios. Não derrapar. Conquistar primeiro os olhos. Depois as mãos. Depois o resto. Era mesmo tão fácil quanto diziam. ... Porque então não parava de tremer? Ou de soluçar?

Faça você mesmo seu jogo linguístico

Escrever no vazio. A partir do vazio. Sobre ele, com ele, em torno dele. Escrever o vazio. Esvaziá-lo. Não é assim que se excede? ... Escrever no excesso. A partir do excesso. Sobre ele, com ele, em torno dele. Escrever o excesso. Torná-lo excessivo. Não é assim que se escreve? ... Escrever na escrita. A partir da escrita. Sobre ela, com ela, em torno dela. Escrever a escrita. Entregá-la. Não é assim que se ama? ... Escrever no amor. A partir do amor. Sobre ele, com ele, em torno dele. Escrever o amor. Revivê-lo. Não é disso que se morre? ... Escrever na morte. A partir da morte. Sobre ela, com ela, em torno dela. Escrever a morte. Morrer a morte. Não é assim que se fica vazio?
O que se diz do novo A renovada forma O que se diz de novo A renomada espera Um ano Outro ano O tempo Como um golpe que escapa Sem ferir coisa alguma Como um silêncio esmiuçado Por mãos vazias E tenras O que se diz de novo e de novo Atrás dos sorrisos ansiosos Sejamos felizes Apesar de E para sempre Sejamos felizes: a vida é curta E grossa Guarda em segredo novos rituais Onde se diga de novo O que nunca devera ser Velho