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Ops!

Cansada de dizer coisas óbvias ou coerentes, ela divagava. Detestava a coerência, que era pra ela como uma espada espantada. Passou a dizer coisas alhures. A misturar melancias com pistões. E dava mesmo muito certo. Algorítimos casavam bem com sinagogas. Suspiros, com determinações. Era mesmo assim mesmo. Ela era ovalada. De suas pernas nasciam hermenengardas, que só andavam vestidas no outono. Seus cabelos, feitos de sistemáticos motrizes, nunca eram cortados, mas diziam muito. Diziam louças e tempestades. Tramas familiares. Estigmas. Tudo por uma esmeralda. Viaturas. Cansada de dizer coisas prudentes, começou a arriscar no escuro. Nada era muito pouco. Tudo sobrava em puro susto devedor. Ela era Penélope costurante e Orfeu desatado. Nadava sempre de costas, para não encontrar a outra margem. E ganhava sempre nos jogos, disposta a modificar o circunflexo. Foi queimada dezoito vezes, e tem cicatrizes fetônias, mas não se rende. Depois de terminados os sábados, vai adoecer na chuva, par...

Chuva de Letras

Esse post é só pra convidar pro lançamento de Chuva de Letras , o novo livro do Luis Alberto Brandão. Desta vez, escrito para os pimpolhos... O evento vai ser no Café com Letras, no dia 28/03, sábado, a partir das 11:00h. http://www.scipione.com.br/chuva/chuvadeletras.swf A julgar pelos dois primeiros - que me deliciaram, comoveram, seduziram e encantaram de uma forma muito particular, e quase intraduzível -, o livro novo é sem dúvida esplêndido. Vamos?

Um dia como qualquer outro?

Nesse dia das mulheres, faço questão de reproduzir aqui um texto de Marjorie Rodrigues , que resume o que eu penso sobre o assunto com muita propriedade! DISPENSO ESTA ROSA! Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: ”parabéns”. Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”. Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa. Dize...

Um nome para Deus [Parte I]

Foi quando ouviu o nome de Deus pela primeira vez. Primeiro dia de aula, escola nova, uniforme novo. Outras coleguinhas. O coração batendo grande e urgente. No meio da primeira aula, ela apareceu. Era uma moça bonita, mas vestida de um jeito esquisito. E prometeu que depois do recreio as pequeninas novatas iriam se encontrar com Deus na capela principal. Deus? A voz da moça era grave e firme. E parecia emocionada. Não podia ver seus cabelos, escondidos embaixo da touca, mas os lábios finos, suavemente expostos num sorriso, além daqueles olhos tão brilhantes, rapidamente a convenceram da importância do encontro. A simplicidade do nome a emocionava, e uma vaga lembrança de que já o havia escutado antes dava-lhe a certeza de que, finalmente, alguma coisa iria conhecer do mundo distante dos adultos. O recreio foi longo pra tanta expectativa. Com o lanche esquecido no colo, a toda hora pensava naquele nome, e no que ele tinha de lindamente simples. Deus, deus, deus, deus. Estava eufórica, e...

À maneira de Ulrica

Para Silk... Sobre ela, pouco se podia dizer. Dizia-se de sua pele comovente, expansiva em forças. Explosiva ternura. Dizia-se de sua beleza. De seus girassóis. Leveza vibrátil e ardente, tocada pelo fogo, marcada por seu inexaurível mistério. Dizia-se de sua febril intensidade. Seus olhos. Ardorosa meditação sobre a alegria. Dizia-se de sua vibração aquática, humores e fluidos em infatigável doçura. Dizia-se de sua proximidade com os ventos. De sua liberdade cantante de moça do ar. Dizia-se de sua densidade terrestre. Da disposição para o encanto. Das exigências do corpo. Das pernas. Falava-se, sempre e sempre, acerca da conformação sutil de seus quatro elementos. Caleidoscópicos. Sutis neblinares de tímida e rutilante orquestração. Dizia-se que era criança e mulher. E que podia ser encantadoramente nossa em certas noites de lua cheia. Ou quando do encontro de certos tipos de amuletos. E de suspensórios. E mais não se podia dizer. Porque seria sempre muito pouco. Para saber mais sobr...

De águas e vôos

Chove muito. Há muitos dias. E em quase todos eles, você esteve longe. Não posso te explicar quanto senti sua falta. Todos esses dias. Torrentes de água escoando, o muro liquefeito das esquinas, árvores ensopadas, pássaros escondidos, meus cabelos escorrendo, se desmanchando, o mundo inteiro se dissolvendo, os carros boiando sôfregos na tempestade, a noite submersa em rios, úmidas vertentes. Chove muito. Há muitos dias. E em quase todos eles, você esteve muito perto. Não posso explicar sua presença em mim, dissonante. Algo de água. Sempre fugindo. Dissolvida. Em todas as esquinas. Encharcando os sapatos, abrindo as sombrinhas, refrescando os beirais e amolecendo os telhados. Sua presença. Em mim. Na chuva. Liquefeita, esboroante, fúlgida. Tímida. O mundo inteiro encolhendo. Só sua ausência existindo. Meu coração boiando sôfrego na tempestade, contra o céu da meia-noite, te encontrando. A noite submersa em sangue, meu corpo todo pulsando, úmidas vertentes. Agora continua chovendo. Mas v...

Substantivo suicídio

O suicídio de um rato não é igual ao suicídio de um inseto não é igual ao suicídio de um mastro não é igual ao suicídio de um templo não é igual ao suicídio de um resto não é igual ao suicídio de um vício não é igual ao suicídio de um gesto não é igual ao suicídio de um fato não é igual ao suicídio de um tempo não é igual ao suicídio de um vivo não é igual ao suicídio de um morto não é igual mas é suicídio