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Quase comestível

Não, eu não gosto de cozinhar. No entanto, acho comovente quando os círculos perfeitos e transparentes das cebolas, antes tão acidamente cantantes, são mergulhados no caldo espesso e orgulhoso do azeite, para se bronzear e adormecer no fundo escuro das frigideiras. Adoro o cheiro úmido da hortelã, o violáceo impertinente das beterrabas, a madeira antiga das colheres de pau, mexendo insistentemente as abóboras cor de manhã. É comovente também o amolecimento vagaroso, mas inexorável, das raízes mais duras e das carnes mais densas sob o poder das chamas. O fogo, enfim, ainda que mecânico e domesticado, ou tornado quase místico sob as pétalas simétricas de um transparente azul, é sempre inebriante comoção. No entanto, comovem-me ainda mais as vigorosas mãos das cozinheiras, ásperas dos plangentes cortes, do contato diário e fumegante com as violentas texturas da feira: a pele plástica dos tomates; a secura terrosa e vibrante das batatas; o desfolhamento seco e pardo das cebolas; a doçura ...

Sem máculas

Depois dos dias vencidos, a longa maratona de erros, calou-se, só e atenta, diante das grandes conquistas. Se havia sido difícil, nunca soube, sempre preocupada com a conduta alheia, com a correção dos gestos, com a manutenção das fórmulas. A máquina funcionando. Azeitada, constante, ferrenha. Os cabelos negros aprumados, a saia ajustada e sem vincos, o rosto impassível, o olhar austero. As longas mãos, no colo profundo, pousadas como águias em repouso, depois do ataque urgente. Prestes a. A vasta família, impecável. Os filhos todos prontos e sábios. As filhas todas casadas, com homens de bem e saudáveis, mantenedores úteis e ferozes, mas não muito inteligentes. Graças a Deus. A maioria dos netos ainda na delicadeza da infância, alguns já sendo apresentados às mordaças da espécie e alguns poucos já domesticados e circunspectos, esperando a boa hora do vôo em direção ao altar ou ao mercado, como bem conviesse. A vasta família, impecável. Os olhos ávidos por dinheiro e espaço. Por uma po...

Vagamente pessoal

Trago em mim, insone e emocionada, uma criança esquiva. Ela averigua meus cantos flácidos, torna habitáveis meus temores profusos. Ela tece em mim suas noites aflitas, faz de mim sua morada de medos. Eu, muito em mim, às vezes a rejeito em ódios e gritos. E nesse mesmo momento a acolho. Deixo-a fazer de mim o que quer e sempre consegue. Eu a persigo em vísceras, em espasmos, em cólicas. Ela foge do meu carinho mais ginecológico, mais primal. Ela me assusta, me infla, me geme. Ela é minha língua que se move em erros. É meu passado que se move em língua, é minha matéria que se move em vícios, meus vícios que se movem em páginas. Desordenadas páginas de pano e vidro. Ela é a soma de minhas partes e cada parte de minhas incompletudes. Ela abotoa minha roupa pra meu eu maior sair. Ela geme quando não quer ir e impede-me de falar. Ela amedronta e ameaça. Absurda, me comove e plange. Ela em mim entra e sai quando bem quer. Ela é que me existe, me exibe, me idolatra. Me contamina. Às vezes que...

Então...

Então, porque você me encantava: eu afinava as cordas do meu mundo incerto, aprumava planos, para desmontá-los logo. Febril, em atividade de amor, me descobri no então-agora do tempo. Detalhei-me em suaves destinos, ouvi sons impensáveis. Você era minha fome e meu anelo com a nova terra que então se formava. Então, porque você me encantava, tomei o espaço nas mãos em brasa, e o tornei em pétala, em pluma, em página.

Sábado de Aleluia

Uma vez fechado o portão, veio a grande alegria. Estava sozinha. Voltou lentamente para dentro, respirando com delícia, já destacada de si. Viu-se, ao longo dos dias e das noites seguintes, podendo fazer o que bem entendesse. Viu-se estendida no quintal, olhando o céu por horas a fio, não se importando com a comida ou com os deveres de casa. Viu-se afundando as mãos na terra seca, sentindo os cheiros todos do mundo, que crescia e se multiplicava, enquanto contava e recontava cada uma das vibrantes ondas de luz que por ali serpenteavam. Viu-se inteira e solta, livre para ficar quase três horas no banho, sentada no chão do box, deixando a água cair nas costas como uma cachoeira pacífica e determinada, enquanto se ocupava em desenhar com o xampu quadros efêmeros e impressionantes nos azulejos esverdeados. Viu-se lambendo a panela do bolo, que faria com o pote inteiro de Nescau, sem ter que dividir o prazer com irmão nenhum. Aliás, viu-se sem irmão nenhum, enfiada nos quartos deles, brinc...

Outra Sonata de Outono...

Ela era uma mulher estranha. Apareceu no meu consultório há quase três anos. Nunca mais voltou, mas contou-me sua história terrível. Pediu-me conselhos. Eu me lembro de ter falado alguma coisa, sem muita convicção ou interesse. Na época, estava envolvida com outros problemas e, de alguma maneira, eu sabia que ela não voltaria mais. E rapidamente me esqueci dela. No entanto, nos últimos meses, sua presença oblíqua e altiva tem me entulhado a memória de fantasmas. Aos poucos, fui me lembrando de cada detalhe da sua longa história, que me foi parecendo, dia após dia, cada vez mais real e remota. Como se viesse, maldita e cansada, do interior abrupto e cristalino de múltiplos espelhos. Como se fosse ela mesma uma sentença. Ou um enigma. Começou assim: ela odiava a filha. Desde o nascimento, ela a odiou. De acordo com ela, cada espasmo de vida daquela minúscula criaturinha era preenchido e alimentado por um ódio calmo e delicado, mas poderoso, que a tornava, se não mais feia, cada vez mais ...

Meu nome é legião...

Meu Prezado Amigo, Escrevo-lhe esperando que você me avalie tão severamente quanto o faria se não me conhecesse tão intimamente. Procuro-o menos como amigo e mais como o profissional que é, médico e pesquisador respeitado, conhecido em sua comunidade e fora dela como um dos altos nomes da psiquiatria. Pensei em mandar um e-mail, mas tive medo de que as informações ali colocadas se extraviassem ou caíssem em mãos inescrupulosas (já me avisaram que e-mail´s são como cartas abertas vagando por universos confusos e perigosos, sujeitas a assaltantes, saqueadores e curiosos de toda ordem). Enfim, como as informações que se seguem são confidenciais e bastante perturbadoras, imaginei que o melhor mensageiro seria de fato o Correio Nacional, com sua variante registrada. Sei que a preocupação é um tanto quanto paranóica, admito, mas a minha posição e fama assim o exigem. O fato em si é simples, mas terrível. Não o comuniquei antes porque não vi logo o perigo. No início, senti-me apenas perturbad...